Sangue na Lua de Caruaru
Capítulo 1
por Nathalia Campos
Com certeza! Prepare-se para mergulhar nas entranhas de Caruaru, onde o sol implacável esconde segredos tão antigos quanto a terra vermelha e a lua, por vezes, tinge-se de um carmesim que clama por justiça.
Sangue na Lua de Caruaru Por Nathalia Campos
Capítulo 1 — A Sombra Que Dança no Sertão
O sol de Caruaru, implacável e dourado, derretia o asfalto e o suor na pele dos poucos que se arriscavam pelas ruas desertas no início da tarde. Era um calor que penetrava os ossos, um abraço sufocante que parecia querer sugar a própria vida da cidade. Mas para Elara, aquele calor era um velho conhecido, um manto familiar que, por vezes, trazia consigo mais do que apenas a poeira e o cheiro de terra seca. Hoje, ele trazia uma inquietação que lhe eriçava os pelos da nuca, uma sensação sutil, mas persistente, de que algo estava prestes a mudar.
Ela ajustou o lenço de chita, vibrante em tons de laranja e azul, para proteger a nuca do sol inclemente. O mercadinho de Dona Lurdes era seu refúgio naquele momento, um oásis de ar condicionado precário e o aroma inebriante de especiarias e frutas recém-colhidas. Elara trabalhava ali há três anos, um emprego que a mantinha com os pés no chão, apesar das visões que teimavam em assombrá-la desde a infância.
— Elara, minha filha, pode me trazer aqueles cajus? Estão pedindo bastante hoje — a voz rouca de Dona Lurdes soou do balcão, interrompendo o devaneio da jovem.
Elara assentiu, ajeitando a postura. Ela era alta, esguia, com cabelos escuros e ondulados que pareciam absorver a pouca luz que entrava na loja. Seus olhos, de um castanho profundo, carregavam uma melancolia que contrastava com a vivacidade do sertão que a cercava. Havia neles uma sabedoria ancestral, um conhecimento que ela não sabia explicar, mas que a fazia sentir-se diferente, deslocada, como se uma parte de si pertencesse a um tempo que já não existia mais.
Enquanto empilhava os cajus vermelhos e brilhantes, sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Era uma sensação fria e desagradável, como se um fantasma tivesse passado por ela. Ela olhou em volta, mas o mercadinho estava quase vazio, apenas uma senhora idosa escolhendo feijões e um garoto que esperava pacientemente sua mãe. Ninguém parecia ter notado nada.
"É só o calor", pensou, tentando afastar a sensação. Mas a sombra que se projetava no chão, por um instante fugaz, pareceu se contorcer de forma estranha, mais longa e mais escura do que deveria ser. Era a sombra de algo que não estava ali, ou de algo que estava oculto à vista.
Naquela noite, a lua cheia pairava sobre Caruaru, imensa e prateada, derramando sua luz fria sobre as casas caiadas e as ruas de paralelepípedos. Elara estava sentada na varanda de sua pequena casa, o balanço rangendo suavemente sob seu peso. O céu estava limpo, sem nuvens, e as estrelas cintilavam como diamantes espalhados em um veludo negro. Mas a beleza da noite não a acalmava. A inquietação que sentira durante o dia havia se intensificado.
Seus dedos traçavam os desenhos bordados em seu vestido de algodão, um padrão de folhas e flores que sua avó havia feito. Sua avó, a matriarca da família, uma mulher forte e misteriosa, que se fora há tantos anos, deixando para trás apenas lembranças e um silêncio carregado de segredos. Elara sentia uma ligação profunda com ela, uma herança que se manifestava em seus sonhos vívidos e nas visões que por vezes a assombravam.
Um uivo distante quebrou o silêncio. Um uivo longo e melancólico, diferente de qualquer cão que ela já tivesse ouvido. Parecia vir das entranhas da terra, um lamento antigo que ecoava no peito de Elara. Ela fechou os olhos, concentrando-se, tentando captar a essência daquele som. E então, viu.
Não era uma visão clara, mas fragmentos, imagens que se sobrepunham como velhos filmes riscados. Um vulto rápido na escuridão, olhos que brilhavam com uma luz vermelha sinistra, um rosnado profundo que arrepiava a alma. E um cheiro. Um cheiro adocicado e metálico, que ela reconheceu com um aperto no coração: sangue.
O coração de Elara disparou. Aquilo não era um sonho. Era um presságio. Ela se levantou do balanço, o corpo tenso. O uivo voltou, mais perto agora, carregado de uma fome primordial. Ela caminhou até a beirada da varanda, olhando para a escuridão que se estendia para além dos limites da cidade, em direção às caatingas que guardavam tantos mistérios.
Um vulto cruzou a rua, rápido demais para ser discernido. Elara prendeu a respiração. Era grande, desajeitado, mas com uma agilidade surpreendente. A lua, nesse exato momento, pareceu se tingir de um vermelho opaco, como se um véu de sangue tivesse sido estendido sobre ela. Um sangue lunar.
— Não pode ser… — sussurrou Elara, a voz embargada pelo medo e pela incredulidade.
Ela havia ouvido as histórias, os murmúrios antigos que sua avó costumava contar em sussurros, sobre criaturas da noite, sobre a escuridão que espreitava nas bordas da civilização. Mas sempre as descartou como lendas, contos para assustar crianças. Até agora.
O uivo cessou abruptamente, substituído por um silêncio sepulcral. O ar ficou pesado, carregado de uma energia latente. Elara sentiu a pele formigar. Ela não estava sozinha. Algo estava ali, observando-a, caçando.
De repente, um grito ecoou pela noite. Um grito agudo, de puro terror, que fez o sangue de Elara gelar nas veias. Vinha da direção da rodovia, onde as luzes da cidade mal alcançavam.
Sem pensar, impulsionada por um instinto que ela não compreendia, Elara correu. Correu para a escuridão, para o perigo, para o chamado sombrio que a lunação vermelha parecia ter invocado. O calor do sertão, que a havia incomodado durante o dia, agora parecia insignificante diante do frio que emanava daquela presença desconhecida. Ela correu em direção ao desconhecido, sentindo o Sangue na Lua de Caruaru pulsar em suas veias, um chamado ancestral que ela não podia mais ignorar. A sombra dançava à sua frente, um prenúncio sombrio de que a noite em Caruaru seria muito longa. E que a vida dela, e de muitos outros, jamais seria a mesma.