Sangue na Lua de Caruaru

Capítulo 8 — O Encontro nas Ruínas

por Nathalia Campos

Capítulo 8 — O Encontro nas Ruínas

O sol castigava a terra de Caruaru, transformando o ar em um vapor denso e pesado. As cores da caatinga, vibrantes sob a luz intensa, pareciam dançar na visão de Aurora, que seguia Elara por uma trilha tortuosa, a poeira fina subindo a cada passo. O livro sobre Iara que Elara lhe dera repousava em sua mochila, um peso reconfortante e assustador. As páginas amareladas contavam uma saga de amor, magia e tragédia, e a cada linha lida, Aurora sentia uma conexão mais profunda com aquela mulher ancestral.

"Estamos quase lá", disse Elara, apontando para uma formação rochosa que se erguia majestosa no horizonte, um amontoado de pedras ancestrais que guardavam segredos de tempos imemoriais. "Aqui, onde o vento canta mais alto, as ruínas da antiga aldeia de Iara guardam vestígios de seu poder."

As ruínas eram um esqueleto de um passado glorioso. Muros desmoronados, pedras empilhadas que um dia foram casas, e um altar central, desgastado pelo tempo, mas ainda imponente. O ar ali parecia mais rarefeito, carregado de uma energia palpável, um eco silencioso de rituais e vidas vividas. Aurora sentiu um arrepio percorrer sua espinha, não de medo, mas de reverência. Era como se a própria terra estivesse respirando ao redor dela.

"Iara costumava realizar seus rituais aqui", explicou Elara, seus olhos varrendo o local com um misto de saudade e orgulho. "Era um lugar sagrado, onde ela se conectava com os espíritos da natureza e invocava a força para proteger seu povo."

Aurora se aproximou do altar, passando os dedos sobre a pedra fria e marcada. Ela fechou os olhos, tentando sentir a presença de Iara. E, por um breve instante, sentiu. Uma leve vibração, um eco de energia que parecia emanar da própria pedra. E então, um sussurro, mais nítido do que nunca, ecoou em sua mente: "Amor… não se perde… se transforma…"

Antes que pudesse processar a mensagem, um som diferente chamou sua atenção. O barulho de passos se aproximando, um som de botas sobre a terra seca. Um som familiar.

Samuel apareceu, emergindo de trás de um amontoado de rochas. Ele vestia roupas de expedição, o cabelo escuro ligeiramente desgrenhado pelo sol, e seus olhos azuis, intensos como sempre, fixaram-se em Aurora. Havia um sorriso no canto de seus lábios, um sorriso que ela não sabia se devia confiar.

"Eu imaginei que a encontraria aqui", disse ele, a voz surpreendentemente calma. "O chamado da pedra é forte, não é, Aurora?"

Aurora sentiu uma pontada de irritação. O que ele sabia sobre o "chamado da pedra"? E como ele a encontrara? Ela olhou para Elara, que a observava com uma expressão cautelosa.

"O que você está fazendo aqui, Samuel?", perguntou Elara, sua voz firme, mas com uma nota de advertência.

Samuel deu de ombros, seus olhos ainda fixos em Aurora. "Eu sinto a energia deste lugar, Elara. Como Aurora, eu sou atraído por ele. Eu estudo a história desta terra, seus mistérios. E sei que algo importante está acontecendo." Ele se aproximou, parando a uma distância respeitosa, mas com uma presença que dominava o espaço. "A pedra que você carrega, Aurora… ela é a chave para desvendar segredos que podem mudar tudo."

"Segredos que não são seus para desvendar", retrucou Elara, dando um passo à frente, protegendo Aurora.

Samuel riu, um som baixo e sem humor. "Eu não busco o poder para mim, Elara. Eu busco o conhecimento. E o conhecimento, Aurora, é algo que deve ser compartilhado. Especialmente quando se trata de forças que podem afetar o mundo."

Ele olhou para Aurora, e seus olhos transmitiam uma sinceridade que era difícil de ignorar. "Eu sei que você tem medo. Eu sei que sente essa energia pulsando dentro de você. Mas você não pode enfrentar isso sozinha. O que Iara representava era poder, sim, mas também equilíbrio. E esse equilíbrio está em risco."

Aurora sentiu-se dividida. A cautela que Elara lhe incutira lutava contra a curiosidade e a atração que Samuel exercia sobre ela. Havia algo em sua fala que soava verdadeiro, uma urgência que parecia sincera.

"Como você sabe tanto sobre Iara?", Aurora perguntou, a voz baixa.

"Eu estudo os fragmentos, Aurora. Os mitos, as lendas, as poucas inscrições que sobreviveram. Iara era uma figura central na história desta região. Sua energia era tão forte que, mesmo após sua morte, ela deixou marcas profundas. E a pedra… é o seu legado mais poderoso." Ele fez uma pausa, olhando para o altar. "Mas o que ele carrega não é apenas o poder de Iara. É também o eco de sua tragédia. E, às vezes, as tragédias atraem sombras."

As palavras de Samuel pareciam ecoar os avisos de Elara. Sombras. Ele estava falando das mesmas forças que Elara mencionara?

"E o que você sugere?", perguntou Aurora, sentindo-se cada vez mais envolvida em algo maior do que ela.

"Eu sugiro que trabalhemos juntos", disse Samuel, seus olhos fixos nos dela. "Eu tenho o conhecimento acadêmico, a capacidade de decifrar textos antigos, de contextualizar as descobertas. Você tem a conexão, a sensibilidade. Juntos, podemos entender o que Iara realmente deixou para trás e como protegê-lo."

Elara interveio, sua voz firmemente decisiva. "Samuel, sua busca por conhecimento é admirável, mas a força de Iara não é algo para ser explorado em laboratórios. É algo para ser honrado, compreendido em seu espírito."

"E quem disse que eu não a honro?", Samuel retrucou, um tom de frustração começando a surgir em sua voz. "Eu passei anos estudando essa cultura, essa mulher. Eu sei a importância do que ela representava. Eu não quero o poder, Elara. Eu quero entender. E quero garantir que esse poder não caia nas mãos erradas." Ele olhou para Aurora novamente. "Você sente isso, não sente? Que há algo mais aqui? Que a pedra te escolheu por um motivo?"

Aurora fechou os olhos por um instante. A vibração das ruínas parecia aumentar, os sussurros de Iara se misturando com a voz de Samuel e a sabedoria de Elara. Ela sentiu o amuleto quente em seu pescoço. Sim, ela sentia. Sentia que algo grande estava em jogo, algo que ia além de sua compreensão.

"Eu… eu não sei", ela admitiu, abrindo os olhos. "Eu sinto que há muito a desvendar. E eu sei que a pedra é importante. Mas confiar em você, Samuel… como posso ter certeza de que suas intenções são puras?"

Samuel deu um passo à frente, a expressão sincera. "A única maneira de ter certeza, Aurora, é me dar uma chance. Deixe-me mostrar que meu interesse é genuíno. Juntos, podemos não apenas desvendar os segredos de Iara, mas também protegê-la de qualquer ameaça."

Ele estendeu a mão para ela, um gesto de trégua. Aurora olhou para a mão dele, depois para Elara, que a observava com uma expressão que misturava preocupação e resignação. A escolha era dela. O medo a puxava para a prudência, mas a necessidade de entender, de desvendar o mistério que a envolvia, a impelia para frente.

Com um suspiro, Aurora estendeu a mão e a colocou na de Samuel. O toque foi firme, a eletricidade familiar percorrendo seu braço. "Tudo bem, Samuel. Vamos trabalhar juntos. Mas com uma condição: Elara estará conosco. E as intenções serão sempre voltadas para a proteção do que Iara deixou."

Um sorriso genuíno, finalmente, iluminou o rosto de Samuel. "Claro, Aurora. Juntos. Por Iara."

Enquanto o sol começava a se pôr, tingindo o céu de Caruaru com tons de fogo e púrpura, Aurora sentiu que um novo capítulo de sua vida estava começando. Um capítulo repleto de perigos, de mistérios ancestrais e de uma aliança improvável, forjada sob o olhar atento de uma lua que prometia uma noite de revelações.

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