Sangue, Seda e Pecado
Capítulo 14 — A Dança com o Diabo
por Eduardo Silva
Capítulo 14 — A Dança com o Diabo
A promessa de Ricardo pairava no ar, um fio tênue de esperança em meio à escuridão que envolvia Sofia. A descoberta da carta de seu pai, a menção ao “Corvo”, a revelação de que Ricardo sabia quem era o traidor, tudo isso a impelia a uma busca implacável pela verdade. Ela sabia que o caminho seria perigoso, mas a justiça para Paolo Rossi era um chamado que ela não podia ignorar.
Os dias seguintes foram de um silêncio tenso. Sofia e Ricardo se comunicavam através de mensagens codificadas, planos elaborados para se encontrarem sem levantar suspeitas. A cada encontro, a atração entre eles se intensificava, um desejo proibido que ardia sob a superfície de suas conversas cautelosas. Sofia se via cada vez mais fascinada por Ricardo, pela complexidade de sua alma, pela dualidade que o tornava ao mesmo tempo perigoso e sedutor.
Enquanto isso, Marco Ferraro se tornava mais impaciente. Ele sentia que algo estava se movendo nas sombras, uma conspiração que envolvia seu irmão e a filha de Rossi. A expansão dos negócios exigia unidade, e a presença de Sofia era uma variável que ele não conseguia controlar.
“Ricardo, a situação com a Sofia está se tornando insustentável,” Marco disse, em um tom que não admitia discussão. “Ela está investigando. Se ela chegar perto da verdade sobre o Corvo, tudo desmoronará.”
Ricardo o encarou, a mandíbula tensa. “Eu estou cuidando disso, Marco.”
“Cuidando? Ou se apaixonando?” Marco retrucou, com um sorriso sarcástico. “Não se esqueça do que nos trouxe até aqui. Não se esqueça do juramento que fizemos. Para nossa família, não há espaço para sentimentos.”
A menção ao juramento tocou um nervo exposto em Ricardo. A lealdade à família, a vingança contra aqueles que prejudicaram os Rossi, tudo isso estava intrinsecamente ligado à sua vida. Mas agora, Sofia havia introduzido uma complicação que ele não sabia como resolver.
Decidido a agir, Marco começou a traçar seu próprio plano. Se Ricardo não podia ser convencido a eliminar Sofia, ele o faria sozinho. Ele contatou Luigi, o homem que ele suspeitava ter vazado informações para a polícia. Luigi, humilhado e buscando redenção, aceitou o plano de Marco.
O plano era simples: criar uma armadilha para Sofia. Marco arquitetou um encontro falso, prometendo a ela informações cruciais sobre o Corvo, em troca de uma reunião em um local isolado, um antigo galpão abandonado nos arredores da cidade.
Sofia, desconfiada, mas impulsionada pela urgência, concordou. Ela sabia que era um risco, mas a promessa de descobrir a identidade do traidor era forte demais para resistir. Ela informou Ricardo sobre o suposto encontro, sem saber que Marco já estava um passo à frente.
Ricardo, sentindo o perigo iminente, alertou Sofia para ter extremo cuidado. “Não vá sozinha, Sofia. Algo me diz que isso é uma armadilha.”
“Eu não posso deixar essa oportunidade passar, Ricardo,” ela respondeu, a voz firme. “Preciso saber quem é o Corvo.”
“Eu vou com você,” ele disse, sem hesitar.
Sofia sentiu um alívio inesperado. Ter Ricardo ao seu lado lhe dava uma força que ela não sabia que possuía.
Na noite marcada, a tensão pairava no ar como uma névoa densa. O galpão, escuro e úmido, emanava um cheiro de mofo e decadência. A única luz vinha de algumas lâmpadas fracas, criando sombras sinistras que dançavam nas paredes.
Sofia e Ricardo entraram cautelosamente. O silêncio era opressor, quebrado apenas pelo eco de seus passos. Eles sabiam que algo estava errado. O local estava deserto.
De repente, as luzes se acenderam, revelando a figura de Marco Ferraro, parado em frente a eles, um sorriso frio no rosto. Ao seu lado, estava Luigi, com o olhar evasivo.
“Bem-vinda, Sofia,” Marco disse, a voz carregada de sarcasmo. “Ou devo dizer, bem-vinda à sua própria armadilha?”
Sofia sentiu o sangue gelar nas veias. Ela sabia que havia caído em um plano.
“Você não ia me dar informações sobre o Corvo,” ela disse, a voz controlada, apesar do medo.
“Oh, eu vou te dar informações,” Marco respondeu, dando um passo à frente. “Vou te dar a informação de que seu pai foi um tolo. E que você, assim como ele, está prestes a cometer o mesmo erro fatal.”
Ricardo se colocou à frente de Sofia, protetor. “Deixe-a ir, Marco. Isso não tem nada a ver com ela.”
Marco riu, um som desprovido de qualquer humor. “Tem tudo a ver com ela, irmão. Ela é a chave. A chave para nos livrarmos de você, e de todos os seus sentimentos por ela.”
O confronto estava iminente. Sofia sabia que estava presa entre dois Ferraro, em uma teia de traição e poder. Ela olhou para Ricardo, buscando um sinal, uma saída.
“Você nunca deveria ter se envolvido, Sofia,” Marco disse, a voz agora fria e calculista. “Você é apenas um peão insignificante.”
De repente, um som estrondoso ecoou do lado de fora do galpão. Sirenes se aproximavam rapidamente. A polícia.
Marco e Luigi ficaram perplexos. Ricardo olhou para Sofia, um lampejo de compreensão em seus olhos. Ele sabia que algo havia dado errado em seus planos.
“Parece que você não é a única que planeja bem, Marco,” Ricardo disse, com um sorriso de escárnio. “Ou talvez você tenha sido traído também.”
Marco, furioso, sacou uma arma. “Isso não vai acabar assim!”
Ele apontou a arma para Ricardo, mas antes que pudesse atirar, Luigi, em um ato de desespero, tentou detê-lo. Na confusão, a arma disparou.
O tiro ecoou pelo galpão. Marco cambaleou para trás, uma expressão de surpresa em seu rosto. Ele havia sido atingido.
Sofia e Ricardo ficaram paralisados, observando a cena caótica se desenrolar. A polícia invadiu o galpão, armados e alertos.
No meio da confusão, Ricardo agarrou a mão de Sofia. “Temos que sair daqui!”
Eles correram, escapando da polícia e da desordem. Correram para a noite, para a incerteza.
Enquanto fugiam, Sofia se virou para Ricardo. “O que aconteceu? Como a polícia chegou aqui?”
Ricardo respirou fundo, o rosto iluminado pelas luzes intermitentes das viaturas. “Eu não sei. Mas alguém sabia que Marco estava armando uma armadilha. Alguém nos ajudou.”
A verdade começou a se revelar. O Corvo. O traidor. Aquele que havia enquadrado Marco, que havia ajudado Sofia e Ricardo.
“O Corvo…” Sofia sussurrou. “É o Corvo que nos ajudou.”
Ricardo assentiu, um misto de alívio e apreensão em seu olhar. “Ele queria se livrar de Marco. E talvez… ele quisesse que você sobrevivesse.”
Eles continuaram correndo, a adrenalina pulsando em suas veias. A dança com o diabo havia terminado, mas a verdadeira batalha estava apenas começando. A identidade do Corvo, a verdade sobre o passado de seus pais, e o futuro de seu relacionamento perigoso, tudo isso pairava no ar, incerto e cheio de perigo.