Sangue na Lua de Caruaru

Sangue na Lua de Caruaru

por Nathalia Campos

Sangue na Lua de Caruaru

Capítulo 6 — O Ritual Esquecido

A noite em Caruaru, sob o manto de uma lua cheia que parecia tingida de um rubro doentio, era um convite à melancolia e, para Aurora, ao medo. A brisa que varria a caatinga trazia consigo o cheiro de poeira, de cactos em flor e, agora, um aroma metálico, pungente, que ela não conseguia identificar, mas que lhe gelava a espinha. A Pedra do Sussurro, antes apenas um enigma na paisagem desértica, transformara-se num portal para um terror que ela jamais imaginara existir.

Desde que encontrara o amuleto de jade, a força que emanava dele pulsava em suas mãos, um calor estranho que a acompanhava como uma sombra. Mas naquela noite, o calor se tornara febre, e os sussurros, antes inaudíveis, agora ressoavam em sua mente como um coro de vozes ancestrais, clamando por algo que ela não entendia. Eram fragmentos de histórias, lamentos de tempos idos, e o nome que mais se repetia era o de uma mulher: Iara.

Ela não conseguia mais dormir. Seus pensamentos giravam em torno de Elara, a curandeira que a alertara sobre os perigos da pedra, e de Samuel, o arqueólogo com os olhos de tempestade que a olhava com uma mistura de fascinação e desconfiança. Ele a procurara novamente no dia anterior, seus dedos finos traçando com delicadeza a superfície do amuleto. A pele dela se arrepiou ao toque dele, uma eletricidade que a assustou tanto quanto a atraiu.

"Você sente isso, não sente?", Samuel perguntara, a voz rouca, quase um sussurro. "Essa energia… é antiga. Poderosa."

Aurora havia balançado a cabeça, incapaz de articular uma resposta. As palavras de Elara ecoavam em sua mente: "A pedra carrega o sangue de quem a amou e a perdeu. Ela te escolheu, moça. Mas o que ela te trará, bom ou mau, depende de quem você se tornará."

Agora, deitada em sua cama improvisada no pequeno quarto alugado em Caruaru, ela se levantou. O luar banhava o cômodo em tons fantasmagóricos, revelando as rachaduras nas paredes, o pó que dançava no ar. Ela precisava entender. Precisava saber o que a pedra queria dela.

Vestiu as roupas mais simples, um vestido de algodão florido que não se destacava na paisagem, e saiu para a noite. A cidade dormia, um murmúrio distante de animais e o uivo solitário de um cão. O caminho até a Pedra do Sussurro era curto, mas naquela noite, cada passo parecia mais pesado, cada sombra mais ameaçadora.

Ao chegar, a pedra parecia ainda maior, mais imponente. O rubro da lua incidia sobre ela, fazendo com que a superfície, antes fria e lisa, parecesse vibrar com um calor interior. Aurora se aproximou, o coração martelando contra as costelas. Os sussurros se intensificaram, as vozes se tornando mais claras, mas ainda em uma língua que ela não reconhecia. Era um dialeto antigo, esquecido, que de alguma forma ressoava em sua alma.

Ela ergueu o amuleto. No instante em que suas mãos tocaram a pedra, uma luz tênue, verde-esmeralda, emanou do jade. A terra sob seus pés tremeu suavemente. As vozes, antes um murmúrio confuso, agora se transformaram em um cântico, um lamento poderoso que parecia envolver toda a caatinga.

"Iara… Iara… Sinta… Sinta o chamado…"

Aurora fechou os olhos, entregando-se à experiência. Uma imagem surgiu em sua mente: uma mulher, com longos cabelos negros e olhos de fogo, vestida com trajes que pareciam feitos de folhas e flores. Ela estava ajoelhada diante de um altar rústico, as mãos erguidas para o céu, a lua cheia refletida em seus olhos. O sangue escorria de seus pulsos, pingando em um caldeirão fumegante. Era um ritual. Um sacrifício.

Ela sentiu a dor da mulher, o desespero, o amor profundo que a impulsionava. Era Iara. E o que ela estava fazendo? Por quê?

De repente, uma outra imagem a atingiu, brutal e chocante: um homem, um guerreiro de pele morena e olhar implacável, a espada manchada de sangue. Ele se aproximou de Iara, não com fúria, mas com uma tristeza profunda. Em seus olhos, Aurora viu um amor proibido, um amor que fora traído. E então, o golpe. A espada afundou no peito de Iara.

Aurora ofegou, seus joelhos cedendo. A visão era vívida demais, a dor real demais. Ela sentiu o sangue de Iara em sua própria pele, o frio da morte. O cântico da pedra silenciou abruptamente. O amuleto em sua mão esfriou, e a luz verde se apagou. A lua continuava a brilhar em seu rubro sinistro, mas a magia daquela noite se dissipara, deixando apenas um vazio assustador.

Ela estava sozinha novamente, o silêncio da caatinga pesando sobre ela. Mas agora, ela sabia. A Pedra do Sussurro não era apenas um objeto antigo; era um receptáculo de memórias, de dor e de um amor que fora brutalmente ceifado. E Iara, a mulher dos sussurros, estava de alguma forma ligada a ela.

O que Elara quis dizer com "o que ela te trará, bom ou mau, depende de quem você se tornará"? Aurora sentiu o peso da responsabilidade cair sobre seus ombros. Ela era a escolhida. E a história de Iara, com todo o seu sofrimento e paixão, estava começando a se desenrolar em sua própria vida.

O sol começou a tingir o horizonte de tons alaranjados quando Aurora finalmente retornou ao seu quarto. O cansaço a consumia, mas sua mente estava em chamas. Ela olhou para o amuleto em sua mão. O jade, antes opaco, agora parecia ter uma profundidade nova, como se guardasse em si os segredos do universo.

Ela precisava de respostas. E só havia uma pessoa em Caruaru que poderia ter um fragmento delas: Elara.

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%