Sangue na Lua de Caruaru

Capítulo 4 — Os Sussurros do Passado

por Nathalia Campos

Capítulo 4 — Os Sussurros do Passado

A casa de Elara, antes um refúgio de simplicidade sertaneja, agora parecia impregnada de uma aura de mistério. Com o diário de sua avó em mãos e Gabriel como seu guia cauteloso, ela passava horas vasculhando os objetos deixados para trás, como quem desenterra tesouros esquecidos. O amuleto de prata no pescoço de Elara parecia pulsar com uma energia suave, um lembrete constante da herança que ela carregava.

O diário de sua avó era um labirinto de anotações crípticas, descrições de rituais e relatos de avistamentos que faziam a pele de Elara se eriçar. Havia menções a "marcos de poder" espalhados pela região, locais onde a energia da terra era mais forte, e onde a barreira entre o mundo físico e o espiritual se tornava tênue. Um desses marcos era mencionado repetidamente: um antigo rochedo na beira do rio Capibaribe, conhecido localmente como a "Pedra do Sussurro".

— Minha avó ia até lá em noites de lua cheia — Elara contou a Gabriel, enquanto folheava o diário sob a luz fraca de um abajur. — Ela dizia que era um lugar de conexão, onde os espíritos ancestrais falavam. Mas também um lugar perigoso.

Gabriel, sentado à mesa da cozinha com uma xícara de café forte, assentiu pensativo.

— Pedras do poder são comuns em locais de atividade sobrenatural. Podem amplificar energias, atrair certas presenças. Se a Sombra de Caruaru está se tornando mais ativa, é provável que ela sinta a força desses locais.

Ele explicou que a "unidade Delta-7" tinha registros sobre a Pedra do Sussurro, associando-a a lendas locais de aparições e eventos inexplicáveis que remontavam aos tempos coloniais. Havia até mesmo relatos de sacrifícios antigos para apaziguar as "fúrias da terra".

— A lua em tons de sangue que você viu… isso não é comum. É um indicador de desequilíbrio. Algo está perturbando a ordem natural. E a Sombra, seja lá o que for, está aproveitando essa perturbação.

Naquela noite, a lua nova deixava o céu ainda mais escuro, salpicado por um número impressionante de estrelas. Elara sentia uma inquietação familiar, a sensação de estar sendo observada. Ela olhou para a janela, para a escuridão densa que engolia a paisagem.

— O que exatamente é essa "Sombra de Caruaru"? Minha avó só se referia a ela assim.

— É o que estamos tentando descobrir. Pelo que os registros indicam, é uma entidade ancestral, ligada à própria terra desta região. Uma criatura que se manifesta em momentos de grande instabilidade. Alguns a descrevem como um espírito da natureza corrompido, outros como um demônio territorial. As lendas variam.

Gabriel tirou um pequeno dispositivo do bolso, parecido com um celular antigo, mas com uma antena peculiar. Ele o ligou, e uma série de luzes piscantes começou a indicar leituras estranhas.

— Níveis de energia flutuando. Algo está ativo por perto.

Elara sentiu um calafrio. Ela olhou para o diário novamente, para uma passagem que falava sobre a lua e a terra estarem conectadas por um ciclo de vida e morte, e que a lua em tons de sangue era um sinal de que esse ciclo estava sendo forçado.

— Minha avó escreveu sobre um ciclo. Ela dizia que a lua e a terra "respiravam" juntas. E que quando a lua sangrava, era porque a terra estava em agonia.

— Agonia? Por quê? — Gabriel perguntou, o interesse aguçado.

— Ela falava de um desequilíbrio. De algo que estava sendo roubado da terra. Ou de algo que estava sendo liberado.

De repente, um barulho vindo do quintal fez os dois sobressaltarem. Um som de galhos se quebrando, seguido por um rosnado baixo e gutural. Era o mesmo som que Elara ouvira na noite do ataque na rodovia.

Gabriel levantou-se rapidamente, pegando uma arma discreta que estava guardada em sua cintura. Elara agarrou o amuleto em seu pescoço, sentindo um calor estranho emanando dele.

— Fique aqui. — disse Gabriel, movendo-se com a agilidade de um predador.

Elara não obedeceu. Ela seguiu Gabriel até a porta dos fundos, espiando para o quintal escuro. A lua nova não oferecia muita luz, mas a silhueta que ela vislumbrou era inconfundível. Era grande, curvada, com uma postura animalesca. E então, ela viu os olhos. Dois pontos vermelhos brilhantes, fixos nela.

Era a Sombra.

Um uivo longo e agoniado ecoou, não de dor, mas de fome. A criatura parecia se alimentar da escuridão e do medo que pairavam no ar. Elara sentiu o poder do amuleto em seu pescoço aumentar, como se estivesse reagindo à presença da criatura. Uma aura sutil e prateada pareceu emanar dela.

Gabriel apontou a arma, mas hesitou.

— Não podemos atirar a esmo. Pode piorar as coisas. Precisamos contê-la.

A criatura avançou, movendo-se com uma velocidade surpreendente. Elara sentiu um impulso, uma necessidade de agir. Ela se lembrou de um ritual que sua avó descrevia em seu diário, um ritual de invocação de luz para afastar as sombras. Era arriscado, e ela nunca havia tentado antes.

— A luz… precisamos de luz! — Elara gritou, a voz trêmula, mas firme. — Minha avó dizia que a escuridão não pode suportar a luz verdadeira.

Gabriel olhou para ela, compreendendo a urgência em sua voz. Ele ativou uma lanterna tática potente, focando o feixe de luz na direção da criatura. A Sombra recuou ligeiramente, sibilando, mas não se afastou completamente.

Elara fechou os olhos, concentrando-se. Ela imaginou a luz mais pura e brilhante, a luz do sol do sertão, a luz da lua cheia em sua glória. Ela sentiu a energia do amuleto fluir através dela, um calor que se transformava em luz. Quando abriu os olhos, uma aura prateada e cintilante a envolvia, mais intensa do que antes.

A criatura rugiu de dor e fúria. A luz que emanava de Elara parecia queimá-la. Ela se contorceu, seus olhos vermelhos faiscando com ódio.

— Vá embora! — Elara gritou, a voz ressoando com um poder inesperado. — Você não tem poder aqui!

A Sombra hesitou por um instante, como se sentisse uma força antiga se opondo a ela. Gabriel aproveitou a oportunidade e lançou um dispositivo fumegante no chão, que liberou uma nuvem densa de fumaça com um odor forte e acre. A criatura sibilou novamente e, com um último uivo de frustração, desapareceu na escuridão da caatinga.

O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pela respiração ofegante de Elara e Gabriel. A aura prateada ao redor de Elara diminuiu gradualmente, deixando-a exausta, mas ilesa.

Gabriel guardou a arma e caminhou até ela, o rosto pálido, mas com um misto de admiração e preocupação.

— Você fez isso. Você a afugentou.

Elara olhou para suas mãos, que ainda tremiam levemente.

— Eu… eu não sei como. Foi o amuleto? Foi a luz?

— Foi você, Elara. Sua herança. Sua força. Sua avó sabia que você seria capaz.

Ele olhou para a escuridão onde a criatura havia desaparecido.

— Mas ela voltará. E virá mais forte. Precisamos encontrar a Pedra do Sussurro. É lá que começaremos a entender o que ela quer. E o que sua avó estava tentando proteger.

Elara sentiu o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros, mais pesado do que nunca. Os sussurros do passado, agora claros e urgentes, a chamavam para uma batalha que ela não desejava, mas que não podia mais ignorar. O Sangue na Lua de Caruaru não era apenas um fenômeno, era um chamado. E ela, Elara, a moça do mercadinho, estava respondendo. A caatinga guardava seus segredos, e ela estava prestes a desvendá-los, custe o que custar.

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