Sombras do Morro, Fogo no Coração
Capítulo 23 — O Refúgio do Passado
por Mateus Cardoso
Capítulo 23 — O Refúgio do Passado
A viagem de carro com Marcus foi silenciosa. O cenário da cidade maravilhosa, que antes a encantava, agora parecia opressor, cada rua, cada beco, guardando perigos potenciais. Sofia olhava pela janela, a mente em turbilhão, tentando processar a avalanche de eventos. A imagem de Leonardo, a promessa quebrada, o acordo com Dom Lázaro, a sensação de ter sido usada, tudo se misturava em uma dor aguda e constante.
Marcus dirigia com segurança, os olhos focados na estrada, mas ela sentia o olhar dele em alguns momentos, um olhar de preocupação silenciosa. Ele não a pressionou com perguntas, parecendo entender que ela precisava de espaço. Agradeceu mentalmente por isso.
"Para onde estamos indo?", Sofia finalmente perguntou, a voz um pouco rouca.
Marcus deu um leve sorriso de canto de boca, um sorriso que não alcançava seus olhos. "Para um lugar onde você vai se sentir segura. Um lugar que eu conheço bem. Um lugar que nos lembra de onde viemos, mas que está longe de onde estamos agora."
Ele virou o carro em uma estrada menos movimentada, que gradualmente se afastava do centro urbano, adentrando uma área mais rural, mas ainda assim com a beleza da paisagem carioca. As luzes da cidade diminuíam no retrovisor, e o céu estrelado ganhava destaque.
"É uma casa antiga, no interior," Marcus explicou. "Pertencia aos meus avós. Está vazia há anos, mas está em boas condições. É isolada, tranquila. Ninguém vai te encontrar lá. E ninguém vai nos procurar."
Sofia sentiu um alívio tênue. Um refúgio. Era tudo o que ela precisava naquele momento. Um lugar para se esconder, para se curar.
Após quase duas horas de viagem, o carro parou em frente a um portão de ferro forjado, um pouco enferrujado, mas imponente. Além dele, uma longa estrada de pedras levava a uma casa colonial, de muros altos e janelas escuras. As árvores frondosas e a vegetação exuberante envolviam a propriedade, criando uma atmosfera de mistério e isolamento.
Marcus desceu do carro e abriu o portão. Ao entrarem, um ar de nostalgia pairou no ambiente. A casa exalava a história de gerações, de memórias e de segredos.
"Bem-vinda ao meu santuário," Marcus disse, com um tom de voz mais leve.
Ele a ajudou a descer do carro. Sofia sentiu a perna latejar um pouco mais forte. Marcus notou.
"Parece que você se machucou na escalada." Ele a ajudou a se apoiar, guiando-a para dentro da casa.
O interior era sombrio, empoeirado, mas surpreendentemente bem conservado. Móveis antigos cobertos com lençóis brancos, retratos em preto e branco nas paredes, e um cheiro peculiar de madeira antiga e mofo. Era um lugar que parecia congelado no tempo.
"Vou pegar algumas coisas para você," Marcus disse, dirigindo-se a um dos quartos.
Enquanto ele se ausentava, Sofia se permitiu observar o ambiente. Havia uma melancolia no ar, mas também uma sensação de paz. Um contraste gritante com o caos que ela havia deixado para trás. Ela pensou em Leonardo, em como ele havia escolhido um caminho que a assustava, que a afastava dele. A dor em seu peito se intensificou.
Marcus retornou com uma caixa de primeiros socorros e um kit de higiene pessoal. "Vou limpar e cuidar desse machucado. E depois, se quiser, pode tomar um banho quente. Tenho um pouco de comida guardada, não é muita coisa, mas vai te ajudar."
Ele cuidou do ferimento em sua perna com uma gentileza inesperada. Os gestos dele eram firmes, mas cuidadosos, e Sofia sentiu uma gratidão profunda. Ele era um estranho para ela agora, um homem que havia escolhido um caminho diferente, mas que naquele momento, era a única pessoa em quem ela podia confiar.
"Obrigada, Marcus," ela disse, a voz baixa.
"Não precisa agradecer," ele respondeu, seus olhos fixos nos dela. "Eu não podia deixar você sozinha. O que Leonardo fez… isso não se faz."
As palavras dele ecoaram a dor que Sofia sentia. Era difícil aceitar que o homem que ela amava, o homem que havia jurado protegê-la, pudesse ter agido de forma tão cruel.
Após se limpar e vestir roupas limpas que Marcus providenciou, Sofia se sentou à mesa da cozinha, um lugar simples, mas aconchegante. Marcus colocou um prato com pão, queijo e frutas na sua frente.
"Não é a comida da mansão, mas é honesta," ele disse, com um sorriso.
Sofia comeu lentamente, saboreando cada pedaço. Era a primeira refeição que ela fazia sem medo, sem a sensação de estar sendo observada.
"Por que você se afastou de tudo, Marcus?", ela perguntou, reunindo coragem. "De Léo, do morro?"
Marcus suspirou, o olhar se perdendo no vazio. "Porque eu não acreditava mais no caminho que estávamos seguindo. Eu via a violência, a dor. Via homens bons se perdendo. E via Léo se afundando cada vez mais. Eu não queria ser parte disso."
Ele a olhou. "Eu queria algo diferente. Algo mais… tranquilo. Uma vida sem a sombra da máfia. Mas eu não conseguia simplesmente virar as costas para tudo. Para as pessoas que eu conhecia. Para você."
"Eu sempre fui grata pela sua amizade, Marcus," Sofia disse, com sinceridade.
"E eu pela sua," ele respondeu. "Mas a amizade não era tudo o que eu sentia, Sofia. Você sabe disso."
Ela desviou o olhar, um rubor subindo em suas bochechas. O passado, os sentimentos que ela havia enterrado sob o amor por Léo, voltavam à tona.
"Eu… eu me perdi em Leonardo," ela confessou, a voz baixa. "Ele era o meu mundo."
"E ele te decepcionou," Marcus disse, com uma tristeza que Sofia reconheceu. Ele entendia a dor da decepção, a dor de amar alguém que te machuca.
"Eu não sei o que fazer agora, Marcus," ela disse, a voz fraca. "Eu me sinto perdida. Eu não sei em quem confiar. Nem mesmo em mim mesma."
Marcus se aproximou dela, colocando a mão sobre a dela. O toque era reconfortante, firme. "Você não está sozinha, Sofia. Eu estou aqui. E você é forte. Mais forte do que pensa. Você vai superar isso. E quando você estiver pronta, vamos pensar juntas no que fazer a seguir."
Sofia olhou para a mão dele, para a conexão que se formava ali. Ele não era Leonardo. Ele não era o homem que a fez se apaixonar perdidamente. Mas ele era um porto seguro. Um fio de esperança na escuridão. Pela primeira vez desde que fugiu da mansão, ela sentiu um vislumbre de paz, um pequeno alívio em meio à tempestade de sua alma. O refúgio do passado era, talvez, o começo de um novo futuro.