O Último Rito da Amazônia
Capítulo 9 — O Ritual da Sombra e o Grito da Terra
por Thiago Barbosa
Capítulo 9 — O Ritual da Sombra e o Grito da Terra
O interior do templo era um labirinto de corredores escuros e câmaras úmidas, onde o ar era pesado com um cheiro de mofo e de algo mais, algo antigo e corrompido. Kael avançava com cautela, o punhal em punho, seus sentidos em alerta máximo. A cada passo, ele sentia a presença do Colecionador, uma energia fria e calculista que parecia emanar das próprias paredes de pedra.
Naia, logo atrás dele, sentia o amuleto de vitória-régia em seu pescoço pulsando com força, como um batimento cardíaco acelerado. Ela se lembrava da visão que a serpente lhe mostrara: o centro do templo, onde a energia vital da floresta estava sendo drenada.
"Precisamos chegar ao santuário central", sussurrou Naia. "É lá que ele está."
Eles continuaram a avançar, as únicas luzes sendo os feixes fracos que penetravam pelas rachaduras nas paredes e o brilho opaco do amuleto de Naia. O silêncio era opressor, quebrado apenas pelos seus próprios passos e pelo gotejar constante de água em algum lugar nas profundezas do templo.
De repente, Kael parou, erguendo a mão. "Ouça."
Um som baixo e gutural ecoou pelos corredores. Parecia um cântico, mas distorcido, cheio de uma energia sinistra. E misturado a ele, um zumbido constante, como o de uma colmeia enraivecida.
"São os seguidores dele", Kael sussurrou, sua mandíbula tensa. "E o zumbido... parece vir do centro."
Eles se aproximaram de uma grande câmara circular. No centro, uma plataforma elevada de pedra escura dominava o espaço. E sobre ela, estava o Colecionador. Ele não estava sozinho. Vários homens vestidos com túnicas escuras o cercavam, cantando em uníssono, seus rostos marcados por uma devoção fanática.
No centro da plataforma, um artefato antigo pulsava com uma luz fraca e doentia. Era uma esfera de obsidiana, que parecia sugar toda a luz ao redor. E de dentro dela, um fio de energia escura se estendia, conectando-se a um altar de pedra, onde um líquido escuro e viscoso escorria.
"Ele está drenando a energia do rio", Naia disse, o horror em sua voz. "Está corrompendo a própria essência da vida."
O Colecionador, como se sentisse a presença deles, virou-se lentamente. Seus olhos frios encontraram os de Naia, e um sorriso cruel se espalhou por seu rosto. "Tolos. Vocês acham que podem me deter? Este templo é o meu santuário. E este é o momento em que a Amazônia se curvará ao meu poder."
Ele ergueu o cetro, e a esfera de obsidiana pulsou com mais intensidade. O cântico dos seguidores aumentou, e o zumbido se tornou quase ensurdecedor. O líquido escuro no altar começou a borbulhar.
Kael não hesitou. Com um grito de guerra, ele avançou em direção à plataforma, seu punhal em punho. Os seguidores do Colecionador se viraram para ele, seus rostos contorcidos em fúria.
"Kael!", Naia gritou, mas ele já estava no meio da luta.
O Colecionador, com um movimento rápido do cetro, conjurou uma barreira de energia escura ao redor da plataforma, impedindo que Naia se juntasse a Kael. Ela ficou ali, impotente, observando a luta se desenrolar. Kael era um guerreiro habilidoso, mas ele estava em desvantagem numérica. Os seguidores de túnica, embora não fossem guerreiros experientes, lutavam com uma ferocidade fanática.
Naia sentiu a frustração e o desespero a dominarem. Ela precisava fazer algo. Ela olhou para a esfera de obsidiana, para o altar, para a energia escura que emanava deles. Ela lembrou-se do que Mãe Yacumama dissera: a teia se fortalece com o medo e a discórdia. Ela precisava quebrar essa conexão.
Ela pegou as sementes de Jurema Sagrada de sua bolsa e, com as mãos trêmulas, as esmagou. O aroma terroso encheu a câmara, e a fumaça azulada começou a se espalhar. Ela fechou os olhos, concentrando-se na essência da floresta, no canto dos pássaros, no murmúrio dos rios, na força da serpente ancestral. Ela projetou essa energia para o centro da câmara, direcionando-a para a esfera de obsidiana e para o altar.
Enquanto a fumaça azulada envolvia a esfera, o zumbido começou a diminuir. A luz doentia da obsidiana vacilou, e o líquido escuro no altar parou de borbulhar. O Colecionador, percebendo o que estava acontecendo, virou-se para Naia com raiva em seus olhos.
"O que você fez?!", ele gritou, sua voz rouca de fúria.
Ele ergueu o cetro, pronto para lançar um ataque contra Naia. Mas nesse momento, Kael, que havia derrubado dois seguidores, viu sua chance. Com um último esforço, ele saltou em direção à plataforma.
"Não!", gritou o Colecionador, tentando detê-lo.
Mas Kael foi mais rápido. Ele agarrou o cetro com as duas mãos e, com toda a força que lhe restava, o quebrou contra a plataforma de pedra.
Um grito agonizante escapou dos lábios do Colecionador quando o cetro se despedaçou. A esfera de obsidiana tremeu violentamente, e então, com um estrondo ensurdecedor, explodiu em mil pedaços. A energia escura que emanava dela se dissipou instantaneamente, e o líquido do altar se transformou em água limpa.
Os seguidores do Colecionador, despojados de sua energia sombria, caíram no chão, gemendo. O Colecionador, privado de seu poder, cambaleou para trás, seu rosto contorcido de ódio e desespero.
"Vocês... vocês pagarão por isso!", ele sibilou, antes de se virar e desaparecer em um corredor lateral, deixando para trás o silêncio e a desordem.
Naia correu para Kael, que estava ofegante, mas ileso. "Você conseguiu!", ela disse, abraçando-o com força.
Kael a abraçou de volta, aliviado. "Nós conseguimos."
Eles olharam ao redor da câmara. A energia sombria havia se dissipado, e um raio de sol, antes bloqueado pela teia, penetrou por uma abertura no teto, iluminando a plataforma de pedra. Era um símbolo de esperança.
Mas a batalha não havia terminado. Eles sabiam que o Colecionador ainda estava à solta, e que a floresta, embora ferida, ainda precisava ser curada. O ritual da sombra havia sido interrompido, mas o grito da terra ainda ecoava em seus corações. Eles tinham um longo caminho pela frente.