A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

por Stella Freitas

A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

Capítulo 11 — O Despertar da Serpente Adormecida

A bruma salgada chicoteava o rosto de Laila, um beijo gelado que a trazia de volta à dura realidade. O som das ondas quebrando contra as pedras era um lamento perpétuo, ecoando a dor que ela sentia no peito. O mar, outrora seu refúgio, agora parecia um espelho sombrio de sua própria alma dilacerada. As palavras de Iara, proferidas na escuridão do templo submerso, ainda ressoavam em sua mente como um mantra cruel: "O sangue de um escolhido para apagar o sangue de outro. Yemanjá exige o equilíbrio, Laila. E o equilíbrio pode ser sangrento."

Ela apertou os punhos, as unhas cravando na pele. A imagem de Rael, seu Rael, banhado em uma luz etérea e, ao mesmo tempo, maculada pelo toque de… quem? De que força ancestral? O corpo dele, outrora tão vibrante e quente contra o seu, agora era um fantasma pálido que a assombrava em cada sombra. Ele era a chave, Iara dissera. A chave para o despertar. Mas a que custo?

O sol começava a despontar no horizonte, pintando o céu com tons de laranja e roxo, uma beleza cruel que contrastava com a escuridão que se instalara em seu coração. Laila se levantou da areia fria, o corpo dolorido, a mente em turbilhão. Ela precisava voltar. Precisava entender. Precisava encontrar uma saída que não envolvesse a morte de quem ela mais amava.

Ao caminhar pela praia deserta, o vento trazia consigo cheiros de algas, sal e… algo mais. Um odor adocicado e putrefato, que ela reconheceu com um arrepio: o cheiro do ritual, o cheiro da magia negra que Iara havia tentado impor. Era um lembrete constante do perigo que pairava sobre eles, sobre Rael, sobre o próprio equilíbrio entre os mundos.

Chegou à pequena vila de pescadores, onde as casas ainda dormiam sob o manto da madrugada. As redes de pesca, penduradas para secar, pareciam as teias de uma aranha gigantesca, aprisionando os sonhos e as esperanças daqueles que viviam à mercê do mar. Laila sabia que não podia se dar ao luxo de descansar. Cada minuto era precioso.

Ao adentrar a cabana de Dona Aurora, o cheiro de ervas e incenso a acolheu como um abraço familiar. A velha curandeira estava sentada à mesa, seus olhos, profundos como o oceano em uma noite sem lua, fixos em um pequeno objeto de barro. Ela levantou o olhar ao ouvir os passos de Laila.

"O mar te trouxe de volta, minha filha", disse Dona Aurora, sua voz rouca, mas gentil. "E o que ele te trouxe?"

Laila sentou-se pesadamente em uma cadeira de madeira, a testa franzida. "Ele me mostrou a verdade, Aurora. Uma verdade terrível." Ela hesitou, as palavras presas na garganta. "Rael… ele foi escolhido. O sangue dele é a chave. Iara quer usá-lo para… para apagar o que foi feito."

Dona Aurora fechou os olhos por um instante, um suspiro escapando de seus lábios. "A serpente adormecida. Eu temi esse dia." Ela abriu os olhos novamente, e neles Laila viu uma tristeza profunda, mas também uma determinação férrea. "Iara busca o poder absoluto, Laila. Ela acredita que pode reescrever a história, que pode reverter os erros do passado. Mas a magia, especialmente a negra, nunca vem sem um preço. E o preço que ela está disposta a pagar é alto demais."

"Mas Rael… eu não posso deixá-la fazer isso com ele, Aurora! Ele é inocente!" As lágrimas começaram a brotar nos olhos de Laila, quentes e salgadas.

"E é por isso que você deve ser forte", respondeu Dona Aurora, pegando a mão de Laila com sua. As mãos da curandeira eram ásperas, mas seu toque era reconfortante. "Você carrega a herança de Yemanjá. Você tem a força das ondas, a sabedoria das profundezas. Você precisa encontrar um caminho que não envolva a destruição."

"Mas qual caminho? Iara é poderosa. Ela manipula forças que eu mal consigo compreender." Laila sentia o desespero começar a tomar conta.

"Nem toda magia negra é invencível. E nem toda força é imune à sabedoria ancestral", disse Dona Aurora, soltando a mão de Laila e se levantando. Ela caminhou até uma pequena prateleira onde repousavam diversos amuletos e potes com pós coloridos. Pegou um pequeno frasco de vidro escuro. "Este é um óleo feito com a seiva de uma planta rara, que só floresce nas noites de lua cheia, nas encostas mais altas da serra. Dizem que ela guarda a energia da própria terra, sua resiliência e sua capacidade de renovação."

Ela entregou o frasco a Laila. "Este óleo pode te ajudar a fortalecer sua mente, a protegê-la das influências sombrias. Mas não é uma cura, minha filha. É um escudo. A verdadeira batalha será travada em seu coração e em sua alma."

Laila segurou o frasco com cuidado, sentindo uma leve vibração emanar dele. "E quanto a Rael? Como posso salvá-lo?"

Dona Aurora olhou para ela com seriedade. "Você precisa entender o que Iara realmente busca. O que a motiva. A ambição cega e a dor podem levar qualquer um a caminhos perigosos. Descobrir a raiz do problema é o primeiro passo para erradicá-lo."

Um flash de memória surgiu na mente de Laila. A visão que ela teve no templo submerso, a imagem de um homem curvado sobre um altar, proferindo palavras em uma língua antiga. Seria ele? O homem que havia desencadeado tudo aquilo?

"Eu vi algo, Aurora. No templo. Um homem. Ele estava… ele estava fazendo algo. Algo que parecia conectar Iara a uma energia antiga, a um poder sombrio."

Os olhos de Dona Aurora se arregalaram levemente. "Um homem? Iara nunca agiu sozinha. Ela sempre teve aliados, aqueles que se beneficiam da desordem. Se você puder identificá-lo, talvez possamos entender a extensão do plano dela."

Laila assentiu, sentindo uma nova onda de determinação. Ela não estava sozinha. Havia Aurora, havia a força que emanava de Yemanjá dentro dela. E havia Rael, que ela precisava salvar.

"Eu preciso voltar ao templo. Preciso tentar lembrar de mais detalhes. Preciso saber quem é esse homem."

Dona Aurora a olhou com preocupação. "É perigoso, Laila. Iara sabe que você escapou. Ela estará te esperando."

"Eu sei. Mas não posso ficar aqui, esperando o pior acontecer. Eu vou encontrar um jeito." Laila apertou o frasco de óleo em sua mão. A promessa de proteção era tênue, mas era um começo. Ela se levantou, o corpo ainda dolorido, mas a mente focada.

Enquanto se preparava para sair, Dona Aurora a chamou de volta. "Laila", disse ela, sua voz firme. "Lembre-se do que te ensinei. A magia de Iara se alimenta do medo e da dúvida. Não deixe que ela te domine. Confie na sua intuição. Confie na sua força."

Laila assentiu com gratidão. Ela sabia que Dona Aurora estava certa. A batalha não seria apenas contra Iara e suas forças sombrias, mas também contra os seus próprios medos e incertezas. Com um último olhar para a curandeira, ela saiu da cabana, o sal do mar beijando seus lábios novamente, um convite perigoso para um mundo que ela precisava desvendar antes que ele a consumisse por completo. A serpente adormecida de Iara estava prestes a acordar, e Laila sentia em seus ossos que ela seria a primeira a sentir suas presas.

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