O Sussurro do Sertão
Capítulo 4 — O Segredo do Açude Seco
por Bruno Martins
Capítulo 4 — O Segredo do Açude Seco
O açude, outrora um espelho d'água que refletia o céu azul e as copas das árvores que o cercavam, agora era uma cratera de terra rachada e poeirenta. O barro seco formava desenhos intrincados, testemunho silencioso da seca implacável que assolava a região. Era um lugar que, na infância de Isabela, era palco de brincadeiras e de momentos de paz, mas que agora, sob o sol implacável, parecia um esqueleto esquecido do que um dia fora.
Isabela caminhava pelas margens secas do açude, a poeira grudando em suas sandálias e a sensação de desolação pesando em seu coração. Ela tinha vindo ali com a esperança de encontrar algo, qualquer coisa, que pudesse dar uma pista sobre o que realmente havia acontecido com seu pai e com o dinheiro. A história do Dr. Elias, com sua frieza calculista, a deixara ainda mais desconfiada.
"Não pensei que a veria por aqui, moça", a voz grave de Seu Ramiro a tirou de seus pensamentos. Ele estava parado perto de uma árvore de angico, observando-a com aquele olhar que parecia enxergar além das aparências.
"Seu Ramiro. Eu estava… lembrando", disse Isabela, com um leve sorriso. "Este lugar era tão bonito quando a água estava cheia."
"Tudo muda neste sertão, moça. A água vem e vai, a vida vem e vai. Mas a terra… a terra guarda tudo." Ele se aproximou, o chapéu em suas mãos. "A senhora esteve na cidade? Falou com aquele doutor?"
Isabela assentiu. "Falei. Ele não disse muita coisa. Apenas que meu pai era um sonhador e que os investimentos dele não deram certo."
Seu Ramiro soltou um longo suspiro, que parecia vir de dentro da terra. "Sonhador. É uma forma de dizer. Seu Joaquim era um homem com um coração maior que ele. E às vezes, um coração bom demais pode ser perigoso neste lugar." Ele olhou para o fundo do açude seco. "E sobre o dinheiro… o doutor não disse nada de útil, não é?"
"Nada mesmo", confirmou Isabela. "Mas ele disse que meu pai estava endividado e que o projeto era inviável. E que ele o alertou."
"Alertou, sim. E quem mais alertou?", Seu Ramiro disse, sua voz baixa e carregada de um tom que Isabela não conseguia decifrar. "Havia muita gente interessada naquele dinheiro. E seu Joaquim, na sua inocência, acreditou que estava fazendo um bom negócio. Mas negócios aqui… são feitos de outra forma."
"Que outra forma, Seu Ramiro? Por favor, me diga o que o senhor sabe", Isabela implorou, sentindo a urgência aumentar.
O velho vaqueiro hesitou, seus olhos percorrendo a paisagem árida como se buscassem as palavras certas. "Seu Joaquim queria mais água. Queria que a Estrela Cadente florescesse. E ele acreditou que o doutor Elias tinha a chave para isso. Mas aquele dinheiro… não era só para irrigação, moça. Era para muita coisa. Dívidas que ele não contava para ninguém. Empréstimos arriscados. E quando ele não conseguiu pagar… as coisas ficaram feias."
O queixo de Isabela caiu. Dívidas? Seu pai, sempre tão cuidadoso com as finanças familiares, metido em empréstimos arriscados? "Mas como o senhor sabe disso? Meu pai nunca me falou nada."
"Eu cuido desta terra há quarenta anos, moça. Eu vejo as coisas que acontecem nas sombras. Vejo quando a gente começa a se afogar e tenta se segurar em qualquer coisa. E seu Joaquim, na sua angústia, se segurou em promessas que não eram dele." Seu Ramiro se aproximou um pouco mais, baixando a voz. "O doutor Elias não era apenas um consultor, moça. Ele era um agiota. E quando seu Joaquim não pôde pagar, Elias… bem, ele não gosta de perder o que é dele."
A revelação atingiu Isabela como um raio. Agiota. Elias. A história ganhava contornos sombrios e perigosos. A morte de seu pai não fora um acidente, mas sim uma consequência trágica de um acordo que dera errado.
"E a tempestade…?", Isabela perguntou, a voz embargada.
"A tempestade foi o álibi perfeito, moça. Seu Joaquim saiu para consertar a cerca que o vento já estava arrancando. Elias apareceu naquele dia, sem avisar. Teve uma discussão forte. Dizem que gritos foram ouvidos. Depois, a tempestade. E quando tudo passou, seu Joaquim estava morto e o dinheiro… sumiu. Talvez para sempre."
A imagem de seu pai, confrontado por Elias, a ideia de uma discussão violenta, tudo se passava em sua mente como um filme macabro. Ela sabia que precisava de provas, mas as palavras de Seu Ramiro, a convicção em seus olhos, a faziam acreditar.
"Mas… se Elias fez isso, por que ninguém disse nada? A polícia…", Isabela começou.
"A polícia faz o que é conveniente, moça. E Elias é um homem com influência. Quem aqui teria coragem de enfrentar um homem como ele? E seu Joaquim… era apenas um fazendeiro endividado. A história de um acidente era muito mais fácil de engolir. Para todos." Seu Ramiro balançou a cabeça. "Eu não pude dizer nada na época. Tinha medo. Mas você… você é a filha dele. Você merece a verdade."
Isabela sentiu um misto de raiva, tristeza e uma determinação renovada. O sertão, que ela conhecia como um lugar de beleza e de provações, agora se revelava um palco de intrigas e de perigos ocultos. Elias não era apenas um homem de negócios, mas um criminoso, e ela precisava expô-lo.
"Obrigada, Seu Ramiro. De verdade. O senhor me deu a verdade que eu precisava", disse Isabela, apertando a mão calejada do vaqueiro. "Agora eu sei o que preciso fazer."
Ela deixou o açude seco, a poeira levantando-se em seus calcanhares como um véu de segredo. A fazenda "Estrela Cadente" não era apenas um lar, mas um campo de batalha. E ela estava disposta a lutar por ela, e pela memória de seu pai. O silêncio do açude seco parecia gritar a verdade que ele tentava esconder, e Isabela estava ali para ouvi-lo.