Segredos em Santa Teresa

Segredos em Santa Teresa

por Thiago Barbosa

Segredos em Santa Teresa

Autor: Thiago Barbosa

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Capítulo 21 — A Sombra no Ateliê

A brisa morna da noite carioca acariciava o rosto de Clara enquanto ela olhava pela janela embaçada de seu ateliê, em Santa Teresa. As luzes da cidade cintilavam como estrelas caídas, um espetáculo familiar que, até pouco tempo atrás, trazia paz ao seu coração. Agora, porém, cada brilho parecia um olho observador, cada sombra um inimigo espreitando. A adrenalina ainda corria em suas veias, um resquício da fuga precipitada da mansão de Ricardo. A imagem do olhar frio dele, a frieza em suas palavras, a violência contida em seus gestos, tudo isso a assombrava. Ela sabia que não era apenas um jogo para ele. Era uma caçada.

O ateliê, antes seu refúgio de inspiração e criação, transformara-se num campo de batalha silencioso. Cada pincel, cada tela, pareciam testemunhas mudas dos segredos que ela guardava. A pintura que estava em seu cavalete, um retrato inacabado de uma mulher de beleza etérea, mas com um véu de tristeza nos olhos, era agora um reflexo sombrio de sua própria alma. As cores vibrantes que costumava usar haviam dado lugar a tons mais escuros, carregados de angústia.

Um barulho sutil a fez pular. Um arranhar na porta, quase imperceptível. Seu coração disparou. Teria Ricardo a encontrado tão rápido? Ela se encolheu instintivamente, buscando a proteção de uma pilha de telas empilhadas, a respiração presa na garganta. O som se repetiu, mais insistente. Um gato? Ou algo mais?

Com passos hesitantes, Clara se aproximou da porta, os olhos fixos na fresta escura. O medo a paralisava, mas a necessidade de saber, de enfrentar o que quer que estivesse lá fora, a impulsionava. Ela pegou o mais pesado objeto que encontrou à mão – um pesado rolo de metal usado para compactar argila – e, com a mão trêmula, girou a chave na fechadura.

A porta se abriu com um rangido baixo. No batente, encolhido e miando baixinho, estava um filhote de gato preto, magro e assustado. Seus olhos verdes, grandes e expressivos, fixaram-se em Clara com uma súplica silenciosa. A tensão se dissipou, dando lugar a uma onda de alívio tão intensa que suas pernas fraquejaram. Ela soltou o rolo de metal, que caiu com um baque surdo no chão de madeira.

“Ah, meu Deus… você me assustou tanto!”, ela sussurrou, ajoelhando-se e estendendo a mão cautelosamente. O filhote hesitou por um momento, depois se aproximou e roçou a cabeça em sua palma. Clara sentiu um nó na garganta. Aquele pequeno ser, tão vulnerável quanto ela se sentia naquele momento, trouxe um vislumbre de calor para o frio que a envolvia.

Ela o pegou no colo, sentindo o corpo frágil tremer. “De onde você veio, garotinho? Perdido também?” O gato ronronou suavemente contra seu peito, um som reconfortante que parecia afastar um pouco as sombras. Ela o levou para dentro, fechando a porta com firmeza, e o colocou no chão. O filhote, encorajado pela gentileza, começou a explorar o ateliê com curiosidade, seu rabo erguido como um ponto de interrogação.

Enquanto o observava, Clara percebeu que precisava agir. Esconder-se não era mais uma opção. Ricardo não desistiria. Ela precisava entender por que ele a queria tanto, o que ela representava para ele, qual era o segredo por trás daquela obsessão doentia. E ela sabia exatamente onde começar a procurar.

A mansão de Ricardo, um labirinto de luxo e segredos, era a chave. Ela precisava voltar, mas desta vez, com um plano. Um plano audacioso, arriscado, mas necessário. Ela se lembrou das conversas sussurradas que ouviu, dos olhares furtivos trocados entre os funcionários, das portas trancadas e dos corredores que pareciam esconder mais do que revelavam. Havia algo ali que Ricardo tentava desesperadamente proteger.

Clara caminhou até sua mesa de trabalho, onde um mapa detalhado de Santa Teresa, com anotações feitas por ela mesma, estava espalhado. Ela pegou uma caneta e começou a traçar rotas, a pensar em horários, em pontos cegos. A imagem de Ricardo pairava em sua mente, uma sombra persistente. Ele era perigoso, calculista, e possivelmente sádico. Mas Clara também conhecia a si mesma. A arte, para ela, sempre foi uma forma de desvendar mistérios, de dar forma ao caos. E agora, sua própria vida era o mistério a ser desvendado.

Ela pegou o celular, a tela escura refletindo seu rosto determinado. Precisava de ajuda. Alguém em quem pudesse confiar, alguém que não estivesse sob a influência de Ricardo. A lista de nomes passava por sua mente. Miguel, o jornalista investigativo que se interessou pela história da família de Clara. Ele era persistente, implacável em sua busca pela verdade. Seria ele a peça que faltava?

Com dedos firmes, ela discou o número de Miguel. A ligação caiu na caixa postal. “Miguel, sou eu, Clara. Preciso de você. É urgente. E é sobre Ricardo. Ele… ele sabe que eu sei. Me encontre. Santa Teresa. Meu ateliê. Agora.” A mensagem era curta, direta, carregada de apreensão. Ela desligou, sentindo um fio de esperança se acender.

Enquanto esperava por Miguel, Clara voltou para o filhote de gato, que agora dormia tranquilamente em uma caixa velha forrada com um pedaço de tecido. Ela o observou, a suavidade de suas patas em movimento enquanto sonhava, e sentiu um afeto inesperado crescer em seu peito. Talvez, apenas talvez, ela pudesse encontrar um pouco de luz em meio a tanta escuridão.

O sol começava a despontar no horizonte, pintando o céu de tons alaranjados e rosados. A beleza do amanhecer em Santa Teresa era sempre de tirar o fôlego, mas hoje, para Clara, era um lembrete da fragilidade da vida e da urgência de protegê-la. Ela sabia que a noite seria longa, cheia de perigos e descobertas. E ela estava pronta para enfrentar o que quer que viesse. A sombra no ateliê não era mais a de um possível intruso, mas a de um futuro incerto e a determinação de Clara em desvendar os segredos que a cercavam.

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