Sangue, Seda e Pecado

Capítulo 17 — O Legado do Fogo

por Eduardo Silva

Capítulo 17 — O Legado do Fogo

O silêncio na cripta era opressor, pontuado apenas pelo suave murmúrio das orações e o crepitar das velas que iluminavam o rosto pálido e sereno de Marco. Isabella permaneceu na primeira fila, o vestido de luto um mar de escuridão em meio à luz trêmula. A cerimônia era pequena, íntima, como Marco sempre preferira. Poucos rostos familiares, a maioria mergulhados em uma tristeza contida. Mas um rosto estava ausente, e essa ausência gritava mais alto que qualquer som. Dante não estava ali.

A notícia da morte de Marco, divulgada como um acidente de carro em uma estrada deserta, havia sido rapidamente aceita pela imprensa e pelas autoridades. Ninguém, exceto Isabella, suspeitava da verdade sombria que se escondia por trás das cortinas de seda e dos acordos de poder. A dor a corroía, um fogo lento que a consumia por dentro, mas a chama da vingança, acesa no confronto com Dante, ardia com mais intensidade.

Após a cerimônia, os poucos convidados se dispersaram, deixando Isabella sozinha diante do túmulo de mármore. As flores frescas, dispostas em um arranjo impecável, não conseguiam mascarar a frieza da pedra. Ela tocou o nome de Marco gravado na lápide, sentindo a aspereza do granito sob seus dedos.

"Eles não vão escapar, Marco. Eu juro por você."

Um movimento sutil chamou sua atenção. Na sombra de um cipreste antigo, uma figura observava. Era Sofia, com os olhos marejados, mas com um olhar firme e decidido.

"Senhorita Isabella, o seu primo, Ricardo, chegou. Ele quer falar com a senhorita."

Ricardo. A menção do nome trouxe um arrepio pela espinha de Isabella. Ricardo era o filho de um dos irmãos falecidos de seu pai, um homem conhecido por sua ambição desmedida e pela frieza calculista que sempre o acompanhara. Ele era um elo com o passado, um lembrete de uma família outrora poderosa, mas agora dividida e enfraquecida.

Ela assentiu, a voz embargada. "Peça para ele vir até mim."

Ricardo aproximou-se com passos medidos, o terno impecável e o sorriso calculado contrastando com a atmosfera de luto. Ele era bonito, de um jeito perigoso, com olhos penetrantes que pareciam ver além da superfície.

"Isabella, minha querida prima. Que tragédia inominável. Marco era um homem bom." A voz dele era suave, melíflua, mas Isabella sentiu uma corrente de falsidade que emanava dele.

"Ele era. E agora ele se foi."

Ricardo colocou uma mão reconfortante em seu ombro, um gesto que Isabella não retribuiu. "Sei que deve estar devastada. Mas a família precisa se manter forte. Especialmente agora."

"O que você quer dizer com 'especialmente agora', Ricardo?" A pergunta saiu com um tom de desafio.

Ele a olhou nos olhos, o sorriso desaparecendo gradualmente. "Com a perda de Marco, a estrutura de poder da família se abala. Há… oportunistas. Pessoas que podem querer tirar vantagem da nossa fragilidade."

Isabella sentiu um arrepio. Ele estava se referindo a Dante? Ou a outros? A teia de intrigas era mais complexa do que ela imaginara.

"Dante é um desses oportunistas, não é?" Ela decidiu ir direto ao ponto.

Ricardo deu um riso baixo e amargo. "Dante… ele sempre foi um lobo solitário. Ambicioso. E ele sempre cobiçou o que é nosso." Ele fez uma pausa, seus olhos fixos nos dela. "Mas Marco era o seu maior obstáculo. E agora, com Marco fora de cena…"

As palavras dele ecoaram na mente de Isabella. Seus olhos se arregalaram de horror. Seria possível? Seria Ricardo quem estava por trás da morte de Marco, usando Dante como bode expiatório ou como um peão involuntário?

"Você sabe quem matou Marco, não sabe, Ricardo?" A voz de Isabella era baixa, carregada de suspeita.

Ele deu de ombros, um gesto quase inocente. "Eu ouvi rumores. Coisas que circulam nos bastidores. Dizem que foi Dante. Dizem que foi uma retaliação por algo que Marco fez."

"Marco não fez nada!", Isabella exclamou, a raiva voltando com força. "Marco era inocente!"

"Inocente no mundo em que vivemos, Isabella, é um convite para o desastre. Marco era leal demais. Em alguns círculos, lealdade é vista como fraqueza." Ele deu um passo mais perto, sua voz assumindo um tom confidencial. "Você precisa ser forte agora. E você precisa de aliados. Pessoas que podem realmente protegê-la. Pessoas como eu."

A oferta era tentadora, mas Isabella sentia uma repulsa instintiva. Havia algo sombrio e calculista em Ricardo, algo que a fazia desconfiar de cada palavra. Ele falava de proteger a família, mas seus olhos brilhavam com a ambição de assumir o controle.

"Eu não preciso da sua proteção, Ricardo." Ela se afastou dele, o corpo tenso. "Eu me protejo."

"E contra quem você se protegerá, Isabella? Contra Dante? Ele é um homem perigoso. E agora que Marco se foi, ele pode fazer o que quiser."

"Dante não me machucaria." A afirmação saiu mais como um desejo do que como uma certeza.

Ricardo riu novamente, um som frio e sem calor. "Você o ama, não é? Mesmo depois de tudo. Que pena. Ele não sentirá o mesmo por você, querida prima. Ele usa as pessoas. E quando elas não servem mais, ele as descarta."

As palavras dele cravaram-se como facas em seu coração. Ela sabia que Dante a usara, mas a ideia de que seu amor era apenas um meio para um fim era insuportável.

"Você está mentindo."

"Estou apenas dizendo a verdade, Isabella. A verdade que você se recusa a ver. Dante queria o poder. Marco estava no caminho. Agora ele não está mais. E você… você é apenas um obstáculo a ser removido, ou uma peça a ser manipulada."

Ele se virou, o terno negro contrastando com a pedra fria do túmulo. "Pense bem, Isabella. O mundo da máfia não é um lugar para sentimentos. É um lugar de poder. E você precisa escolher de que lado está."

Enquanto Ricardo se afastava, deixando-a sozinha novamente, Isabella sentiu o peso da verdade atingi-la com força total. A traição de Dante era uma ferida aberta, mas as palavras de Ricardo plantaram a semente da dúvida. Seria Dante o assassino de Marco? Ou seria Ricardo, o lobo em pele de cordeiro, quem orquestrava tudo nas sombras?

A verdade sobre a morte de Marco estava enterrada sob camadas de mentiras e interesses. E Isabella sabia que para honrar o legado de seu irmão, ela precisava desenterrar essa verdade, custasse o que custasse. O fogo da vingança, antes direcionado a Dante, agora se espalhava, buscando a origem do mal que havia consumido sua família. Ela não podia confiar em Dante, e agora, nem em Ricardo. Estava sozinha em sua busca pela justiça, com a memória de Marco como seu único guia e a promessa de vingança como seu combustível.

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