O Preço da Lealdade

Capítulo 17 — O Veneno da Desconfiança

por Rodrigo Azevedo

Capítulo 17 — O Veneno da Desconfiança

O amanhecer em São Paulo, geralmente um espetáculo de cores vibrantes e promessas de um novo dia, parecia cinzento e opressor para Helena. A noite anterior tinha deixado marcas profundas, e a confissão de Alessandro, embora a tenha aproximado dele em um nível mais cru e honesto, também plantou sementes de dúvida e apreensão em seu coração. Ela se olhava no espelho, o reflexo de uma mulher abalada, com olheiras profundas e uma expressão de quem carrega o peso do mundo.

O café da manhã foi um silêncio tenso. Alessandro tentava manter a normalidade, puxando assuntos triviais sobre o trabalho, sobre o dia que se iniciava. Mas Helena não conseguia se desligar da conversa da noite passada. Cada palavra dele, cada gesto, agora era analisado sob a luz da verdade que ele havia revelado.

“Você parece distante”, Alessandro comentou, sua voz suave, mas com uma ponta de preocupação. Ele estendeu a mão sobre a mesa, querendo tocar a dela, mas ela se afastou sutilmente.

Helena suspirou, olhando para o seu prato. “Eu só estou pensando, Alessandro. Pensando em tudo o que você me contou. É muita coisa para processar.”

Ele assentiu, a decepção mal disfarçada em seus olhos. “Eu sei. Mas eu queria que você soubesse que eu nunca quis te machucar. E que tudo o que eu faço, eu faço por nós.”

“Por nós?”, ela ecoou, com um tom de incredulidade. “Ou por você? Por manter o seu mundo seguro, mesmo que isso signifique me manter distante dele?”

Alessandro franziu a testa, a paciência começando a se esgotar. “Helena, você sabe que não é isso. Eu te amo. E eu te amo mais do que qualquer coisa nesse mundo. O meu mundo… ele é perigoso. E se eu te envolvesse nele, eu te colocaria em risco. Eu só queria o seu bem.”

“O meu bem?”, ela repetiu, a voz agora tingida de amargura. “E você acha que mentir para mim, esconder a verdade, me deixar amar uma versão incompleta de você, isso é o meu bem? Isso é me proteger?”

“É complicado, Helena. Você não entende a pressão, o perigo constante. Se eles soubessem que eu tenho algo que amo, que me faz querer sair desse inferno, eles usariam isso contra mim. Contra nós.” Ele se inclinou sobre a mesa, seus olhos fixos nos dela. “Eu te amo tanto que seria capaz de tudo para te proteger, mesmo que isso signifique ser o monstro que você teme que eu seja.”

A intensidade do olhar dele a fez vacilar. Havia sinceridade em suas palavras, uma dor que ela reconhecia, mas a desconfiança ainda a corroía. “E o Matheus? Você o ameaçou por nossa causa? Ou por causa do seu próprio medo de perder o controle?”

O rosto de Alessandro endureceu. “O Matheus estava se aproximando demais. Ele ia se envolver em algo que não era do interesse dele. Eu o afastei para protegê-lo, e para protegê-la de uma situação que poderia trazer consequências ruins para todos nós. Ele não é o tipo de homem que se encaixa na sua vida, Helena.”

“E você é?”, ela retrucou, a raiva começando a borbulhar. “Você é o homem que me ameaça, que ameaça os outros, que vive nas sombras? Você acha que isso é o que eu mereço?”

“Eu não acho que você merece nada disso”, ele disse, sua voz baixa e carregada de emoção. “Você merece o mundo. Você merece paz. E eu estou fazendo tudo o que posso para te dar isso. Mesmo que isso signifique que você me veja como alguém que não sou.”

O telefone de Helena tocou, interrompendo a discussão. Era Sofia, a voz dela soando ansiosa. “Helena, você viu as notícias? Aquele empresário, o Dantas… ele foi encontrado morto esta manhã. E a polícia está falando que foi um acerto de contas.”

Helena sentiu um arrepio. Dantas era um dos contatos de Alessandro, um homem que ele mencionara casualmente como alguém com quem precisava “resolver umas pendências”. “Morto? Como assim?”

“Não sei, amiga. Mas a polícia está investigando. E estão falando que ele tinha ligações com… com o submundo. Com gente perigosa.” Sofia hesitou. “Você não anda se metendo com gente desse tipo, né, Helena? Com esse seu novo namorado… ele não parece do tipo mais tranquilo.”

Helena engoliu em seco, o coração batendo descompassado. “Não, Sofia. O Alessandro é… diferente. Ele é um bom homem.” Ela disse a frase com tanta convicção quanto conseguia, mas a dúvida a consumia.

Após desligar, ela olhou para Alessandro, que a observava com uma expressão difícil de decifrar. “Quem era, Helena?”

“Sofia. Ela me ligou. Falou sobre o Dantas. Que ele apareceu morto.” Helena observou a reação dele. Alessandro não demonstrou surpresa, apenas um leve aperto nos lábios.

“Isso não me surpreende”, ele disse, com uma frieza que a assustou. “Dantas estava se tornando um problema. Ele estava se arriscando demais, falando demais. Alguém teve que resolver isso.”

“Alguém?”, Helena sussurrou, o veneno da desconfiança se espalhando por suas veias. “Você quer dizer que foi você, Alessandro?”

Ele desviou o olhar, pegando sua xícara de café. “Eu não posso te dizer tudo, Helena. Mas Dantas não é mais um problema. E isso é bom para nós.”

“Bom para nós?”, ela levantou a voz, a frustração explodindo. “Você mata um homem, Alessandro, e me diz que isso é bom para nós? Eu não te reconheço mais! O homem que eu amava não faria algo assim!”

“O homem que você amava não existia, Helena! Ele era uma fachada! E eu sou esse homem, com todas as minhas falhas, com todo o meu passado. Eu só quero te proteger, e se para isso eu tiver que sujar as minhas mãos, eu o farei. Você entende isso?”

Ela se levantou abruptamente, a cadeira arrastando no chão. “Não, Alessandro, eu não entendo! E acho que não quero entender! Você me pediu para confiar em você, mas como posso confiar em alguém que me esconde tanto, que toma decisões de vida ou morte sem me consultar, que parece ter prazer em ser o monstro que você diz que não é?”

Ela pegou sua bolsa, a decisão de sair dali pesando em seus ombros. “Eu preciso de um tempo, Alessandro. Preciso pensar. Preciso me encontrar de novo, longe de toda essa escuridão que você traz.”

Ele tentou segurá-la, mas ela se afastou. “Helena, não vá. Por favor. Não me deixe.”

“Eu preciso, Alessandro. Para a minha própria sanidade.” Com o coração partido, Helena saiu da cobertura, deixando Alessandro sozinho em meio ao silêncio pesado e à sombra do seu próprio passado. A desconfiança havia se instalado, e o preço da lealdade que ele tanto defendia, agora, parecia ter se tornado o preço da sua própria destruição.

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