A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

por Stella Freitas

A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

Por Stella Freitas

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Capítulo 21 — O Chamado do Abismo

O ar na casa de Dona Aurora pesava. Não era o peso da poeira acumulada, nem o cheiro de incenso velho que sempre pairava ali, mas uma opressão que parecia emanar das próprias entranhas da terra. A luz bruxuleante das velas lançava sombras dançantes nas paredes repletas de imagens sacras e amuletos, transformando cada objeto em um espectro ameaçador. Lia, sentada na cadeira de balanço que pertencia à sua avó, sentia o corpo trêmulo. O nó na garganta apertava, um prenúncio sombrio que a consumia desde o momento em que a voz fria e distante de Zé de Obaluá ecoara em sua mente.

“A Sombra de Yemanjá… ela não está adormecida, minha flor. Está faminta.”

Aquelas palavras, um sussurro fantasmagórico que parecia vir de um abismo sem fundo, ecoavam em sua consciência. Zé de Obaluá, o homem que a ensinara os segredos da cura e da proteção, agora se tornara a porta para um perigo que ela mal ousava conceber. Ele, que fora seu guia e protetor, agora a avisava sobre um mal ancestral que se manifestava nas noites de magia negra, um mal que se aninhava na própria essência de Yemanjá, a Rainha do Mar, mas de uma forma distorcida, sombria.

“É como um espelho quebrado, Lia”, Zé continuara, sua voz um lamento distante, como se as palavras tivessem que atravessar um oceano de tormento. “A energia de Yemanjá é força, é vida, é o amor materno que embala o mundo. Mas nas mãos erradas, ou corrompida pela dor e pelo ódio, essa mesma energia pode se tornar um vórtice de destruição. A Sombra de Yemanjá não é uma entidade, é um reflexo do desespero e da escuridão que assola almas perdidas.”

Dona Aurora, a avó de Lia, uma mulher de feições vincadas pelo tempo e pela sabedoria ancestral, sentava-se em silêncio em sua poltrona favorita, os olhos fixos nas chamas das velas. A gravidade em seu semblante era palpável. Ela sentia a mudança no ar, a mesma mudança que Lia sentia, mas em seu caso, era uma lembrança vívida de tempos sombrios, de batalhas que ela pensara ter deixado para trás.

“Zé está certo, minha neta”, disse Dona Aurora, sua voz rouca, mas firme. “A magia negra não é brincadeira. Ela se alimenta da dor, do medo, da desesperança. E quando se volta contra as energias mais puras, como a de Yemanjá, o resultado é algo que nem os mais fortes orixás podem controlar facilmente.”

Lia levantou-se, a inquietação a impulsionando a andar de um lado para o outro. O cheiro de maresia, que normalmente a acalmava, agora lhe trazia um arrepio. Parecia que o próprio oceano, de onde emanava a força de Yemanjá, estava agora impregnado de uma melancolia sinistra.

“Mas como isso é possível, vovó? Yemanjá é o amor… como pode haver uma sombra dela?”, Lia perguntou, a voz embargada. A ideia era contraditória, perturbadora. Yemanjá, a mãe de todos, a protetora dos pescadores, a deusa que acalmava as tempestades e trazia prosperidade. A imagem de sua sombra, faminta e sombria, era um sacrilégio para tudo o que ela aprendera.

“Nada é inteiramente luz, minha filha”, respondeu Dona Aurora, fechando os olhos por um instante. “Nem mesmo os deuses. O sofrimento humano é um veneno poderoso. Quando esse sofrimento é canalizado com intenção maligna, ele pode perverter até as energias mais divinas. A Sombra de Yemanjá nasce das almas que, em sua dor, buscam vingança e poder, mas que se perdem no caminho, arrastando consigo um fragmento da força que tentam manipular. É um eco de desespero, um lamento que se disfarça de poder.”

O desespero de Lia começou a se transformar em uma determinação fria. Ela não podia permitir que essa escuridão se espalhasse. Tinha que proteger sua cidade, sua gente, e, acima de tudo, a memória e a força genuína de Yemanjá.

“Zé disse que o ritual de purificação estava incompleto. Que a magia negra que ele enfrentou era uma tentativa de corromper a energia do mar durante a maré de lua nova. Ele disse que ela está ganhando força.” Lia sentia um tremor no peito, uma mistura de medo e responsabilidade avassaladora.

“A maré de lua nova… é o momento em que a barreira entre os mundos fica mais tênue”, ponderou Dona Aurora, seus olhos se abrindo com um brilho de preocupação. “A energia do mar está em seu ápice, vibrando com a força da mudança. É um momento poderoso para rituais, para o bem ou para o mal.”

“Ele disse que eu era a única que poderia completar o ritual. Que a linhagem de nossa família, ligada ao mar de tantas gerações, é a única que pode contrapor essa sombra.” Lia sentia o peso das palavras de Zé como um fardo físico. Ela, que sempre se sentira tão pequena diante da grandiosidade da natureza, agora era chamada para uma batalha que parecia destinada a seres de poder inimaginável.

“Sua linhagem é forte, Lia. Sua bisavó, a primeira a receber a bênção de Yemanjá em nossa família, era uma mulher de imensa força espiritual. Ela sentia o mar em suas veias. E você, minha flor, herdou essa conexão.” Dona Aurora estendeu a mão enrugada e tocou o rosto de Lia, seus olhos transmitindo uma ternura profunda. “Mas a força não vem apenas da linhagem, vem da alma. Você tem um coração puro, Lia. E isso, na luta contra as trevas, é a arma mais poderosa.”

Lia fechou os olhos, inspirando profundamente. O cheiro de maresia parecia um pouco menos ameaçador agora, mais como um chamado, um pedido de ajuda. Lembrou-se das aulas com Zé, dos ensinamentos sobre as energias, sobre o equilíbrio. A magia negra, ele a ensinara, era uma distorção. E toda distorção podia ser corrigida, se houvesse coragem e conhecimento.

“O que eu preciso fazer, vovó?”, Lia perguntou, sua voz agora firme, sem vestígios do tremor de antes. “Onde eu encontro essa sombra? Como eu posso purificá-la?”

Dona Aurora sorriu, um sorriso melancólico, mas cheio de orgulho. “Você não vai encontrá-la, minha neta. Ela vai se encontrar com você. E a purificação não virá de um ritual em um altar. Virá do seu próprio coração, da sua própria luz. A Sombra de Yemanjá é um reflexo da dor. Para combatê-la, você precisa trazer a luz de volta. E essa luz só pode vir de um lugar de profunda compreensão e compaixão.”

Um arrepio percorreu a espinha de Lia. Com o som das ondas ecoando em sua mente, ela sentiu o chamado. Era um chamado que vinha das profundezas, do abismo onde a sombra se escondia, mas também do próprio mar, que clamava por redenção. Ela se ajoelhou diante de sua avó, o olhar determinado.

“Eu vou fazer isso”, disse Lia. “Eu vou enfrentar a Sombra de Yemanjá. Eu vou trazer a luz de volta.”

Enquanto as palavras saíam de seus lábios, um vento súbito soprou pela casa, apagando algumas das velas e fazendo as sombras dançarem com mais frenesi. No exterior, o som das ondas se intensificou, um rugido que parecia anunciar a chegada de algo inevitável. A maré de lua nova estava chegando, e com ela, a escuridão que Lia precisava confrontar. O abismo a chamava, e ela estava pronta para responder.

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