Sombras do Morro, Fogo no Coração

Capítulo 19 — O Cofre da Lapa

por Mateus Cardoso

Capítulo 19 — O Cofre da Lapa

O ar da Lapa, conhecido por sua boemia e energia vibrante, escondia, naquela noite, um segredo sombrio. O armazém indicado por João, um monólito de concreto e ferrugem encravado em uma rua esquecida, exalava um ar de abandono e mistério. A lua, pálida e distante, mal conseguia penetrar a escuridão densa que envolvia o local. Marco Antonio e Isabella se aproximaram em um carro discreto, seus corações batendo em uníssono com a apreensão e a determinação.

"Você tem certeza que é aqui, João?", sussurrou Isabella, seus olhos varrendo a fachada sombria do armazém. A lembrança do irmão, da sua coragem em deixar essas pistas, a impulsionava.

Marco Antonio verificou o perímetro com seus binóculos. "As informações batiam, Isabella. Este lugar é descrito como um 'cofre'. Se as provas que João mencionou estão em algum lugar, é aqui."

A porta principal, maciça e de metal, parecia impenetrável. Mas João, em sua sagacidade, havia deixado uma pista para um acesso secundário, um alçapão escondido sob um monte de entulho nos fundos.

"Ele era esperto", disse Isabella, um leve sorriso melancólico em seus lábios. "Sempre pensando um passo à frente."

Com esforço conjunto, eles moveram os escombros e revelaram o alçapão enferrujado. O cheiro de mofo e umidade emanou de dentro, misturado a um odor metálico que Isabella não conseguia identificar. Com uma chave especial, que João havia deixado em um local combinado, eles conseguiram abrir o pesado portão.

A descida foi tensa. Um corredor estreito e escuro se abria à frente, com pouca iluminação. O silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelo gotejar constante de água em algum lugar distante e pelo eco de seus próprios passos.

"Fique perto", disse Marco, sua voz baixa e cautelosa, a mão segurando o coldre de sua arma.

O túnel os levou a um espaço subterrâneo mais amplo. Ali, a iluminação era precária, mas suficiente para revelar pilhas de caixas de madeira e metal, organizadas de forma metódica. O cheiro metálico se intensificou, e Isabella percebeu que vinha de caixas fechadas, que pareciam carregar um peso incomum.

"Parece que não são apenas documentos aqui", murmurou Isabella, sentindo um calafrio percorrer sua espinha.

Marco Antonio, guiado pelas anotações de João, começou a procurar por uma sala específica, um "escritório" improvisado onde os documentos cruciais estariam guardados. A cada passo, eles se embrenhavam mais fundo no labirinto de caixas, a tensão aumentando.

Finalmente, em uma área mais afastada, encontraram uma porta reforçada. Era ali. A chave de João, delicada e com um código gravado, abriu a fechadura com um clique suave.

O interior era pequeno, um escritório improvisado com uma mesa de metal, uma cadeira desgastada e estantes repletas de arquivos e pastas. O ar ali era mais seco, mas o cheiro metálico persistia. Isabella sentiu um nó na garganta. Ali, seu irmão havia passado horas, talvez dias, organizando as provas que poderiam derrubar aqueles que o tiraram dela.

Começaram a vasculhar os arquivos. Contratos, extratos bancários, registros de transferências, e-mails criptografados. Eram a prova irrefutável da lavagem de dinheiro, da corrupção que envolvia desde pequenos políticos a figuras de alto escalão.

"Meu Deus, Marco… é tudo aqui", sussurrou Isabella, seus olhos marejados. "João sabia. Ele sabia que eles iriam atrás dele."

Marco Antonio pegou uma pasta grossa marcada com o logo de uma empresa de fachada conhecida. "Contratos de aquisição de terras. E olha isso, Isabella. Os nomes de juízes e delegados envolvidos. Eles estavam protegendo os Alencar."

Enquanto eles se concentravam nos documentos, um som sutil ecoou do lado de fora. Um ruído metálico, um leve arrastar de pés.

"Alguém está aqui", sussurrou Marco, sua mão indo instintivamente para a arma.

Isabella pegou uma pasta com um rótulo específico: "Operação Sombra". Era o codinome que João usava para tudo que se referia ao assassinato de seus pais.

"Precisamos sair daqui", disse Marco. "Levamos o que conseguimos e vamos para um lugar seguro."

Mas quando se viraram para sair, a porta reforçada se abriu com um estrondo. Na entrada, com um sorriso cruel no rosto, estava o homem de cicatrizes, Jorge "O Corvo" Silva, e dois de seus capangas.

"Achou que ia me enganar, não é, garota?", disse O Corvo, sua voz rouca e cheia de escárnio. "O moleque deixou pistas demais. Mas ele foi burro. Escondeu tudo no lugar mais óbvio."

O pânico tomou conta de Isabella, mas a determinação de Marco Antonio a manteve firme. Ele se colocou na frente dela, protegendo-a.

"O jogo acabou, Corvo. Vocês foram pegos."

"O jogo só está começando, Marco", rebateu O Corvo, seus olhos fixos em Isabella. "E vocês dois vão ser as próximas peças a serem removidas."

Os capangas ergueram suas armas. Marco disparou primeiro, acertando um deles. O Corvo reagiu, disparando em direção a Marco, que se jogou no chão, sentindo a bala passar perigosamente perto.

Isabella, vendo Marco em perigo, agiu por instinto. Ela pegou um pesado extintor de incêndio da parede e o arremessou contra o outro capanga, desorientando-o. Em seguida, pegou um dos documentos que haviam tirado da pasta e o usou como distração, jogando-o para um lado enquanto ela e Marco corriam para o outro.

O Corvo, furioso, disparou na direção deles, mas seus tiros atingiram as caixas de metal. Um som metálico ecoou, e um cheiro forte e acre se espalhou pelo ar.

"O que é isso?", gritou Isabella, tossindo.

"Ácido!", gritou Marco. "Eles guardavam material perigoso aqui também. Vamos sair daqui!"

Com a visão prejudicada e o ar cada vez mais difícil de respirar, eles lutaram para sair do escritório. O Corvo e seu capanga restante os perseguiam, determinados a silenciá-los para sempre.

Enquanto isso, a equipe de Marco Antonio, que monitorava o local, percebeu a atividade incomum e os tiros. Eles sabiam que algo estava errado.

"Marco não responde", disse Ricardo, a voz tensa. "Precisamos ir até lá. Agora!"

No subterrâneo, Isabella e Marco corriam desesperadamente pelo corredor escuro, o som dos perseguidores cada vez mais perto. O cheiro de ácido se intensificava, e eles sentiam o ar ficar pesado e corrosivo.

"Estamos presos", disse Isabella, ofegante, encostada na parede fria.

Marco Antonio a puxou para perto. "Não. Não vamos nos render."

Ele olhou para as caixas metálicas, a ideia brilhando em seus olhos. "Isabella, lembre-se do que João disse sobre as 'armadilhas'. Eles queriam proteger o que está aqui dentro, mas também o usaram como um escudo."

Com um esforço renovado, Marco conseguiu derrubar uma das caixas mais próximas da entrada do escritório. O impacto fez com que o ácido se derramasse mais livremente, criando uma barreira perigosa entre eles e O Corvo. O homem e seu capanga hesitaram, incapazes de avançar na nuvem tóxica.

Aproveitando a oportunidade, Marco e Isabella correram em direção ao alçapão. O som das sirenes se aproximando se misturava ao grito de fúria do Corvo. Eles haviam conseguido as provas, mas a luta estava longe de terminar. Ao saírem do armazém, encontraram os homens de Marco e a polícia cercando o local.

Marco Antonio entregou as pastas a Ricardo. "Temos tudo. A verdade está aqui."

Enquanto a polícia tomava o controle do armazém e capturava O Corvo e seu capanga, Isabella sentiu um misto de alívio e exaustão. Ela olhou para Marco, a gratidão em seus olhos. Eles haviam sobrevivido, e as provas que levariam justiça a João estavam em suas mãos. Mas a batalha contra a teia de poder dos Alencar estava apenas começando, e o perigo ainda espreitava nas sombras.

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