A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

Capítulo 2 — O Sussurro dos Encantados

por Stella Freitas

Capítulo 2 — O Sussurro dos Encantados

Os dias que se seguiram àquela noite de lua nova foram um turbilhão para Isabela. A tranquilidade habitual da Praia do Forte parecia obscurecida por uma aura de mistério que a cercava. Ela se sentia mais conectada ao mar do que nunca, as ondas parecendo sussurrar segredos diretamente em sua alma. As imagens fragmentadas que a assombravam tornaram-se mais vívidas, mais insistentes: rostos sombrios emergindo das profundezas, olhos que brilhavam com uma luz fria e antinatural, e um canto hipnótico que a atraía para o abismo azul.

Durante o dia, ela tentava manter a normalidade em sua vida. Trabalhava na pequena livraria que herdara de sua avó, um refúgio de histórias e de paz, mas sua mente vagava constantemente para o mar. A cada brisa salgada que entrava pelas janelas, sentia um arrepio percorrer sua espinha. Os clientes a olhavam com uma mistura de curiosidade e compaixão. A tragédia familiar de anos atrás ainda pairava sobre ela, um fantasma que a sociedade insistia em manter vivo. A morte repentina e misteriosa de seus pais, levados por uma tempestade em alto mar, havia deixado cicatrizes profundas.

"Você anda muito pensativa, Isa", comentou Clara, sua amiga de infância e fiel escudeira, enquanto organizavam as prateleiras da livraria. Clara, com seus cabelos ruivos e sardas espalhadas pelo rosto, era a personificação da alegria e da leveza, um contraponto perfeito para a melancolia de Isabela.

Isabela sorriu fracamente. "Só... pensando no mar. Ele parece tão agitado ultimamente."

Clara a olhou com preocupação. "Seu Antenor falou algo com você naquela noite, não foi? Eu o vi na praia conversando com você. Ele tem um jeito de falar que me deixa arrepiada."

"Ele disse que o mar está inquieto. Que algo está vindo", Isabela respondeu, evitando o olhar de Clara. Ela sabia que não poderia compartilhar tudo o que sentia. Aos poucos, percebia que estava sendo levada por um caminho que a maioria consideraria loucura.

"Ah, Seu Antenor e suas profecias!", Clara riu, tentando aliviar a tensão. "Ele vive falando de sereias e de encantados. Mas você, Isa, às vezes eu me pergunto se ele não está falando a verdade com você. Você tem um jeito… diferente."

Isabela não respondeu. Sabia que Clara tinha razão. A diferença que ela sentia em si mesma era cada vez mais difícil de ignorar. Naquela noite, após a conversa com Seu Antenor, ela havia voltado à praia, atraída por uma força irresistível. A maré estava alta, quase invadindo a faixa de areia. E ali, na beira do mar, ela havia visto.

Não era uma visão clara, mas uma sugestão. Um brilho esverdeado emergindo das profundezas, seguido por uma melodia que parecia tocar diretamente em sua alma. Era um canto antigo, lúgubre e sedutor, que falava de um mundo submerso, de um poder adormecido. E junto com o canto, a sensação de presenças. Muitas presenças.

"Você se lembra da lenda da Iara, Isa?", Clara perguntou de repente, como se tivesse lido seus pensamentos. "A mãe das águas que encanta os homens com seu canto?"

Isabela assentiu, um calafrio percorrendo sua espinha. "Lembro. Mas isso é só uma lenda, Clara."

"Será?", Clara murmurou, seus olhos brilhando com uma curiosidade que rivalizava com a de Isabela. "Dizem que alguns desses encantados habitam os recifes, nas noites de maré cheia. Que eles buscam almas fortes, almas que possam se unir a eles."

Aquelas palavras tocaram um nervo exposto em Isabela. Almas fortes. Almas que pudessem se unir a eles. Ela sentia essa busca, essa atração pelas profundezas. Era como se o mar estivesse chamando por ela, convidando-a para um reino secreto onde a magia negra reinava.

Naquela noite, Isabela decidiu que não podia mais fugir. A inquietude do mar era um reflexo de sua própria inquietação interior. Ela precisava entender o que estava acontecendo, de onde vinha essa força que a puxava para o desconhecido. Vestiu um vestido simples de algodão e saiu em direção à praia, o coração batendo com uma mistura de receio e de uma estranha euforia.

A lua, apesar de não estar visível, projetava uma luz pálida sobre a areia, tornando o ambiente etéreo. A maré estava alta, as ondas quebrando com uma força incomum. Isabela caminhou em direção a um pequeno rochedo que se projetava para o mar, um lugar que ela sempre considerara seu santuário particular.

Quando alcançou a beira do rochedo, o ar ficou mais denso, carregado de uma energia palpável. Um cheiro adocicado e estranho pairava no ar, misturando-se ao sal. E então, ela ouviu. O canto. Mais claro, mais intenso do que nunca. Não era humano, não era de pássaro. Era um som que vinha das profundezas, um lamento ancestral que ressoava em seu corpo.

Em sua mente, imagens começaram a se formar, como se fossem projetadas em uma tela escura. Figuras esguias e pálidas, com cabelos longos e escuros que flutuavam na água. Olhos que brilhavam com uma luz prateada, vazios de qualquer emoção. Eram os encantados, as criaturas que habitavam o submundo marinho.

E entre eles, uma figura se destacava. Uma mulher de beleza arrebatadora, com cabelos negros como a noite e olhos profundos como o abismo. Ela usava um colar de pérolas negras e um manto feito de escamas cintilantes. Era Yemanjá, a Rainha do Mar, em toda a sua glória e mistério.

Isabela sentiu-se hipnotizada. O canto, a visão, a energia... tudo a envolvia, a puxando para um estado de transe. Ela se ajoelhou na beira do rochedo, sentindo a água fria lamber seus pés.

"Eu te chamei, filha da terra", uma voz ecoou em sua mente, suave como a correnteza, mas firme como a rocha. Era a voz de Yemanjá.

"Eu... eu senti", Isabela gaguejou, a voz mal saindo.

"Você tem a marca. A marca que a conecta a nós. A marca que a torna uma ponte entre os mundos." A imagem de Yemanjá se aproximou, seu olhar fixo em Isabela. "Você carrega em suas veias o poder que há muito tempo está adormecido. O poder que pode unir a luz e a sombra."

"Luz e sombra?", Isabela repetiu, a mente girando.

"O mundo não é feito apenas de um. Existe um equilíbrio, e esse equilíbrio está sendo ameaçado. Forças sombrias buscam se libertar das profundezas, e a sua força é a chave para contê-las... ou para libertá-las."

Isabela sentiu um medo profundo, mas também uma estranha fascinação. A ideia de ter um poder tão grande a assustava, mas a possibilidade de desvendar os mistérios que a assombravam era irresistível.

"O que você quer de mim?", ela perguntou, a voz agora mais firme, apesar do tremor nas mãos.

"Queremos que você escolha um lado, Isabela. Que você abrace a sua verdadeira natureza. Que você se torne a guardiã do véu que separa os mundos. Mas a escolha é sua. Você pode se juntar a nós, às criaturas da noite e da magia, e reivindicar o poder que lhe pertence. Ou pode tentar resistir, e ser levada pela correnteza."

A imagem de Yemanjá começou a se dissipar, mas a voz permaneceu, ecoando em seus ouvidos. "A Sombra de Yemanjá está sobre você, filha. E ela te chamará. Ouça o seu coração, pois ele guiará seus passos na escuridão."

Isabela ficou ali, ajoelhada na beira do rochedo, sentindo a brisa fria e o cheiro adocicado do mar. As ondas continuavam a quebrar, como se estivessem contando histórias antigas. Ela sabia que não estava sozinha. O chamado era real, e a decisão que ela teria que tomar definiria o seu destino e, talvez, o destino de todos. A magia negra, com sua beleza sedutora e seu perigo iminente, havia lhe estendido a mão, e ela sentia, com um misto de terror e excitação, que estava prestes a aceitar. A Sombra de Yemanjá não era apenas uma presença; era um convite para um mundo de segredos ancestrais e de poderes esquecidos, um mundo onde a linha entre o bem e o mal era tão tênue quanto a espuma das ondas.

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