O Último Rito da Amazônia
Capítulo 7 — Os Sussurros do Rio Negro
por Thiago Barbosa
Capítulo 7 — Os Sussurros do Rio Negro
O sol nascente pintava o céu com tons de laranja e rosa, mas para Naia, a beleza era ofuscada por uma inquietação persistente. A noite fora povoada por sonhos vívidos, imagens da serpente e da teia que se estendia por toda a floresta. O amuleto de vitória-régia, pendurado em seu pescoço, parecia pulsar com uma energia própria, um lembrete constante da responsabilidade que recaía sobre seus ombros.
Mãe Yacumama observou Naia com a serenidade que só os anos e a profunda conexão com a natureza podiam conferir. "O rio chama, minha filha. É hora de ouvir o que ele tem a dizer."
Kael, de pé ao lado de Naia, assentiu, sua expressão tensa. A ideia de um inimigo chamado "O Colecionador" e de uma "teia" que ameaçava a floresta o deixava inquieto. Ele preferia um inimigo palpável, uma tribo rival, um animal selvagem. Mas essa ameaça invisível, que agia nas sombras, era mais insidiosa.
"O rio Negro é o nosso guia", continuou Mãe Yacumama. "Ele carrega os segredos dos ancestrais, as memórias da terra. Se o rio for corrompido, a memória da Amazônia se apagará." Ela entregou a Naia um pequeno pacote de folhas secas. "Leve isso. É um unguento para te proteger dos vapores que podem turvar a mente. E Kael, você precisa ficar vigilante. A floresta pode ser enganosa quando a escuridão se aproxima."
O canoeiro que os aguardava, um homem de poucas palavras e olhos que pareciam ter visto as próprias origens do mundo, já estava com o barco preparado. Era um homem robusto, com a pele curtida pelo sol e a força de quem passou a vida remando contra a corrente. Seu nome era Ubirajara, e ele era conhecido por sua habilidade em navegar pelos trechos mais traiçoeiros do rio.
Enquanto remavam, o silêncio era quebrado apenas pelo som suave das pás na água e o coro distante dos pássaros. Naia sentia a presença do rio como uma entidade viva. Ele fluía com uma força ancestral, e a cada remada, ela se sentia mais próxima de desvendar o enigma que a serpente lhe apresentara.
"Você sente isso, Naia?", Kael perguntou de repente, sua voz baixa. "Uma energia estranha?"
Naia assentiu. Havia uma correnteza sutil, uma vibração na água que não parecia natural. "Parece que o rio está... lutando contra algo."
Ubirajara, sem se virar, confirmou com um aceno de cabeça. "O rio sente a dor. A maldade se espalha como uma doença."
O tempo passou, e o sol atingiu o seu zênite, aquecendo a pele e a alma. Eles navegaram por igarapés estreitos, onde a luz do sol mal penetrava o dossel denso das árvores, criando um ambiente de penumbra mística. Naia sentia a floresta observando, os olhos invisíveis dos espíritos a seguindo em sua jornada.
De repente, Ubirajara diminuiu a velocidade do barco, erguendo uma mão. "Parem. Ouçam."
Um som fraco, mas perturbador, chegava a eles. Era um murmúrio, como um choro abafado, vindo de uma pequena enseada escondida entre a vegetação densa.
"O que é isso?", Kael sussurrou, a mão instintivamente indo para o punhal que levava na cintura.
"Parece um animal em sofrimento", respondeu Naia, a preocupação em sua voz.
Ubirajara remou lentamente em direção ao som. A enseada era sombria, dominada por manguezais retorcidos cujas raízes submersas criavam um labirinto aquático. E ali, presa entre as raízes, estava uma pequena onça-pintada, um filhote. Seus olhos arregalados de dor e medo, e em seu corpo, uma estranha mancha escura, que parecia corroer sua pele, emitindo um brilho opaco e doentio.
Naia sentiu um aperto no coração. Era a teia. A corrupção que Mãe Yacumama mencionara. "Ela está envenenada!"
Kael desceu do barco, avançando com cautela. "Não se aproxime, Naia. Pode ser uma armadilha."
Mas Naia não conseguia ignorar o sofrimento da criatura. Ela sentiu uma conexão profunda com aquele animal, um reflexo da vulnerabilidade da própria floresta. Ela lembrou-se do unguento que Mãe Yacumama lhe dera.
"Ubirajara, Kael, me deem cobertura. Eu vou tentar ajudá-la."
Com o amuleto de vitória-régia apertado na mão, Naia desceu do barco e se aproximou lentamente do filhote. A mancha escura em seu pelo parecia pulsante, e emanava um odor acre, desagradável. O filhote sibilou fracamente, mas seus olhos, quando encontraram os de Naia, pareciam implorar por ajuda.
Cuidadosamente, Naia aplicou o unguento sobre a mancha. Onde o unguento tocou a pele corrompida, um vapor fraco e esverdeado subiu, e a mancha pareceu recuar um pouco. O filhote suspirou, um som de alívio, e permitiu que Naia o acariciasse.
"Essa é a obra do Colecionador", disse Ubirajara, sua voz carregada de raiva contida. "Ele não se importa com nada, nem mesmo com a vida inocente. Ele apenas busca poder."
Enquanto Naia cuidava do filhote, Kael explorava os arredores. Ele encontrou vestígios de pegadas, diferentes das que ele conhecia, com um formato estranho e quase reptiliano. "Há mais alguém aqui", ele anunciou, sua voz tensa. "Não muito longe."
De repente, o filhote se agitou, seus olhos arregalados de terror. Ele apontava com o focinho para um ponto na densa vegetação. Naia seguiu seu olhar e viu. Um brilho metálico, quase imperceptível, emergindo entre as folhas. E então, uma figura emergiu das sombras.
Era um homem, alto e magro, vestindo roupas escuras que pareciam se fundir com a floresta. Seu rosto era pálido e marcado por uma cicatriz que descia de sua testa até o queixo, dando-lhe uma aparência sinistra. Em suas mãos, ele segurava um objeto estranho, uma espécie de cetro de metal polido, que emitia um brilho frio e calculista.
"O Colecionador", sussurrou Naia, o coração disparado.
O homem sorriu, um sorriso sem calor, que não alcançava seus olhos frios como gelo. "Uma pena que o filhote tenha sido pego em minha rede. Mas ele servirá como um bom exemplo. Um exemplo do que acontece quando se tenta interferir com meus planos." Sua voz era suave, mas carregada de uma ameaça implícita.
"Seus planos de destruir a floresta?", Kael retrucou, dando um passo à frente, protegendo Naia.
"Destruir? Que ideia tola. Eu busco controlar. A Amazônia é um tesouro de poder inexplorado. E eu sou o homem certo para reclamá-lo." Ele ergueu o cetro. "E vocês, intrusos, estão em meu caminho."
Antes que Kael pudesse reagir, o Colecionador moveu o cetro. Uma onda de energia escura emanou dele, atingindo a vegetação ao redor. As árvores pareceram murchar instantaneamente, suas folhas secando e caindo como em um rápido outono. A água da enseada ficou turva, e um odor desagradável de podridão tomou conta do ar.
Ubirajara, com uma agilidade surpreendente para sua idade, empurrou o barco para longe da enseada, puxando Naia e Kael consigo. "Ele usa a própria essência da floresta contra nós!", gritou.
O filhote de onça, agora fraco demais para se mover, foi deixado para trás, um sacrifício da ganância do Colecionador. Naia sentiu uma onda de tristeza e raiva percorrer seu corpo. Ela viu a teia se estender, invisível, mas poderosa, alimentada pela energia roubada da natureza.
Enquanto o barco se afastava rapidamente, o Colecionador observava-os partir, um sorriso cruel em seus lábios. "Vocês não podem detê-lo. Nenhum de vocês pode. A teia é forte demais."
Naia olhou para trás, para a enseada que se tornara um símbolo de desolação. A visão do filhote indefeso, a demonstração de poder do Colecionador, tudo isso solidificou sua determinação. Ela não era mais apenas a portadora de uma promessa. Ela era uma guardiã, e ela lutaria pela Amazônia, pela vida, contra a escuridão que se espalhava como uma praga. Os sussurros do Rio Negro, antes um guia, agora eram um clamor por ajuda, e Naia estava decidida a respondê-lo.