O Sussurro do Sertão
Capítulo 17 — A Cicatriz da Memória e o Prefeito Fora da Lei
por Bruno Martins
Capítulo 17 — A Cicatriz da Memória e o Prefeito Fora da Lei
O crepúsculo banhava a Cova Funda em tons alaranjados e roxos, um espetáculo de beleza que contrastava com a melancolia que pairava no ar. A fazenda de Jeremias, agora um símbolo de libertação, ainda carregava as marcas da violência recente. Homens trabalhavam em silêncio, reparando o que podiam, organizando os poucos recursos que restavam. Dona Aurora, sentada em um banco rústico sob a sombra de uma mangueira centenária, observava a agitação com um olhar sereno, mas atento.
Lucas, com o corpo dolorido, mas o espírito revigorado, aproximou-se dela. Havia semanas que a tranquilidade parecia ter se instalado, mas ele sabia que a paz era frágil, um espelho que podia se estilhaçar a qualquer momento. A derrota de Jeremias havia deixado um vácuo de poder, e nesse vácuo, as ambições mais sombrias encontravam espaço para germinar.
“Dona Aurora,” disse Lucas, sentando-se ao lado dela. “Os preparativos para o funeral dos nossos companheiros estão quase prontos. E o conselho popular se reúne amanhã pela manhã para definir os próximos passos.”
Dona Aurora assentiu, seus olhos fixos em um ponto distante. “É um passo importante, Lucas. Uma comunidade que se organiza para decidir o seu próprio destino é uma comunidade forte. Mas o Prefeito Anselmo… ele não parece satisfeito com essa nova ordem, não é?”
Lucas suspirou. Ele sentia o olhar calculista de Anselmo sobre ele a cada movimento. O Prefeito, antes tão submisso a Jeremias, agora tentava, de todas as formas, manter alguma influência, algum controle. “Ele tenta se aproximar, oferecer ajuda, mas sempre com uma agenda escondida. Ele me abordou hoje de novo, falando sobre a necessidade de ‘restaurar a lei e a ordem’. Uma lei e ordem que ele mesmo ajudou a sufocar por anos.”
“E a água, Lucas? Jeremias a controlava com mão de ferro. Agora que ele se foi, o que faremos? Aquela fonte na fazenda dele é a única que alimenta a região.” Dona Aurora acariciou as mãos enrugadas, a preocupação evidente em seu rosto.
“É por isso que o conselho precisa decidir,” respondeu Lucas. “Vamos ter que gerir a fonte de forma comunitária. Precisamos de um sistema justo de distribuição. Sem monopólio, sem favorecimentos. Mas sei que o Prefeito vê isso como uma forma de poder.”
Naquele instante, um dos homens que vigiava os arredores da fazenda se aproximou apressado, o rosto pálido de preocupação. “Lucas! Dona Aurora! Uma notícia preocupante. Os homens do Prefeito Anselmo… eles foram vistos perto da represa. E estão carregando ferramentas de demolição.”
Um arrepio percorreu a espinha de Lucas. A represa. A principal fonte de água que abastecia a comunidade e as poucas terras férteis da região. Se Anselmo tentasse sabotá-la, seria um golpe devastador. Uma vingança mesquinha, uma tentativa de mostrar que sem ele, a Cova Funda sucumbiria.
“Ele não faria isso,” murmurou Dona Aurora, incrédula.
“Ele faria,” confirmou Lucas, sua voz ganhando a dureza de quem já vira o pior da natureza humana. “Ele não se conformou. Ele quer provar que a sua ‘ordem’ era a única que funcionava. Ele quer nos fazer depender dele, ou nos afogar em nossa própria liberdade.”
Lucas se levantou, a adrenalina começando a pulsar em suas veias. Era uma luta diferente da que ele travou contra Jeremias. Essa era uma luta contra a ganância, contra a desonestidade disfarçada de interesse público. “Precisamos ir até lá. Agora.”
Ele reuniu alguns dos homens mais corajosos que ainda estavam na fazenda, aqueles que o haviam seguido na batalha contra Jeremias. Eram poucos, mas a chama da revolta ainda ardia em seus corações. A notícia do plano de Anselmo serviu como um novo combustível.
A caminhada até a represa foi tensa. O sol já se pusera, e a lua, uma fatia prateada no céu estrelado, mal conseguia dissipar a escuridão crescente. Cada sombra parecia esconder um perigo, cada ruído se transformava em ameaça. A lembrança da violência que Jeremias espalhara pela região estava fresca na memória, e o medo de uma nova confrontação era palpável.
Ao chegarem à represa, a cena confirmou seus piores receios. Cerca de uma dúzia de homens, contratados pelo Prefeito, estavam armados com marretas e picaretas, prontos para iniciar a destruição. Anselmo estava entre eles, gesticulando com impaciência, seu rosto iluminado pela lanterna que segurava, um sorriso de escárnio estampado em seus traços.
“Vocês acharam mesmo que podiam me ignorar?” gritou Anselmo, assim que avistou Lucas e seu pequeno grupo. “Vocês acharam que poderiam construir um futuro sem a minha benção? Esta represa é um bem público! E a administração deste bem público é responsabilidade minha! Se não posso controlá-la, ninguém terá água!”
Lucas avançou, o peito inflado pela indignação. “Anselmo, você é um covarde! Um traidor! Você não representa ninguém! Você é apenas um parasita que se aproveita da fragilidade alheia!”
“Parasita?” riu Anselmo. “Eu sou o homem que traz a ordem! Jeremias era um tirano, sim, mas pelo menos ele mantinha as coisas funcionando! Vocês, um bando de desordeiros, querem tudo de graça! Querem o poder sem o trabalho! Mas eu não vou permitir!”
A tensão atingiu o ápice. Os homens de Anselmo se posicionaram, prontos para a briga. Os homens de Lucas, embora em menor número, estavam determinados a defender a fonte de vida da comunidade.
“Vocês não querem o meu mal,” gritou Lucas, sua voz ecoando sobre o som da água que fluía. “Vocês querem o nosso desespero! Querem nos ver humilhados novamente! Mas nós não vamos ceder!”
A luta começou. Não foi uma batalha tão sangrenta quanto a da fazenda de Jeremias, mas a ferocidade era a mesma. Os homens de Lucas lutavam com a força de quem defende o que é seu, com a coragem de quem não tem mais nada a perder. Os homens de Anselmo, mercenários contratados, lutavam com a frieza do dinheiro, mas sem a convicção dos que defendiam uma causa justa.
Lucas enfrentou Anselmo diretamente. O Prefeito, desajeitado, tentou revidar com a lanterna, mas Lucas, mais ágil e determinado, desarmou-o com um golpe rápido. Anselmo, desprovido de sua arma, caiu de joelhos, o desespero tomando conta de seu rosto.
“Você não pode fazer isso, Lucas!” implorou. “Eu sou o Prefeito! Você está cometendo um crime!”
Lucas o olhou com desprezo. “O crime, Prefeito, foi o seu. O crime foi se aliar a um tirano, o crime foi tentar destruir o futuro desta comunidade. Você não é mais o Prefeito de ninguém. Você é um fora da lei.”
Os homens de Anselmo, vendo seu líder derrotado e sem a disposição para continuar a luta, começaram a fugir, um a um. A resistência se desfez em poucos minutos. A represa estava salva.
Anselmo permaneceu ali, ajoelhado na terra úmida, a luz fraca da lua revelando seu desespero. Ele havia apostado tudo e perdido. Sua ambição o havia levado à ruína.
Lucas sentiu um misto de satisfação e melancolia. Ele havia vencido mais uma batalha, mas a cicatriz da memória de Jeremias e a luta contra a corrupção ainda pesavam em sua alma. Ele sabia que a Cova Funda ainda tinha um longo caminho a percorrer, mas naquele momento, olhando para a represa intacta, ele sentia que um novo capítulo de esperança havia sido escrito, um capítulo onde a justiça, por mais difícil que fosse, começava a prevalecer. A noite, antes escura e ameaçadora, agora parecia mais clara, iluminada pela luz da lua e pela promessa de um amanhã mais justo.