Sombras do Morro, Fogo no Coração

Capítulo 12 — O Chamado da Ruína

por Mateus Cardoso

Capítulo 12 — O Chamado da Ruína

O sol da manhã irrompeu pelas janelas do apartamento de Laura, lançando feixes de luz sobre a poeira que dançava no ar. O aroma de café fresco tentava, em vão, dissipar a pesada névoa de preocupação que pairava sobre a casa. Dona Maria, com os cabelos brancos emoldurando um rosto marcado pela vida, servia o café com mãos trêmulas. Laura observava a irmã, o coração apertado pela impotência. A morte do pai ainda era uma ferida aberta, e a ameaça velada dos homens de Ricardo pairava sobre elas como uma nuvem de tempestade.

"Não sei o que vamos fazer, mãe", Laura desabafou, a voz embargada. "As dívidas do papai... eles vão nos cobrar. E nós não temos nada."

Dona Maria colocou uma mão enrugada sobre a de Laura. "Nós temos uma à outra, filha. E temos a casa. Podemos vender algumas coisas..."

Laura balançou a cabeça. "Não vai ser o suficiente. Eles sabem disso. Eles vão querer mais." O pensamento de ter que se ajoelhar diante daqueles homens, implorando por misericórdia, a revolvia.

De repente, um estrondo na porta fez ambas pularem. Uma batida forte, insistente. O coração de Laura disparou. Seria ele? Seriam eles?

Dona Maria, com uma coragem que surpreendeu a própria Laura, levantou-se e foi atender. Na soleira, dois homens corpulentos, vestidos com ternos escuros que pareciam uniformes, observavam-na com olhares frios. Um deles, com uma cicatriz que lhe atravessava a sobrancelha, falou com uma voz rouca e sem emoção.

"A senhora é a mãe de João Silva, certo?"

Dona Maria engoliu em seco. "Sim. E quem são vocês?"

"Somos representantes de um... credor", disse o homem, sem dar mais explicações. "Seu falecido marido deixou algumas pendências. Precisamos que a senhora e sua filha venham conosco para acertar os detalhes."

"Acertar os detalhes?", Dona Maria questionou, a voz ganhando um tom de desespero. "Não temos como pagar agora!"

O outro homem, com um sorriso cruel, deu um passo à frente. "Não se preocupe com o pagamento agora, senhora. Apenas com o acordo. E é melhor que seja um acordo que todos nós possamos aceitar."

Laura sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Aqueles homens não eram cobradores comuns. Havia uma aura de perigo ao redor deles, a mesma aura que ela sentia emanar das histórias sobre a máfia do Rio. Ela se levantou, posicionando-se ao lado da mãe.

"Não vamos a lugar nenhum com vocês", Laura declarou, tentando manter a voz firme. "Se tiverem algo a tratar, que seja aqui. Ou que venham os advogados."

A menção de advogados fez o homem com a cicatriz arquear uma sobrancelha. "Não precisamos de advogados, garota. Precisamos de você e da sua mãe. Ou teremos que tomar medidas mais drásticas." O tom era uma ameaça velada, mas clara.

Nesse momento, um carro preto e luxuoso parou na rua, próximo à entrada da viela. As portas se abriram e dele saiu Ricardo Oliveira, envolto em um silêncio imponente. Ele observou a cena com um leve vinco na testa, seus olhos escuros fixos em Laura. Algo nela, talvez a rebeldia nos olhos, ou a determinação em proteger a mãe, o intrigou.

Os dois capangas se viraram, surpresos com a chegada do chefe. "Senhor Oliveira...", começou um deles, sem saber como explicar a situação.

Ricardo ignorou-o, caminhando lentamente em direção às mulheres. Ele parou a poucos metros de Laura, seus olhos se encontrando. Havia uma eletricidade no ar, uma tensão palpável entre os dois.

"O que está acontecendo aqui?", Ricardo perguntou, a voz calma, mas com um tom de autoridade inegável.

O homem com a cicatriz, visivelmente tenso, explicou a situação em poucas palavras. Ricardo ouviu atentamente, o olhar nunca se desviando de Laura.

Quando o homem terminou, Ricardo deu um sorriso lento, um sorriso que parecia esconder mil segredos. "Vejo que há uma questão a ser resolvida", disse ele, voltando-se para Laura. "Não se preocupe, senhoras. Vou cuidar disso." Ele olhou para seus homens. "Marcos, Pedro. Levem esses dois para longe. E certifiquem-se de que não voltem a incomodar essas mulheres."

Os capangas, agora sob a ordem direta de Ricardo, recuaram, visivelmente contrariados. Ricardo, por sua vez, permaneceu ali, encarando Laura.

"Eu sou Ricardo Oliveira", ele disse, estendendo a mão. "E você é...?"

Laura hesitou por um instante, o medo lutando contra a desconfiança. Mas algo no olhar de Ricardo a impelia. Era a mesma força que ela via na cidade, a mesma que a assustava e a fascinava. Ela estendeu a mão, quase que por instinto.

"Laura. Laura Silva."

O aperto de Ricardo foi firme, quase possessivo. Ele sentiu a delicadeza de suas mãos, o calor que irradiava delas. Era uma sensação estranha, diferente de tudo que ele conhecia. "Laura Silva", ele repetiu, como se provando o nome em sua língua. "Seu pai devia-me um favor. Um favor que ele não pôde pagar. Mas talvez você possa."

Laura ergueu o olhar, apreensiva. "Que tipo de favor?"

Ricardo inclinou a cabeça, o sorriso crescendo. "Algo que nos beneficiará a ambos. Algo que pode tirar você e sua mãe da... dificuldade." Ele fez uma pausa, saboreando a antecipação. "Mas antes, preciso ter certeza de que você é tão interessante quanto aparenta ser."

Na delegacia, Leonardo estava frustrado. As informações sobre a morte do pai de Laura eram escassas, e os poucos contatos que ele tinha na favela estavam assustados demais para falar. Ele sabia que Ricardo Oliveira estava por trás disso, mas as provas eram etéreas.

"Não consigo achar nada, Sérgio", Leonardo disse, passando a mão pelos cabelos. "É como se eles tivessem apagado todos os rastros."

Sérgio suspirou, tomando um gole de café frio. "É a máfia, Leo. Eles são bons nisso. Mas o que me incomoda é a forma como essa história está ligada a você. A sua investigação, os boatos sobre a nova garota... parece que tudo está convergindo para um único ponto."

Leonardo franziu a testa. "Nova garota? Que garota?"

"Uma garota que chamou a atenção do Predador", Sérgio explicou. "Ouvi dizer que ele se interessou por alguém que tem algo a ver com essa situação do pai dela. Alguém que ele quer usar."

Leonardo sentiu um calafrio percorrer sua espinha. A ideia de Ricardo Oliveira usando uma pessoa inocente para seus próprios fins era repugnante. Ele sabia que precisava agir rápido. A trama de Ricardo estava se aprofundando, e a vida de Laura Silva poderia estar em perigo iminente. Ele precisava encontrar uma maneira de se aproximar dela, de alertá-la, sem que isso o colocasse em risco ainda maior. O jogo estava ficando mais perigoso, e a cada movimento, as sombras do Morro da Mangueira pareciam se estender cada vez mais.

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