A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

por Stella Freitas

A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

Capítulo 1 — O Chamado da Maré Salgada

O vento uivava, não um lamento, mas um sussurro ancestral que serpenteava pelas dunas de areia fina e branca da Praia do Forte. Era uma noite de lua nova, daquelas em que o céu se tingia de um negro aveludado, salpicado de estrelas que pareciam diamantes jogados por mãos divinas. Um silêncio profundo pairava no ar, quebrado apenas pelo murmúrio ritmado das ondas que beijavam a costa com uma suavidade quase sensual.

Isabela sentia a brisa salgada acariciar seu rosto, uma carícia familiar que sempre trazia consigo um misto de paz e inquietude. Aos vinte e seis anos, ela era dona de uma beleza que parecia ter sido esculpida pela própria natureza: cabelos longos e negros como a noite, pele bronzeada pelo sol baiano e olhos verdes, profundos como o oceano em dias de tempestade. Havia neles uma melancolia latente, um eco de segredos que ela mesma mal compreendia.

Ela caminhava descalça pela areia fria, a água a lamber seus tornozelos a cada onda que avançava. A casa de sua família, uma mansão colonial de janelas azuis e varandas floridas, ficava a alguns metros dali, um refúgio de lembranças e de um passado que insistia em assombrá-la. Naquela noite, porém, o chamado vinha do mar. Yemanjá, a Rainha do Mar, parecia sussurrar em seu ouvido, convocando-a para um encontro que ela tanto ansiava quanto temia.

Desde criança, Isabela sentia uma ligação inexplicável com o oceano. Não era apenas a beleza estonteante, a imensidão que a fazia sentir-se pequena e, ao mesmo tempo, parte de algo grandioso. Era algo mais profundo, uma energia que a envolvia, um conhecimento antigo que parecia brotar de suas entranhas. As pescadoras mais velhas da vila a olhavam com um misto de respeito e receio, chamando-a de "a menina dos olhos d'água", de "abençoada pela Sereia".

Naquela noite, porém, a sensação era diferente. O ar estava carregado, denso, como se o próprio tempo estivesse suspenso. A maré parecia mais alta, as ondas mais fortes, carregadas de uma força primal. Isabela sentiu um arrepio percorrer sua espinha, não de medo, mas de uma excitação sombria. Era como se as profundezas do oceano estivessem prestes a revelar seus segredos mais obscuros.

Ela parou na beira da água, observando a dança hipnótica das ondas. Em sua mente, imagens fragmentadas surgiam: rostos estranhos, palavras em uma língua desconhecida, um brilho prateado que a cegava. E sempre, a sensação de estar sendo observada, vigiada por olhos que não pertenciam a este mundo.

"Está fria esta noite, filha", uma voz rouca e grave a tirou de seus devaneios.

Isabela se virou, o coração disparado. Era Seu Antenor, o pescador mais antigo da vila, um homem de pele enrugada como a casca de um coqueiro e um olhar penetrante que parecia ter visto o nascimento e a morte de incontáveis luas. Ele estava sentado em um tronco de madeira trazido pela maré, um cachimbo aceso entre os dedos nodosos.

"Seu Antenor! Me assustou", ela disse, tentando disfarçar a tensão.

Ele soltou uma fumaça densa, que se dispersou no ar úmido. "O mar chama para os seus, Isabela. E você, minha filha, tem sal nas veias."

Isabela se aproximou, sentando-se ao lado dele. A familiaridade daquele homem a acalmava, mesmo com a aura misteriosa que o cercava. Diziam que ele conversava com as sereias, que sabia os segredos dos ventos e das correntes.

"O mar parece diferente hoje, não acha?", ela perguntou, seus olhos verdes fixos no horizonte escuro.

"O mar guarda segredos, Isabela. E hoje, ele está inquieto. Há algo vindo. Algo que pode mudar tudo." Seu Antenor levou o cachimbo aos lábios, pensativo. "Você sente, não sente? A força que pulsa nas profundezas?"

Isabela assentiu, o peito apertado por uma emoção que ela não conseguia nomear. Era uma mistura de saudade, de um pressentimento sombrio e de uma curiosidade insaciável. "Sinto. É como um chamado, mas não sei para onde me chama."

"Para o seu destino, talvez", ele murmurou, o olhar perdido no mar. "Para aquilo que está adormecido em você. Há tempos que sinto sua força crescer, como a maré que sobe. E agora, a maré vai virar."

Um silêncio pairou entre eles, quebrado apenas pelo som das ondas. Isabela fechou os olhos, tentando decifrar a mensagem que o mar lhe enviava. Havia uma escuridão que a atraía, uma magia que a seduzia. Magia negra. A palavra ecoou em sua mente como um aviso, mas também como uma promessa.

"Seu Antenor", ela começou, a voz embargada, "o que você acha que está acontecendo?"

O velho pescador suspirou, o olhar voltando-se para ela. Havia uma tristeza profunda em seus olhos, um peso de anos e de sabedoria. "Os tempos mudam, Isabela. E com eles, as energias. O equilíbrio está se rompendo. A luz e a sombra disputam o seu lugar."

"Sombra?", Isabela repetiu, um frio percorrendo sua espinha.

"O mar é vida, mas também é mistério. E no mistério, há forças que nós, meros mortais, não ousamos desafiar. Mas você, Isabela... você é diferente. Você tem a marca."

"Marca de quê?", ela perguntou, a curiosidade agora tingida de apreensão.

"A marca de Yemanjá. E de outras que vieram antes de você. Mulheres que sentiram o chamado, que dançaram com as ondas e que fizeram pactos nas noites de lua nova." Ele fez uma pausa, a voz baixando para um sussurro quase inaudível. "Algumas tiveram luz em seus caminhos, outras... foram engolidas pela escuridão."

O coração de Isabela martelava no peito. Aquelas palavras ressoavam em algo profundo dentro dela, como se fossem ecos de um passado esquecido. Ela sempre se sentira diferente, estranhamente atraída pela melancolia das noites de tempestade, pela força avassaladora do oceano. Havia momentos em que ela sentia uma energia correndo em suas veias, um poder que não sabia como controlar.

"Eu não entendo", ela disse, a voz trêmula.

"Você vai entender, filha. O mar vai te ensinar. Mas esteja preparada. O chamado que você sente pode levá-la a lugares que você nunca imaginou. E nem todos são banhados pela luz." Seu Antenor levantou-se, apoiando-se em sua bengala de madeira. "A noite é jovem, e a maré está apenas começando a subir. A Sombra de Yemanjá está sobre nós, e ela traz consigo tanto a beleza quanto o perigo."

Ele deu um último olhar para Isabela, um olhar cheio de preocupação e de uma resignação antiga. "Tenha cuidado, menina dos olhos d'água. Nem todo encanto que o mar oferece é um presente."

E com isso, Seu Antenor se afastou, desaparecendo na escuridão da praia, deixando Isabela sozinha com o som das ondas e o peso das palavras que ecoavam em sua alma. Ela sabia, naquele momento, que sua vida nunca mais seria a mesma. O chamado do mar era inegável, e a promessa de um destino sombrio e fascinante a envolvia como a névoa que começava a subir da água. A noite de lua nova era o palco, e ela, Isabela, estava prestes a dar o primeiro passo em um caminho de magia e perigo, onde a Sombra de Yemanjá a guiaria, para o bem ou para o mal.

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