O Sussurro do Sertão
Capítulo 3 — A Sombra do Escritório Azedo
por Bruno Martins
Capítulo 3 — A Sombra do Escritório Azedo
O escritório do Dr. Elias parecia um oásis de formalidade no meio da aridez do sertão. Localizado na pequena cidade de São Félix, a poucas horas de carro da fazenda "Estrela Cadente", era um prédio de tijolos aparentes, com janelas de vidro espesso que bloqueavam o sol escaldante e o barulho da rua. Dentro, o ar condicionado zumbia, criando uma atmosfera fria e artificial que contrastava com o calor úmido do lado de fora. O cheiro de papel velho, café forte e um leve perfume amadeirado pairava no ar, um aroma que Isabela associava à frieza e ao cálculo.
Ela esperava impaciente na sala de espera, um espaço decorado com bom gosto, mas impessoal. Uma mesa de centro de vidro polido exibia revistas de negócios e de economia, e um quadro abstrato de cores vibrantes destoava do ambiente sóbrio. A secretária, uma mulher de meia-idade com um coque impecável e um olhar atento, observava Isabela com uma curiosidade discreta.
"A senhora tem hora marcada com o Dr. Elias?", perguntou a secretária, sua voz soando profissional, mas com um leve tom de desconfiança.
Isabela engoliu em seco. Ela não tinha hora marcada. Não tinha sequer uma forma de contato direto com o Dr. Elias. Tudo o que ela tinha era a informação de sua mãe e uma determinação férrea. "Não, eu não tenho. Mas preciso falar com ele com urgência. É sobre o Sr. Joaquim da Silva, da fazenda Estrela Cadente."
O nome pareceu despertar um leve interesse na secretária. Ela digitou algo em seu computador, a tela iluminando seu rosto concentrado. "Sr. Joaquim… sim, o nome me é familiar. Dr. Elias fazia negócios com ele." Ela parou, os dedos pairando sobre o teclado. "O Dr. Elias está em uma reunião importante agora. Não sei se ele poderá atendê-la."
"Por favor, é muito importante", insistiu Isabela, a voz carregada de urgência. "É sobre o desaparecimento do dinheiro dele e as circunstâncias da morte do Sr. Joaquim. Algo muito sério aconteceu."
A secretária a encarou por um longo momento, avaliando-a. Os olhos dela eram perspicazes, como os de Seu Ramiro, mas escondidos sob uma camada de polidez profissional. "Espere um momento, por favor."
Ela se levantou e entrou em uma porta com uma placa de metal gravada: "Dr. Elias Monteiro – Advogado e Consultor Financeiro". Isabela ficou sozinha, sentindo o peso do silêncio e a tensão do lugar. Cada minuto que passava aumentava sua ansiedade. Ela pensava em sua mãe, em seu pai, na fazenda que corria o risco de ser perdida.
Após o que pareceram horas, a porta se abriu e a secretária apareceu. "O Dr. Elias disse que pode atendê-la por dez minutos. Por favor, entre."
Isabela se levantou, o coração batendo descompassado. Ela entrou na sala do Dr. Elias. Era um escritório amplo, mobiliado com peças de design moderno e elegante. Uma mesa imponente de mogno dominava o espaço, e atrás dela, sentado em uma poltrona de couro, estava o Dr. Elias Monteiro. Ele era como Isabela se lembrava, mas mais velho, com cabelos grisalhos nas têmporas e um ar de autoridade que ele projetava com naturalidade. Vestia um terno escuro, impecável, e seus olhos azuis, frios e calculistas, a examinaram de cima a baixo.
"Senhorita…?", ele começou, a voz suave e polida, mas sem qualquer traço de calor.
"Isabela da Silva", ela respondeu, sentando-se na cadeira à sua frente. "Filha do Sr. Joaquim da Silva."
Um leve tremor passou pelos lábios do Dr. Elias, quase imperceptível. "Ah, sim. Sinto muito pela sua perda. Seu Joaquim era um homem… singular." Ele fez uma pausa, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. "Como posso ajudá-la?"
"Estou aqui para saber o que aconteceu com o dinheiro dele, Dr. Elias", disse Isabela, sem rodeios. "O dinheiro que ele investiu no projeto de irrigação. Minha mãe diz que o senhor estava envolvido nos negócios dele."
O Dr. Elias inclinou-se ligeiramente para trás em sua poltrona, os braços cruzados sobre o peito. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios. "Senhorita da Silva, eu presto consultoria financeira para muitos fazendeiros da região. O Sr. Joaquim era um cliente. Ele tinha um projeto ambicioso, sim. Um projeto que, infelizmente, exigia mais capital do que ele possuía. Eu o aconselhei sobre as dificuldades, mas ele estava determinado a prosseguir."
"Mas o dinheiro desapareceu", insistiu Isabela. "E meu pai morreu em circunstâncias misteriosas. O senhor tem alguma ideia do que pode ter acontecido?"
O Dr. Elias suspirou, um som calculado. "A morte de seu Joaquim foi uma tragédia. Uma tempestade forte, ele saiu para verificar a cerca… tudo indica um acidente infeliz. Quanto ao dinheiro… bem, investimentos podem dar errado. Em alguns casos, podem desaparecer. A vida no sertão é imprevisível."
"Imprevisível, ou criminosa?", Isabela perguntou, a voz tensa. "Minha mãe diz que o senhor não confiava nele. Que havia outras pessoas que não queriam vê-lo prosperar."
O Dr. Elias ergueu uma sobrancelha, uma expressão de leve surpresa em seu rosto. "Sua mãe está sofrendo, senhorita da Silva. A dor da perda pode levar as pessoas a imaginarem coisas. Eu sempre agi com profissionalismo e ética nos meus negócios. O Sr. Joaquim era um homem de fé, mas às vezes, a fé excessiva pode nos cegar para os riscos. Eu o alertei repetidamente."
"Mas o senhor estava com ele na época em que o dinheiro sumiu. E depois… o senhor sumiu também. Por que?", Isabela pressionou.
"Eu me afastei dos negócios com seu Joaquim porque o projeto dele se tornou inviável", respondeu o Dr. Elias, sua voz calma, mas firme. "E eu não 'sumi', senhorita da Silva. Eu continuo trabalhando. Talvez a sua família estivesse tão focada na perda que não tenha notado minha presença contínua na região." Ele olhou para o relógio em seu pulso. "Como eu disse, tenho apenas dez minutos. Há algo mais em que eu possa ajudá-la?"
Isabela sentiu a frustração crescer dentro de si. Ele era evasivo, calculista, e parecia ter todas as respostas prontas. Mas havia algo em seu olhar, uma rigidez em sua postura, que a fazia desconfiar. Ela decidiu tentar uma abordagem diferente.
"Eu me lembro de ter visto o senhor na fazenda quando criança", disse Isabela, mudando de assunto sutilmente. "O senhor sempre parecia tão… importante. Meu pai o admirava muito."
O Dr. Elias deu um leve sorriso, que não alcançou seus olhos. "Seu Joaquim era um homem admirável, com uma visão única. Eu o ajudava no que podia. Infelizmente, a ambição dele, sem a devida base financeira, o levou a um caminho perigoso."
"Perigoso como?", Isabela insistiu. "O senhor sabe de algo que eu não sei?"
"Senhorita da Silva, eu sou um advogado. Meu trabalho é aconselhar, não me envolver em… tragédias", disse o Dr. Elias, com um tom que indicava o fim da conversa. "Se houver alguma dívida pendente que precise de regularização, ou alguma questão legal relacionada à herança de seu pai, eu posso ajudá-la. Mas se você está procurando por respostas que não existem, receio que eu não possa fornecê-las."
Isabela se levantou, sentindo-se derrotada, mas não vencida. Ela olhou para o Dr. Elias, tentando decifrar o que se escondia por trás de sua fachada polida. Ele era um homem perigoso, ela tinha certeza disso.
"Obrigada pelo seu tempo, Dr. Elias", disse Isabela, sua voz firme. "Se eu descobrir alguma coisa, eu entrarei em contato."
Ela saiu do escritório, deixando para trás o ar condicionado gelado e o silêncio carregado. Do lado de fora, o sol castigava a rua, e o calor parecia mais intenso do que nunca. Isabela sentiu um misto de raiva e determinação. O Dr. Elias não era o homem que ela esperava encontrar. Ele era um enigma, e ela estava determinada a decifrá-lo. A sombra do seu escritório azedo pairava sobre ela, mas Isabela estava pronta para enfrentá-la, e para desenterrar as verdades que ele tentava esconder. O sertão guardava seus segredos, e ela estava cada vez mais perto de desvendá-los.