Sombras do Morro, Fogo no Coração
Sombras do Morro, Fogo no Coração
por Mateus Cardoso
Sombras do Morro, Fogo no Coração
Por Mateus Cardoso
Capítulo 16 — O Sussurro da Vendetta
O cheiro de pólvora e desespero pairava no ar daquele beco escuro, um aroma acre que se misturava ao salgado das lágrimas que ainda escorriam pelo rosto de Isabella. O corpo de seu irmão jazia inerte sob a luz fraca de um poste solitário, um espetáculo cruel que roubara o ar de seus pulmões e o chão de seus pés. Aquele não era mais o beco de suas tardes de infância, onde as risadas ecoavam e os sonhos eram tecidos. Era um túmulo, um altar profano erguido em nome da vingança.
"João… meu irmão…" Sua voz saiu num sussurro rouco, um lamento que parecia se perder no eco cavernoso da cidade. As mãos tremiam descontroladamente enquanto ela se ajoelhava ao lado dele, o tecido fino de seu vestido sujo pela graxa e pela terra. Cada gota de sangue que manchava o asfalto parecia pulsar em suas veias, incendiando uma fúria que ela nunca imaginara ser capaz de sentir. Aquele sentimento, em sua forma mais pura e primitiva, era a vendetta.
Enquanto isso, em seu luxuoso apartamento de frente para a Baía de Guanabara, Marco Antonio observava a noite cair com uma angústia crescente. A notícia da morte de João chegara como um soco no estômago, um golpe inesperado que desestabilizou a precária paz que ele tentava construir. Isabella… A imagem dela, tão frágil e ao mesmo tempo tão resiliente, o assombrava. Ele sabia que ela buscaria respostas, e ele não podia permitir que ela se jogasse de cabeça no abismo que ele próprio tentava evitar.
"Isso não pode ficar assim, Marco", disse Ricardo, o braço direito de Marco, sua voz grave e tensa. Ele havia sido o primeiro a trazer a notícia, seus olhos refletindo a escuridão que agora envolvia a todos. "Eles cruzaram a linha. Não podemos mais tolerar essa provocação."
Marco Antonio fechou os olhos, a testa franzida em profunda concentração. A morte de João era uma carta na manga de seus inimigos, uma jogada suja para desestabilizá-lo, para forçá-lo a agir impulsivamente. Mas ele era mais do que um capanga; era um líder, um estrategista. E essa estratégia envolvia uma frieza que ele muitas vezes odiava, mas que era essencial para a sobrevivência.
"Procuramos as provas, Ricardo. Mas não vamos cair na armadilha deles. A vingança cega leva à ruína. E eu não vou deixar que a ruína de Isabella seja mais uma consequência dos meus erros."
Isabella, alheia à cautela de Marco, sentia a necessidade de agir. As palavras de seu irmão ecoavam em sua mente, as promessas que ele fizera antes de partir. "Você não vai parar, não é, João? Não enquanto a verdade não vier à tona."
Ela se levantou, as lágrimas agora secas, substituídas por uma determinação férrea. A dor a transformava, lapidava sua alma em algo mais duro, mais afiado. Ela se lembrou do pequeno caderno de João, escondido sob o piso solto de seu quarto. Talvez ali houvesse as respostas que ela tanto buscava.
Enquanto a noite avançava, Isabella vasculhava o quarto de João com uma intensidade febril. Cada objeto, cada papel, parecia sussurrar segredos. Finalmente, sob uma tábua solta do assoalho, ela encontrou o caderno. As páginas estavam repletas de anotações densas, códigos, nomes e datas. Um mapa intrincado de um submundo que ela mal conhecia, mas que agora sabia ser o epicentro da tragédia de sua família.
"Eles pensam que me silenciaram", murmurou ela, um sorriso sombrio desenhando seus lábios. "Mas João plantou sementes. E eu sou a jardineira."
Marco Antonio, por sua vez, estava em seu escritório, estudando os relatórios de seus homens. As informações eram fragmentadas, mas apontavam para uma guerra interna em uma facção rival, uma guerra que poderia ter sido manipulada. "Eles querem nos incriminar", pensou ele, a mandíbula tensa. "Querem que eu seja o bode expiatório, o culpado pela morte de João. Mas quem se beneficia com isso? Quem ganha com a minha queda e com a dor de Isabella?"
Ricardo entrou novamente, desta vez com um ar mais sombrio. "Marco, a Isabella… ela sumiu."
O sangue de Marco gelou. Ele sabia que ela não ficaria parada. "Para onde ela foi? Alguém a seguiu?"
"Não. Ela foi rápida. Desapareceu nas sombras."
Marco bateu na mesa com força, a raiva e a preocupação lutando em seu peito. Ele conhecia Isabella melhor do que ninguém. Ela era uma força da natureza, capaz de ferocidade e ternura na mesma medida. E agora, impulsionada pela dor, ela se tornara uma força perigosa e imprevisível.
"Nós vamos encontrá-la", disse Marco, a voz firme, mas com um tom de urgência que não passara despercebido por Ricardo. "E quando encontrarmos, vamos protegê-la. Não importa o custo."
Enquanto isso, Isabella, guiada pelas anotações de seu irmão, dirigiu seu carro para um ponto específico nos confins da cidade, um local que ela nunca ousaria frequentar sozinha. O lugar era desolado, cercado por galpós abandonados e o cheiro de ferrugem. Mas ali, nas entranhas da cidade esquecida, ela sentia que encontraria as peças que faltavam no quebra-cabeça da morte de João. Ela estava entrando no covil do lobo, impulsionada pela sede de justiça, e talvez, apenas talvez, por um anseio por vingança que a consumia por dentro. A noite era longa, e as sombras que pairavam sobre o morro escondiam segredos que estavam prestes a vir à tona, chocando a todos que se atrevessem a olhar para o fogo que ardia no coração de Isabella.