A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra
A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra
por Stella Freitas
A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra
Autor: Stella Freitas
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Capítulo 6 — O Despertar da Maré Vermelha
A bruma salgada beijava o rosto de Marina, trazendo consigo o cheiro acre das algas em decomposição e um prenúncio gelado que lhe arrepiava a espinha. O farol, um olho solitário na escuridão crescente, lançava um feixe intermitente sobre as ondas revoltas. Na pequena praia deserta, onde o céu se fundia em um borrão cinzento com o mar, a lua cheia, pálida e doente, tentava penetrar a cortina de nuvens. Marina sentia o peso daquela noite em seus ombros, um peso ancestral que ecoava em seu sangue.
"Você veio", a voz de Zélia soou, um murmúrio rouco que parecia emergir das próprias entranhas da terra. A velha curandeira estava sentada em uma rocha lisa, envolta em um manto escuro que a fazia parecer uma sombra esguia contra o cenário sombrio. Seus olhos, pequenos e penetrantes como contas de ônix, fixaram-se em Marina com uma intensidade que desarmava.
Marina engoliu em seco, o coração martelando contra as costelas. O medo, um hóspede indesejado, tentava se aninhar em seu peito, mas uma determinação feroz, atiçada pelas memórias recentes e pela urgência da situação, o mantinha à distância. "Eu disse que viria, Zélia. O que está acontecendo?"
Zélia sorriu, um movimento sutil dos lábios finos que não alcançou seus olhos. "O que precisa acontecer, minha filha. O equilíbrio se rompeu. O véu entre os mundos se afinou. E as sombras que habitavam as profundezas agora buscam a luz. Ou a devoram."
Ela gesticulou em direção ao mar, onde a água parecia mais escura, mais densa, como se o próprio abismo estivesse se erguendo. "O chamado foi ouvido. As entidades que você despertou com sua busca por respostas, com sua ânsia por verdade, agora cobram o preço. A magia negra não é um jogo, Marina. É um juramento selado com o sangue e a alma."
Marina sentiu um calafrio percorrer seu corpo. As noites de feitiços em seu quarto, as pesquisas febris em livros empoeirados, a invocação hesitante de nomes esquecidos – tudo aquilo parecia tão distante e, ao mesmo tempo, tão palpável agora. Havia buscado conhecimento, sim, para entender a tragédia que assombrava sua família, para desvendar o mistério por trás da morte de seus pais. Mas nunca imaginou que estaria abrindo portas para algo tão… sombrio.
"Que preço?", a voz de Marina saiu embargada. Ela se aproximou de Zélia, sentindo a energia densa que emanava da velha mulher, uma mistura de sabedoria milenar e um poder cru, perigoso.
"O preço da liberdade, Marina. O preço da sanidade. E, para alguns, o preço da própria existência. As entidades que serviram ao lado sombrio do mar não são criaturas de compaixão. Elas anseiam por controle, por dominação. E você, com seu sangue e sua força, se tornou um elo para elas. Um canal."
Uma onda mais forte quebrou na praia, espirrando água fria nos pés descalços de Marina. Ela olhou para o mar, para as ondas que pareciam se contorcer como serpentes marinhas na penumbra. Via vultos, formas escuras que dançavam sob a superfície, e um burburinho baixo, um coro de vozes distantes que parecia cantar uma melodia macabra.
"E por que elas me escolheram? Por que estão vindo agora?", perguntou, a voz um sussurro rouco.
Zélia ergueu uma mão enrugada, apontando para o horizonte. "O véu da proteção que Yemanjá teceu em torno desta terra está enfraquecendo. A corrupção se espalha. E as marés estão mudando. Aqueles que habitam as profundezas, que se alimentam da escuridão e do desespero, sentiram a fragilidade. E viram em você um meio de ascensão."
Ela fez uma pausa, seus olhos fixos em Marina com uma seriedade que a fez sentir um nó na garganta. "Lembre-se do que eu te disse, Marina. A magia não escolhe seus praticantes. Seus praticantes escolhem a magia. E você, na sua busca por respostas, na sua dor, abriu a porta para elas. Agora, elas clamam por sua atenção. Elas clamam por sua alma."
Marina sentiu um tremor que não vinha do frio. A sensação de estar sendo observada, não apenas por Zélia, mas por algo maior, algo mais antigo e sinistro, a envolvia. Ela fechou os olhos por um instante, visualizando o santuário de Yemanjá, a imagem da deusa serena em meio à fúria do mar. A proteção, a luz… onde tudo isso havia se perdido?
"Mas… Yemanjá… Ela não me protegerá?", perguntou, a esperança vacilando em sua voz.
Zélia deu uma risada seca. "Yemanjá protege aqueles que honram a vida, a bondade, a harmonia. A magia negra que você tocou, Marina, é o oposto de tudo isso. É a sombra que se alimenta da luz. Você precisa se lembrar de onde veio, do poder que corre em suas veias. O poder que Yemanjá te concedeu."
Ela levantou-se lentamente, sua figura ganhando uma estatura imponente na escuridão. "A maré vermelha está chegando, minha filha. Ela não trará apenas sangue. Trará o esquecimento, a ruína. E você terá que escolher. Ou se entrega à escuridão, ou encontra a força para lutar contra ela. Para proteger o que resta."
Marina olhou para as mãos, as mesmas mãos que haviam desenhado os símbolos, que haviam segurado os amuletos. Sentiu um formigamento, um calor que parecia subir de seus dedos. A pele de suas mãos parecia brilhar fracamente na escuridão, um reflexo pálido da lua.
"O que eu preciso fazer, Zélia?", perguntou, a voz agora firme, tingida de uma coragem que ela não sabia possuir.
"Você precisa entender", respondeu Zélia, seus olhos brilhando com uma luz estranha. "Você precisa entender a natureza das forças que você invocou. E precisa aprender a controlá-las. Ou será consumida. A magia negra tem um preço. Mas a magia de Yemanjá, a magia da vida, essa tem um poder ainda maior. Cabe a você decidir qual caminho trilhar."
A brisa aumentou, trazendo consigo um coro de vozes ainda mais distinto, um lamento que parecia vir das profundezas do oceano. Marina sentiu uma energia fria e estranha envolver seu corpo, como tentáculos invisíveis que tentavam puxá-la para as águas escuras.
"O pacto…", murmurou Marina, lembrando-se das palavras sussurradas nas noites de feitiço. "Eu fiz um pacto."
"Um pacto com as sombras, sim", confirmou Zélia. "Mas a força de Yemanjá corre em seu sangue. Você é uma filha do mar. E o mar, em toda a sua fúria e em toda a sua serenidade, é seu. Você precisa despertar esse poder. Precisa usá-lo. A maré vermelha está chegando, Marina. E ela não espera por ninguém."
O som das ondas se intensificou, o rugido do oceano uma sinfonia de presságio. Marina sentiu um puxão forte, como se o próprio mar estivesse chamando por ela. Olhou para Zélia, que assentiu com a cabeça, um gesto de aprovação e advertência. A noite estava apenas começando, e a verdadeira batalha, a batalha pela alma de Marina e pela alma daquela terra, estava prestes a se desenrolar. A sombra de Yemanjá, que antes fora um consolo, agora se misturava com as trevas que emergiam das profundezas, e Marina estava bem no centro desse turbilhão. A maré vermelha não era apenas um prenúncio; era uma declaração de guerra.