Sombras do Morro, Fogo no Coração
Capítulo 14 — O Jogo de Espelhos
por Mateus Cardoso
Capítulo 14 — O Jogo de Espelhos
O confronto no galpão abandonado foi rápido e brutal. Leonardo, apesar de sua experiência, sentiu a força avassaladora do Escorpião. O homem era uma máquina de matar, seus movimentos precisos e mortais. Sérgio, tentando dar cobertura a Leonardo, foi atingido por um golpe poderoso que o jogou contra uma pilha de caixas.
"Sérgio!", Leonardo gritou, desviando de um soco que teria quebrado seus ossos.
O Escorpião riu, um som que ecoou nas paredes sombrias do galpão. "Vocês são idiotas. Pensaram que poderiam invadir o meu território?" Ele se aproximou de Leonardo, a lâmina de uma faca reluzindo em sua mão. "O Predador não gosta de curiosos."
Leonardo sentiu um corte superficial em seu braço, mas a adrenalina o impelia. Ele viu uma oportunidade. Uma viga de metal instável próxima a ele. Com um esforço desesperado, ele se jogou contra a viga, derrubando-a sobre o Escorpião. O impacto o derrubou, dando a Leonardo o tempo necessário para pegar Sérgio e fugir.
"Precisamos sair daqui!", Leonardo ofegou, arrastando o parceiro ferido.
Eles conseguiram sair do galpão e entraram no carro, que esperava por eles a uma curta distância. Sérgio gemia de dor, mas estava vivo.
"Ele... ele sabia que viríamos, Leo", Sérgio conseguiu dizer entre as dores. "Alguém o avisou."
Leonardo sentiu um frio na espinha. Alguém da polícia? Ou alguém de dentro da própria máfia, jogando um jogo de espelhos? Ele sabia que não podia confiar em ninguém.
Enquanto isso, Laura estava em um estado de profunda angústia. O colar de escorpião pendurado em seu pescoço parecia queimar sua pele. Ricardo a chamara para uma conversa "informal" em um dos seus esconderijos, um apartamento luxuoso no Leblon, com a vista mais cobiçada do Rio.
"Você recebeu meu presente, Laura?", Ricardo perguntou, servindo duas taças de vinho caro. Ele a observou com um interesse que a deixava arrepiada.
"Sim", Laura respondeu, a voz baixa. "E eu entendi a mensagem."
Ricardo sorriu. "Ótimo. Inteligente da sua parte. A inteligência é um traço que admiro." Ele estendeu uma taça para ela. "Beba. Precisamos conversar sobre os negócios do seu pai. Onde ele guardava seus livros contábeis? E quem eram seus fornecedores?"
Laura sentiu um nó na garganta. Ela não sabia de nada. Seu pai era um homem simples, um pequeno comerciante. Mas ela sabia que Ricardo não acreditaria nela. Ele a forçaria a falar.
"Eu... eu não sei", Laura mentiu, tentando manter a calma. "Meu pai nunca me contou sobre esses detalhes. Ele apenas dizia que estava com problemas financeiros."
Ricardo a encarou por um longo momento, seus olhos escuros vasculhando sua alma. Ele parecia acreditar nela, mas a desconfiança ainda pairava em seu olhar. "Se você estiver mentindo para mim, Laura...", ele começou, a voz perigosamente baixa. "As consequências serão severas. Para você e para sua mãe."
Ele a fez sentar-se e, pacientemente, começou a interrogá-la. Perguntava sobre cada detalhe da vida de seu pai, sobre seus contatos, sobre seus hábitos. Laura, com a memória afiada e a inteligência que Ricardo tanto admirava, começou a inventar histórias, misturando fatos reais com ficção. Ela sabia que precisava criar uma narrativa que o satisfizesse, que o mantivesse interessado, mas que também a protegesse e a sua mãe.
Ela falou sobre um suposto sócio estrangeiro, sobre remessas de dinheiro em dólar, sobre encontros secretos em bares obscuros. Ricardo ouvia atentamente, com a expressão impassível. A cada mentira, Laura sentia que se afundava mais em um mar de perigo, mas a imagem do rosto assustado de sua mãe a impulsionava a continuar.
No meio da conversa, o celular de Ricardo tocou. Ele atendeu, a expressão mudando para surpresa e depois para raiva contida. "O quê? O Escorpião? Derrubado? No galpão portuário?" Ele lançou um olhar furioso para Laura. "Isso tem algo a ver com você?"
Laura balançou a cabeça vigorosamente. "Não! Eu juro! Eu estou aqui com o senhor!"
Ricardo desligou o telefone, pensativo. Ele olhou para Laura, seus olhos faiscando. "Parece que alguém está tentando interferir nos meus negócios. E se essa interferência tiver algo a ver com você, Laura... você sentirá o meu desagrado."
Ele se levantou e começou a andar pelo apartamento, como um animal enjaulado. "Eu preciso saber quem é esse policial que está se metendo onde não é chamado. E preciso saber se você tem algum contato com ele."
Laura sentiu o pânico crescer. Leonardo. Ele estava investigando. E agora, Ricardo suspeitava que ela pudesse estar envolvida. Ela estava presa em um jogo perigoso de confiança e traição, onde um passo em falso poderia significar a morte.
De volta à delegacia, Leonardo, com o braço enfaixado, estava obcecado em descobrir quem havia avisado o Escorpião. Ele vasculhava as listas de contatos de Ricardo, os nomes de seus homens de confiança, os informantes que ele sabia que a máfia usava.
"Não faz sentido", Sérgio, ainda se recuperando, disse enquanto observava Leonardo trabalhar. "O Escorpião é um homem de ação, não de planejamento. Ele não teria um informante tão perto da operação."
Leonardo parou. "E se não for um informante? E se for alguém de dentro, jogando dos dois lados?" Ele pensou em Pedro, o estrategista financeiro de Ricardo. Um homem frio e calculista, que poderia estar jogando um jogo próprio.
Ele decidiu arriscar. Usando um canal seguro, ele enviou uma mensagem anônima para Pedro, insinuando que Ricardo estava desconfiado dele, que ele sabia de algumas de suas transações duvidosas. Era um risco, mas Leonardo precisava ver a reação de Pedro.
A resposta veio horas depois. Uma mensagem curta e enigmática: "Um jogo de espelhos. Cuidado com os reflexos."
Leonardo sentiu um arrepio. Pedro estava jogando. Mas a que jogo? E como Laura se encaixava nele? Ele sabia que precisava proteger Laura, mas agora, a complexidade da situação se tornava assustadora. Ricardo a queria, mas Pedro poderia estar usando-a como peça em seu próprio tabuleiro. E Leonardo, em meio a tudo isso, tentava desvendar a teia de mentiras e traições antes que fosse tarde demais.