A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

Capítulo 23 — O Sussurro das Profundezas

por Stella Freitas

Capítulo 23 — O Sussurro das Profundezas

A noite de lua nova se aproximava com uma pressa sinistra. O céu, que antes ostentava uma cobertura de nuvens, agora se apresentava quase limpo, permitindo que a pálida luz lunar banhasse a paisagem com um brilho fantasmagórico. O mar, antes revolto pela fúria da Sombra de Yemanjá, agora parecia calmo, quase sereno, mas essa serenidade era enganosa. Lia sentia, em cada fibra do seu ser, que aquela tranquilidade era apenas o silêncio antes da tempestade, a calmaria que precede o ápice da escuridão.

Ela estava em seu quarto, a luz fraca de um abajur iluminando os mapas náuticos espalhados sobre a mesa e os livros antigos que Dona Aurora guardava como tesouros. A casa, antes um refúgio de paz, agora parecia um observatório de prenúncios sombrios. O cheiro de incenso, geralmente reconfortante, parecia tingido de apreensão.

“A Sombra se manifestou no rochedo da dor”, Lia murmurou para si mesma, traçando com o dedo as linhas de um mapa que indicava as correntes marinhas. “Mas Zé disse que a magia negra que ele combatia era para corromper a energia do mar em si. O rochedo foi apenas um reflexo dessa corrupção.”

Ela se lembrou das palavras de Zé de Obaluá, sua voz carregada de urgência e preocupação. “Lia, a Sombra de Yemanjá não é uma entidade única, mas uma manifestação. Ela nasce do desespero, do ódio, da dor que se volta contra a força vital. E o mar é a fonte dessa vida. A magia negra busca afogar essa fonte, corrompê-la, transformá-la em algo putrefato.”

O medo era uma constante em seu peito, mas a determinação a impelia a agir. Ela havia confrontado uma das faces da Sombra, a da dor do abandono. Mas sabia que a verdadeira ameaça, a que Zé de Obaluá tentava conter, era mais profunda, mais sutil. Era a corrupção da própria energia do mar.

Dona Aurora entrou no quarto, seus passos silenciosos sobre o assoalho de madeira. Ela trazia consigo uma bandeja com um chá fumegante e um olhar de profunda preocupação.

“Você não dormiu, minha filha?”, perguntou Dona Aurora, sua voz suave, mas carregada de preocupação.

Lia ergueu os olhos cansados. “Como posso dormir, vovó? A maré de lua nova está quase no seu ápice. Sinto o mar diferente. Não é a fúria de antes, mas uma quietude que me assusta ainda mais.”

Dona Aurora colocou a bandeja na mesa e sentou-se ao lado de Lia, colocando uma mão reconfortante em seu ombro. “O mar sente a aproximação da escuridão, Lia. Como um animal sente o predador se aproximando. Mas sua coragem, seu espírito, é uma luz que ele também sente.”

“Mas e se não for suficiente, vovó? E se a Sombra for forte demais? Zé disse que a magia negra usada era poderosa, antiga. Que buscava virar a força de Yemanjá contra ela mesma.” Lia sentia a ansiedade aumentar. A ideia de Yemanjá, a mãe de todos, ser corrompida por essa magia era insuportável.

“A força de Yemanjá não é algo que possa ser corrompido, Lia. Ela é como a própria água: pode ser poluída, mas sua essência de pureza sempre retornará. O que a magia negra busca é distorcer essa energia, usá-la para seus fins sombrios. Ela se alimenta da desesperança, da raiva. E quando a raiva se volta contra a própria fonte de vida, a criação se torna destruição.”

Lia pegou a xícara de chá, o calor reconfortante se espalhando por suas mãos. “Zé disse que o ritual dele foi interrompido. Que a Sombra estava emergindo para consumir a energia vital do mar. Ele me falou sobre um lugar… um vórtice de energias profundas, onde o véu entre os mundos é mais fino.”

“O Fundo das Almas Perdidas”, Dona Aurora sussurrou, seus olhos se arregalando ligeiramente. “Um lugar de poder ancestral, onde as energias primordiais se encontram. É ali que a magia negra busca se enraizar, para distorcer a força de Yemanjá.”

“É para lá que eu preciso ir, vovó?”, Lia perguntou, o coração batendo forte no peito. “Para lá que eu preciso levar a luz?”

Dona Aurora assentiu lentamente. “É um lugar de grande perigo, Lia. Um lugar onde a escuridão se manifesta em sua forma mais pura. Mas é também o lugar onde a luz de Yemanjá é mais necessária.” Ela olhou para a neta, seus olhos transmitindo uma mistura de amor, orgulho e medo. “Você herdou a força de nossa linhagem, Lia. Sua bisavó sentia o mar como se fosse parte de si mesma. Ela lutou contra muitas sombras em sua vida. E você tem a mesma força em seu coração.”

Lia fechou os olhos, imaginando o Fundo das Almas Perdidas. Não era um lugar físico, mas um ponto de convergência de energias, um vórtice no coração do oceano onde as marés mais fortes se encontravam e onde a linha entre a vida e a morte se tornava tênue. Era ali que a Sombra de Yemanjá tentava se manifestar em sua forma mais destrutiva.

“Como eu chego lá? E como eu luto contra algo que não posso ver, que não posso tocar?”, Lia perguntou, a voz embargada pela emoção.

“Você não luta contra a Sombra com espadas ou feitiços, Lia”, respondeu Dona Aurora. “Você luta com a luz. A Sombra de Yemanjá é a distorção da compaixão, do amor materno. Para combatê-la, você precisa trazer de volta a verdadeira essência de Yemanjá. Você precisa ser um canal da sua força, da sua pureza.”

Ela pegou um pequeno amuleto de concha do mar, incrustado com pequenas pérolas. “Este amuleto foi de sua bisavó. Ele carrega a bênção de Yemanjá. Use-o. Ele te guiará, te protegerá.”

Lia pegou o amuleto, sentindo uma energia cálida emanar dele. Era reconfortante, mas também um lembrete da responsabilidade que carregava.

“Zé disse que a magia negra visava criar um portal. Um portal que traria a Sombra para este plano de forma permanente. Ele sentiu que a energia dele estava enfraquecendo antes de ser silenciado”, Lia relembrou, a voz tensa. “Ele queria que eu o concluísse. Que eu purificasse a energia antes que ela fosse completamente corrompida.”

“A maré de lua nova é o momento em que a barreira entre os mundos está mais frágil. Se a magia negra conseguir abrir um portal nesse momento, a Sombra pode se tornar uma presença constante, um câncer no coração do mar”, Dona Aurora explicou, seus olhos fixos em um ponto distante. “Você precisa impedir isso, Lia. Você precisa selar o portal e purificar a energia corrompida.”

Lia sentiu um arrepio percorrer seu corpo. A ideia de ter que selar um portal dimensional e purificar a energia de um orixá era assustadora. Mas ela também sentiu uma onda de determinação. Ela não podia deixar que a escuridão vencesse.

“Eu irei”, Lia declarou, sua voz firme e ressonante. “Eu irei ao Fundo das Almas Perdidas e farei o que for preciso para proteger o mar e a força de Yemanjá.”

Ela se levantou, o amuleto de concha apertado em sua mão. Olhou para sua avó, um sorriso fraco em seus lábios. “Obrigada, vovó. Por acreditar em mim.”

Dona Aurora sorriu de volta, um sorriso tingido de melancolia, mas cheio de amor. “Eu sempre acreditei em você, minha neta. Sua força vem do amor que você carrega em seu coração. E o amor é a luz mais poderosa que existe.”

Lia se dirigiu à porta, o som do mar lá fora se intensificando. Era um chamado, um convite para a batalha final. Ela sabia que o Fundo das Almas Perdidas seria um lugar de provações terríveis, um teste para sua fé e sua coragem. Mas ela estava pronta. Ela levaria consigo a luz de Yemanjá, a força de sua linhagem, e a determinação de quem luta para proteger aquilo que ama. O sussurro das profundezas a chamava, e ela estava pronta para responder, para confrontar a Sombra e trazer de volta a pureza do mar.

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