Sangue na Lua de Caruaru
Capítulo 13 — O Legado da Sacerdotisa
por Nathalia Campos
Capítulo 13 — O Legado da Sacerdotisa
A exaustão pós-ritual pesava sobre Sofia como um manto cinzento, mas a euforia de sua vitória inicial a impulsionava. As ruínas, antes um lugar de pavor e incerteza, agora emanavam uma aura de proteção, um santuário restaurado. A lua rubra, embora ainda presente, parecia ter recuado em intensidade, como se respeitasse a força que Sofia havia demonstrado.
Dona Lourdes observava a jovem com um olhar que misturava alívio e apreensão. "Você se saiu magnificamente, Sofia. A energia que você canalizou foi poderosa. Os selos estão fortalecidos."
"Mas eu senti...", Sofia começou, a voz ainda rouca, "senti a entidade. Ela tentou entrar, tentou me dominar. Foi... aterrador."
"É a natureza dela", respondeu Dona Lourdes, sua voz um sussurro suave. "Ela se alimenta do medo. O fato de você ter resistido, de ter se mantido firme, é uma prova da força do seu espírito e da sua linhagem."
Mateus, que permanecera ao lado de Sofia, acariciava seu braço. "Você foi incrivelmente corajosa. Eu nunca duvidei que você conseguiria."
Sofia olhou para ele, um sorriso fraco surgindo em seus lábios. "Eu não teria conseguido sem você, Mateus. E sem você, Dona Lourdes."
"Este é apenas o começo, minha querida", disse Dona Lourdes, seus olhos escuros voltando-se para o pergaminho com os símbolos. "O enfraquecimento dos selos é um processo gradual. A entidade não desistirá facilmente. Ela buscará outras brechas, outras formas de se manifestar."
Ela apontou para um dos símbolos no pergaminho. "Este é o Símbolo do Sangue Sagrado. Ele está ligado à linhagem das Protetoras e é um dos mais antigos. Sua avó o mantinha ativo com rituais específicos."
"Minha avó...", Sofia murmurou, o nome de sua avó sempre trazendo um misto de saudade e mistério. "Ela fazia rituais? Que tipo de rituais?"
Dona Lourdes fez um gesto para que a seguissem para fora das ruínas, de volta para a estrada de terra. O céu da madrugada começava a clarear no horizonte, pintando o céu com tons de rosa e laranja, um contraste suave com a noite sombria que se fora.
"Sua avó era uma Sacerdotisa da Lua", explicou Dona Lourdes, enquanto caminhavam. "Ela não apenas mantinha os símbolos ativos, mas também se comunicava com as energias ancestrais, buscando sabedoria e força para proteger Caruaru. Ela era a guardiã dos segredos mais profundos."
Sofia sentiu um arrepio. Sua avó, a mulher que ela lembrava assando bolos e contando histórias infantis, era uma sacerdotisa?
"A linhagem das Protetoras não se limita apenas à defesa", continuou Dona Lourdes. "Ela também carrega a responsabilidade de manter o equilíbrio. Sua avó fazia isso através de rituais que honravam a terra, a lua e os espíritos que guardam este lugar. Rituais que atraíam a força vital de Caruaru para fortalecer os selos."
"E como ela fazia isso?", Sofia perguntou, ansiosa por aprender mais sobre a mulher que era sua antepassada direta e uma figura tão poderosa.
"Ela utilizava ervas específicas, cantos ancestrais e oferendas. Mas o elemento mais importante era a intenção pura, o amor pela terra e a dedicação à proteção. E, claro, a lua de sangue sempre amplificava a força desses rituais."
Chegaram à pequena casa de Dona Lourdes, onde um aroma de ervas e incenso pairava no ar. A anciã convidou-os a entrar. O interior era simples, mas repleto de objetos antigos: cristais, imagens de divindades esquecidas, e uma coleção impressionante de ervas secas penduradas no teto.
"Sua avó me ensinou muito", disse Dona Lourdes, enquanto preparava um chá de ervas em uma chaleira de barro. "Ela era uma mulher de grande sabedoria e compaixão. A decisão dela de se afastar de você, Sofia, foi movida por um amor profundo, um sacrifício para te proteger das trevas que já a cercavam naquela época."
Sofia sentiu uma pontada de dor ao pensar em sua mãe. Ela nunca havia compreendido completamente o motivo do abandono, mas agora, com as revelações sobre a linhagem das Protetoras, um novo entendimento começava a surgir.
"Ela acreditava que a sombra estava se aproximando de mim, mesmo quando eu era criança", Sofia sussurrou, as palavras carregadas de emoção. "E para me proteger, ela teve que desaparecer."
"O preço da proteção é alto, Sofia", Dona Lourdes disse, oferecendo uma caneca de chá fumegante para Sofia e outra para Mateus. "E sua mãe pagou esse preço com coragem e amor. Agora, é a sua vez de carregar esse legado."
Enquanto tomavam o chá, Dona Lourdes começou a ensinar a Sofia os rudimentos dos rituais de sua avó. Ela mostrou as ervas que deveriam ser usadas, os cânticos que deveriam ser entoados, e a importância da concentração e da intenção.
"Cada erva tem suas propriedades", explicou Dona Lourdes, segurando um punhado de folhas de arruda. "A arruda, por exemplo, é para purificação e proteção contra energias negativas. A alfazema, para acalmar o espírito e atrair a serenidade. E o alecrim, para fortalecer a memória e a clareza mental."
Sofia absorvia cada palavra, cada gesto. Sentia a energia das ervas, uma força sutil, mas poderosa. Ela se lembrava vagamente de sua avó mexendo em um pequeno jardim de ervas em sua casa, um detalhe que agora ganhava um novo significado.
"O mais importante", disse Dona Lourdes, seus olhos brilhando com intensidade, "é a conexão com a terra. Precisamos honrar Caruaru, sentir sua energia vital. A entidade se alimenta da decadência, da falta de vida. Ao revitalizarmos a terra, nós a enfraquecemos."
Nos dias seguintes, Sofia e Mateus passaram a maior parte do tempo com Dona Lourdes, aprendendo e praticando os rituais. Sofia sentia sua conexão com a natureza se aprofundar a cada dia. Ela começou a notar pequenos detalhes que antes passavam despercebidos: o murmúrio do vento nas folhas, o canto dos pássaros, a forma como a luz do sol tocava a terra.
Um dia, enquanto praticavam um ritual de purificação em um pequeno bosque nos arredores de Caruaru, Sofia sentiu algo diferente. Uma presença. Não a presença opressora das sombras, mas algo mais sutil, mais antigo.
"O que é isso?", ela perguntou, parando de mexer nas ervas.
Dona Lourdes fechou os olhos, concentrando-se. "É um espírito guardião da terra. Um dos muitos que protegem Caruaru. Sua avó costumava interagir com eles com frequência."
Sofia sentiu uma curiosidade imensa. Ela fechou os olhos, tentando sentir a presença que Dona Lourdes mencionava. Lentamente, uma imagem começou a se formar em sua mente: um ser feito de luz e terra, com olhos que brilhavam como estrelas. Ele parecia observá-la com uma benevolência serena.
"Eu sinto", ela sussurrou. "É... lindo."
"Eles respondem à pureza de intenção, Sofia", disse Dona Lourdes. "Eles sentem a sua força como Protetora. Você está se reconectando com as raízes deste lugar."
Com o passar dos dias, Sofia percebeu que os rituais não eram apenas sobre proteção, mas também sobre renovação. Ela sentia que sua própria energia vital estava sendo revitalizada, sua mente clareando. E a cada dia, a sombra parecia recuar um pouco mais.
No entanto, a paz era ilusória. Uma noite, enquanto meditava em seu quarto, Sofia teve um pesadelo vívido. Ela estava de volta às ruínas, mas desta vez, os símbolos estavam apagados, corroídos. A lua rubra banhava tudo em um vermelho intenso, e a entidade, agora visível em sua forma aterradora, estendia seus tentáculos sombrios em direção a Caruaru.
Ela acordou ofegante, o coração disparado. O amuleto em seu pescoço, que ela agora usava constantemente, parecia vibrar com uma urgência fria.
"O que foi?", Mateus perguntou, acordando com o sobressalto dela.
"Eu tive um pesadelo", Sofia disse, a voz trêmula. "A entidade... ela está ficando mais forte. Ela vai conseguir. Eu senti."
Dona Lourdes, que estava hospedada na casa de Sofia, entrou no quarto, alertada pelo barulho. "O pesadelo é um aviso, Sofia. As trevas sentem a sua força, e por isso, intensificam seus ataques. Elas tentam te desestabilizar."
"Mas e se for real?", Sofia perguntou, o medo começando a corroer a confiança que ela havia construído. "E se eu não for forte o suficiente?"
"Você é forte, Sofia", disse Dona Lourdes com firmeza. "Mais forte do que você imagina. O legado da Sacerdotisa corre em suas veias. Mas você precisa estar preparada. A entidade não ataca apenas os selos, ela ataca os corações das pessoas, semeando discórdia e medo."
Ela olhou para o amuleto em volta do pescoço de Sofia. "Este amuleto é uma extensão de sua alma. Ele amplifica sua força, mas também reflete seu estado de espírito. Se você ceder ao medo, ele enfraquecerá."
Sofia sentiu um nó na garganta. O peso da responsabilidade parecia insuportável. Ela olhou para Mateus, para Dona Lourdes, e viu neles a esperança e a fé que a mantinham de pé.
"Eu não vou ceder", ela disse, sua voz ganhando firmeza. "Eu vou aprender. Vou me tornar a Sacerdotisa que minha avó foi, a Guardiã que Caruaru precisa."
Dona Lourdes sorriu, um sorriso genuíno de orgulho. "É assim que se fala. Agora, vamos começar o dia. Temos muito a aprender antes que a próxima lua de sangue chegue."
O sol da manhã, agora plenamente visível, lançava uma luz dourada sobre Caruaru, dissipando as últimas sombras da noite. Sofia sabia que a luta seria longa e árdua, mas ela não estava mais sozinha. Ela tinha o apoio de Mateus, a sabedoria de Dona Lourdes, e a força ancestral de sua linhagem fluindo em suas veias. O legado da Sacerdotisa renascia nela, pronta para enfrentar o que quer que as trevas tivessem a oferecer.