Sombras do Morro, Fogo no Coração
Capítulo 15 — O Preço da Verdade
por Mateus Cardoso
Capítulo 15 — O Preço da Verdade
O peso da verdade pairava sobre Laura como uma mortalha. As mentiras contadas a Ricardo, as histórias fabricadas sobre o passado de seu pai, tudo começava a se desmoronar sob o escrutínio implacável do homem. Ricardo, sentado à sua frente na sala luxuosa, acariciava um pequeno escorpião de cristal que repousava sobre a mesa de centro, o objeto frio e polido refletindo a frieza em seus olhos.
"Você é uma atriz talentosa, Laura", Ricardo disse, a voz suave como seda, mas com um fio de aço por baixo. "As histórias que você contou... são convincentes. Quase o suficiente para me fazer acreditar." Ele inclinou a cabeça, o escorpião de cristal girando lentamente entre seus dedos. "Mas eu conheço os homens de quem você fala. E sei que eles não operam como você descreveu."
O coração de Laura martelava no peito. Ela sabia que havia exagerado, que havia se perdido em suas próprias invenções. A cada palavra, ela sentia que cavava seu próprio túmulo.
"Eu... eu só queria te ajudar", Laura murmurou, a voz falhando. "Eu não sabia mais o que dizer."
"Mas você sabia que estava mentindo", Ricardo retrucou, levantando-se e caminhando em direção à janela, de onde se via a imensidão cintilante do oceano Atlântico. "E a mentira, Laura, tem um preço. Um preço alto." Ele se virou, o olhar fixo nela. "Seu pai não era um homem de negócios internacionais. Ele devia dinheiro a muitos. E a mim, ele devia mais do que você pode imaginar. Ele se envolveu com gente perigosa, gente que não perdoa dívidas."
Laura sentiu um misto de alívio e terror. Finalmente, uma ponta de verdade. Mas a qual perigo ela estava se expondo?
"Eu não sabia disso", Laura insistiu, com os olhos marejados. "Eu só queria proteger minha mãe."
Ricardo deu um sorriso amargo. "Proteger sua mãe? Ou proteger a si mesma? Você tem o mesmo fogo nos olhos que ele tinha. A mesma teimosia." Ele se aproximou dela, o olhar penetrante. "Eu preciso saber quem estava lá naquele galpão, Laura. Quem é esse policial que está se intrometendo na minha vida. E se você tem alguma ligação com ele, você me conta agora. Ou as coisas vão ficar muito, muito ruins."
A menção do galpão e do policial fez Laura congelar. Leonardo. Ele estava investigando. Ela sabia que ele era um homem bom, um policial honesto. E agora, Ricardo a estava pressionando para entregá-lo.
"Eu não sei de nada", Laura disse, tentando manter a voz firme. "Eu nunca vi esse policial. Eu nunca estive naquele galpão."
Ricardo a encarou por um longo momento, sua paciência se esgotando. Ele pegou o telefone. "Marcos!", ele gritou para o intercomunicador. "Traga Dona Maria aqui. Agora."
O pânico tomou conta de Laura. "Não! Por favor! Não machuque minha mãe!"
Ricardo a ignorou, o olhar endurecido. "Você tem uma última chance, Laura. Fale a verdade. Conte-me sobre o policial. Conte-me sobre seus contatos. E talvez, apenas talvez, eu poupe sua mãe."
Nesse exato momento, Leonardo, em sua sala na delegacia, recebia uma mensagem de texto enigmática. Era de Pedro, o braço direito de Ricardo. A mensagem continha apenas um endereço e um horário. "É a única chance de você salvar a garota. Mas cuidado. O jogo está prestes a mudar."
Leonardo sabia que era uma armadilha. Mas ele não podia ignorar um pedido de socorro implícito, especialmente quando se tratava de Laura. Ele pegou seu distintivo e sua arma, sentindo a urgência em cada batida de seu coração.
O endereço levava a um antigo clube de samba, agora abandonado, nos arredores da Lapa. Um lugar que, no passado, fora palco de muita alegria e música, agora envolto em um silêncio sinistro. Leonardo chegou ao local e, com cautela, entrou no prédio em ruínas. O cheiro de mofo e de poeira era forte, e a escuridão era quase total.
Ele ouviu vozes vindas de um dos camarotes. De longe, ele pôde distinguir as vozes de Ricardo e Pedro.
"...Ela está mais teimosa do que eu imaginava", dizia Ricardo, irritado. "Mas ela vai falar. Eu garanto."
"Talvez ela precise de um pequeno incentivo", Pedro sugeriu, a voz calma e calculista. "Um incentivo que a faça entender a gravidade da situação. Algo que a faça ver que a única pessoa que pode salvá-la é você, Ricardo."
Leonardo sentiu um aperto no peito. Eles estavam falando de Laura. Ele precisava agir.
De repente, Pedro continuou: "E quanto ao policial? Onde ele está? Ele não apareceu. Você acha que ele desistiu?"
"Ele não desistiu", Ricardo respondeu, o tom grave. "Ele está esperando. Como um tolo. E quando ele vier, encontrará apenas uma armadilha."
Leonardo percebeu a terrível verdade. A mensagem de Pedro não era para salvá-lo, mas para atraí-lo para uma emboscada. Ele estava cercado. Mas ele não poderia deixar Laura em perigo.
Ele se moveu com mais agilidade, procurando uma saída, uma maneira de alertar Laura, de escapar da armadilha. Ele avistou um caminho de serviço nos fundos do clube.
Enquanto isso, no apartamento de Ricardo, Laura estava aterrorizada. A chegada de sua mãe, Dona Maria, a fez desabar. Ricardo observava a cena com uma crueldade fria, usando o medo de Laura como arma.
"Agora, Laura", Ricardo disse, a voz um sussurro mortal. "Diga-me o nome do policial. E eu juro pela minha honra que você e sua mãe sairão daqui ilesas."
Laura olhou para sua mãe, para o desespero em seus olhos. Ela sabia que não podia mais mentir. A verdade, por mais perigosa que fosse, era a única esperança.
"O nome dele é Leonardo", Laura sussurrou, as lágrimas rolando livremente. "Leonardo Rossi. Ele é um policial. Ele está investigando o senhor."
Ricardo sorriu, um sorriso triunfante. "Eu sabia. Ele estava brincando comigo. Mas agora, o jogo acabou." Ele se virou para Marcos, seu braço direito. "Vá. Certifique-se de que o nosso amigo Leonardo não saia vivo deste clube."
Laura sentiu um arrepio de desespero. Leonardo estava em perigo. Ela havia entregado a ele. A verdade, que ela tanto tentou esconder, agora se tornara a sua ruína e a dele. O preço da verdade era alto demais, e o fogo que ardia em seus corações parecia prestes a se apagar em meio às sombras do Morro da Mangueira. A noite prometia ser longa, e as consequências de suas escolhas, devastadoras.