O Sussurro do Sertão

Capítulo 19 — A Visita Indesejada e o Fantasma do Passado

por Bruno Martins

Capítulo 19 — A Visita Indesejada e o Fantasma do Passado

O céu da Cova Funda, nas semanas que se seguiram, parecia mais azul, o ar mais leve. A comunidade, sob a liderança de Dona Aurora e com a orientação de Lucas, prosperava. Os campos, antes improdutivos, agora exibiam brotos verdes promissores. A irrigação da represa era feita de forma consciente, e a cooperação entre as famílias se tornara a norma. A fazenda de Jeremias, que um dia fora um símbolo de opressão, agora era o centro vibrante da vida comunitária.

Lucas, sentindo um senso de pertencimento que nunca imaginara possível, dedicava-se de corpo e alma ao trabalho. Ele ensinava, aprendia, e sentia a terra responder ao seu toque. A semente de maracujá que Dona Aurora lhe dera estava crescendo forte em um pequeno canteiro perto de sua modesta moradia. Aquele gesto simples era um lembrete constante de sua nova vida.

No entanto, a tranquilidade, como um sopro passageiro no sertão, não duraria para sempre. A notícia da queda de Jeremias e da ascensão de uma nova ordem na Cova Funda havia se espalhado para além dos limites da região. E alguns indivíduos, acostumados ao poder e ao desrespeito pelas leis, não viam com bons olhos essa mudança.

Um dia, quando o sol já se despedia no horizonte, pintando o céu com cores vibrantes, um comboio de carros luxuosos, em contraste gritante com o cenário rústico, adentrou a Cova Funda. Os veículos, com placas de outras cidades, levantaram nuvens de poeira, anunciando uma presença indesejada.

Lucas, que estava ajudando Manoel a consertar um trator, sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Aquilo não era bom sinal. Os rostos curiosos dos moradores logo se voltaram para o comboio, uma mistura de apreensão e desconfiança estampada em seus semblantes.

Os carros pararam em frente à antiga casa principal da fazenda de Jeremias, onde Dona Aurora e os membros do conselho costumavam se reunir. De um dos carros, desceu um homem alto, com um terno impecável e um sorriso que não alcançava os olhos. Era Dr. Valdemar, um advogado conhecido por sua frieza e sua habilidade em distorcer a justiça a favor de quem o pagasse bem. Ao seu lado, surgiram outros homens, alguns com semblante duro, outros com a aparência de capangas.

Lucas correu até Dona Aurora, que observava a cena da varanda, o rosto tenso.

“Dona Aurora, quem são eles?” perguntou Lucas, a voz carregada de apreensão.

“Não sei, Lucas. Mas a forma como chegaram… não é para pedir água,” respondeu ela, o tom baixo e preocupado.

Dr. Valdemar, com passos firmes, dirigiu-se à varanda. Ele olhou de Dona Aurora para Lucas, e em seguida, varreu o olhar pela comunidade reunida, um ar de superioridade evidente em sua postura.

“Bom dia,” disse ele, a voz polida, mas com uma nota de autoridade. “Sou o Dr. Valdemar. Represento os herdeiros legais da fazenda e de todos os seus bens. E vim aqui para tomar posse do que nos pertence.”

Um silêncio chocado se instalou entre os moradores. Herdeiros? A fazenda não era de Jeremias? De repente, o fantasma do passado, que Lucas pensava ter enterrado, ressurgiu com força total.

Dona Aurora deu um passo à frente, a dignidade em sua postura contrastando com a surpresa em seu rosto. “Herdeiros? Jeremias era um homem cruel, Dr. Valdemar. Ele tomou esta terra de muitas famílias. Agora, nós a cultivamos. Nós a fazemos produzir.”

Dr. Valdemar sorriu, um sorriso que revelava um lampejo de malícia. “Ah, sim. A rebeliao. Ouvi falar de vocês. Um grupo de invasores que tomou a propriedade privada de forma ilegítima. Jeremias pode ter tido seus métodos, mas a lei é clara. A propriedade é dele. E, consequentemente, é nossa.”

Ele tirou uma pilha de documentos de sua pasta. “Tenho aqui os registros de propriedade, o testamento de Jeremias. Tudo em ordem. Vocês têm 48 horas para desocupar esta terra. Caso contrário, a força policial será acionada para removê-los à força.”

Lucas sentiu o sangue ferver. A desonestidade, a ganância, tudo o que ele acreditava ter combatido, estava ali, personificado naquele advogado. Ele se lembrou do seu próprio passado, das injustiças que o haviam levado a buscar a redenção. E agora, parecia que a mesma injustiça voltava para assombrá-lo e a essa comunidade.

“Isto é um absurdo!” exclamou Lucas, avançando. “Jeremias tomou esta terra à força! Ele não tinha direito algum sobre ela! Nós a conquistamos de volta com o nosso suor e o nosso sangue!”

Dr. Valdemar o encarou, seus olhos frios como gelo. “Sangue? Que bom que mencionou isso. O crime que vocês cometeram ao tomar esta fazenda e, se não me engano, assassinar o proprietário, não passará impune. A polícia virá buscá-los. Todos vocês.”

O medo começou a se espalhar entre os moradores. As ameaças eram reais. As palavras de Dr. Valdemar, embora cruéis, tinham o peso da lei, ou pelo menos, do que ele alegava ser a lei.

Dona Aurora permaneceu firme. “Nós não assassinamos ninguém, Dr. Valdemar. Lutamos pela nossa liberdade. E essa terra, que Jeremias roubou, agora pertence ao povo que a cultiva. Se o senhor quer provas, procure os registros de como Jeremias tomou esta terra, de como ele explorou as famílias que aqui viviam. A verdade virá à tona.”

O advogado riu, um som seco e sem vida. “A verdade, minha cara senhora, é aquilo que os documentos dizem. E estes documentos dizem que a propriedade é minha. Vocês têm 48 horas.”

Ele se virou, com uma expressão de desprezo, e retornou aos seus carros. O comboio luxuoso se afastou tão abruptamente quanto havia chegado, deixando para trás um rastro de poeira e um turbilhão de medo e incerteza na comunidade.

Lucas observou os carros partirem, o punho cerrado. Ele sentiu a fúria borbulhar em seu peito, mas também uma determinação renovada. Eles haviam lutado contra Jeremias, e agora, lutariam contra essa nova ameaça.

“Eles não podem fazer isso,” disse Manoel, a voz trêmula. “Não depois de tudo que passamos.”

“Eles vão tentar,” respondeu Lucas, o olhar fixo na direção que os carros haviam tomado. “Mas nós não vamos sair. Esta terra é nossa. Nós a plantamos, nós a cultivamos. E não vamos permitir que a ganância de alguns homens nos tire o que conquistamos com tanto sacrifício.”

Dona Aurora olhou para Lucas, a preocupação em seus olhos, mas também um brilho de esperança. “Lucas está certo. Jeremias pode ter deixado papéis, mas o que ele não deixou foi um legado de justiça. O nosso legado é a verdade. E nós vamos lutar por ela.”

A noite caiu sobre a Cova Funda, trazendo consigo uma sombra de incerteza. O fantasma do passado, na forma de Dr. Valdemar e a suposta herança de Jeremias, havia retornado. Mas, desta vez, Lucas não estava sozinho. Ele tinha ao seu lado uma comunidade que lutara e vencera. E ele sabia que, juntos, eles enfrentariam essa nova batalha, com a mesma coragem e determinação que os trouxeram até ali. A luta pela Cova Funda estava longe de terminar.

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