Sangue na Lua de Caruaru

Capítulo 2 — O Grito Que Rasgou a Noite

por Nathalia Campos

Capítulo 2 — O Grito Que Rasgou a Noite

O asfalto quente sob seus pés descalços era uma tortura familiar para Elara. Cada passo em direção à rodovia parecia arrastar consigo um pedaço de sua alma, um receio crescente que se misturava à adrenalina. O grito que havia rasgado a noite ainda ecoava em seus ouvidos, um eco cruel que parecia se multiplicar na escuridão. Ela nunca havia corrido tanto na vida, impulsionada por uma força que parecia vir de um lugar profundo e primitivo dentro dela.

As casas de Caruaru iam ficando para trás, suas luzes fracas e isoladas parecendo pontos de esperança em um oceano de sombras. A vegetação agreste, que parecia adormecida sob o sol do dia, agora ganhava vida com os ruídos noturnos: o chiado dos grilos, o farfalhar de algum animal na caatinga. Mas o som que dominava tudo era o eco fantasmagórico do grito.

Quando finalmente alcançou a beira da rodovia, ofegante e com os pulmões queimando, o cenário que se apresentou a deixou sem ar. Um carro estava parado no acostamento, com os faróis acesos, banhando um pedaço do asfalto em uma luz amarelada e trêmula. Ao lado do carro, jogada de forma desajeitada, jazia a figura de um homem.

Elara hesitou por um instante. O cheiro de sangue, que ela sentira em suas visões, agora pairava denso no ar, misturando-se ao cheiro de borracha queimada e de algo mais, algo selvagem e repulsivo. Ela se aproximou lentamente, o coração martelando contra as costelas.

O homem estava de bruços. Suas roupas, antes brancas, agora estavam manchadas de um vermelho escuro e viscoso. Uma poça de sangue se espalhava pelo asfalto, atraindo insetos que zumbiam impacientemente. Elara ajoelhou-se ao lado dele, a mão tremendo ao estender-se para sentir o pulso. Era fraco, quase imperceptível.

— Senhor? O senhor está bem? — sua voz saiu fraca, rouca.

O homem gemeu, um som gutural que mal se parecia com uma palavra. Ele tentou se virar, mas um espasmo o dominou. Elara viu então o que restava de suas costas. Rasgadas, dilaceradas, como se tivessem sido atacadas por algo com garras afiadas. A ferida era profunda, brutal, e emanava um odor de morte.

Um rosnado baixo, vindo da escuridão da caatinga, fez Elara pular. Ela se virou instintivamente, os olhos arregalados, tentando penetrar a escuridão densa. O uivo que ouvira antes voltou, mais próximo, mais ameaçador. Aquele rosnado era a confirmação de seus piores medos.

— O que… o que fez isso com o senhor? — perguntou Elara, voltando-se para o homem ferido, o pânico começando a tomar conta.

Ele grunhiu novamente, uma tentativa de falar. Elara se inclinou, tentando captar suas palavras.

— Sombra… Sombra… — ele murmurou, a voz falhando. — Levou… Levou tudo…

Sombra. Era assim que sua avó chamava as criaturas. A sombra que espreita.

De repente, os faróis do carro piscaram e se apagaram, mergulhando a cena em uma escuridão quase total, apenas a luz fantasmagórica da lua permanecia. O rosnado se intensificou, acompanhado por um som de farfalhar de galhos secos, como se algo se movesse rapidamente entre as árvores.

Elara sentiu o cheiro novamente, mais forte agora. Aquele odor adocicado e metálico, misturado a um odor de pelo molhado e algo fétido. Era o cheiro da criatura. E estava perto. Muito perto.

Ela olhou para o homem. Seus olhos estavam vidrados, fixos em um ponto invisível. O pouco de vida que ainda restava em seu corpo parecia se esvair rapidamente. Elara sabia que não havia nada que pudesse fazer por ele. O dano era profundo demais.

Um movimento brusco chamou sua atenção. Na borda da escuridão, onde a luz da lua mal chegava, algo se moveu. Era grande, curvado, com uma postura que não era humana. Elara não conseguia distinguir os detalhes, mas a silhueta era ameaçadora, feita de pura escuridão. E então, ela viu os olhos. Dois pontos de um vermelho incandescente que brilhavam na noite, fixos nela.

O uivo ecoou novamente, não um grito de dor, mas um grito de triunfo. A lua, como se em resposta, pareceu sangrar um pouco mais, o tom avermelhado se intensificando.

O desespero tomou conta de Elara. Ela precisava fugir. Mas algo a prendia ali. Uma força estranha, um senso de responsabilidade que a impedia de abandonar aquele homem, por mais que seu instinto gritasse para que corresse.

Foi então que ela ouviu outro som. Um som de motor se aproximando. Faróis surgiram na distância, crescendo rapidamente. Alguém estava vindo.

A criatura pareceu hesitar. Os olhos vermelhos se desviaram por um instante, fixando-se na luz que se aproximava. Parecia relutante em ser vista. Elara aproveitou a oportunidade.

Ela agarrou o braço do homem ferido, tentando puxá-lo para dentro do carro. Era pesado, inerte. Seus esforços eram quase inúteis.

Os faróis estavam próximos agora, banhando a cena em uma luz forte. Elara viu a silhueta sombria recuar rapidamente para a escuridão da caatinga, desaparecendo tão rápido quanto havia surgido. Um último uivo, melancólico e distante, ecoou.

O carro parou bruscamente ao lado do dela. Uma porta se abriu e um homem saiu apressadamente. Ele era jovem, talvez na casa dos trinta anos, com um rosto marcado pela preocupação. Vestia um uniforme escuro, que Elara não reconheceu de imediato.

— Meu Deus! O que aconteceu aqui? — ele exclamou, os olhos fixos no homem ferido. Ele correu até eles, o movimento rápido e decidido.

Elara afastou-se, ainda trêmula. Ela observou o homem se ajoelhar ao lado do ferido, examinando-o com uma urgência contida.

— Ele está vivo? — perguntou Elara, a voz ainda instável.

O recém-chegado olhou para ela, o rosto pálido.

— Vivo, mas gravemente ferido. Precisa de ajuda médica urgente. — Ele tirou um rádio do bolso e começou a falar em uma linguagem técnica que Elara não compreendia. — Aqui é a unidade Delta-7, solicito ambulância em código vermelho. Repito, código vermelho. Vítima com múltiplas lacerações graves, hemorragia ativa.

Unidade Delta-7? Código vermelho? Quem era aquele homem?

— Quem é o senhor? — Elara perguntou, a curiosidade sobrepondo o medo.

O homem a olhou novamente, um olhar penetrante que parecia avaliá-la. Havia algo em seus olhos, uma seriedade que ia além da situação.

— Meu nome é Gabriel. E eu faço parte de uma equipe que… cuida de certas coisas em Caruaru. Coisas que o resto do mundo não vê.

Elara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. "Coisas que o resto do mundo não vê". Aquelas palavras ressoaram profundamente nela. Era como se ele estivesse falando diretamente com a parte dela que sempre sentira a presença do inexplicável.

— Eu… eu vi. — Elara confessou, baixinho. — Eu vi a… a coisa.

Gabriel a olhou com mais atenção, um lampejo de surpresa em seus olhos.

— Viu? Como era?

— Era uma sombra. Grande. Com olhos vermelhos. E o cheiro… — Elara estremeceu.

Gabriel assentiu lentamente, o semblante ficando mais sério.

— Era isso que temíamos. A Sombra de Caruaru.

O som de uma sirene ao longe se aproximava. A ambulância. Mas Elara sabia que o perigo não havia passado. A criatura ainda estava lá fora, nas sombras, esperando. E de alguma forma, ela sentiu que seu destino estava agora entrelaçado ao dele, ao do homem ferido, e àquela sombra que parecia ter escolhido Caruaru como seu palco de caça. O sangue na lua não era apenas um fenômeno astronômico; era um aviso. E o grito que rasgou a noite era apenas o prelúdio de uma batalha que estava prestes a começar.

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