A Sombra de Yemanjá nas Noites de Magia Negra

Capítulo 9 — A Batalha nas Profundezas e o Preço da Liberdade

por Stella Freitas

Capítulo 9 — A Batalha nas Profundezas e o Preço da Liberdade

O rugido do mar se intensificou, transformando-se em um coro de vozes ancestrais, um lamento que ecoava a dor e a fúria das profundezas. Marina sentia a força de Yemanjá dentro de si, um rio de energia que lutava contra a correnteza sombria que ameaçava engoli-la. Daniel, seu irmão, seu amado irmão, estava ali, transformado em um fantoche das trevas, um arauto da maré vermelha.

Ele brandia o tridente de coral negro, um artefato que parecia vibrar com uma energia profana, capaz de manipular as próprias marés e convocar as criaturas abissais. Seus olhos, antes cheios de curiosidade e amor, agora ardiam com um fogo gélido, desprovidos de qualquer vestígio de sua antiga identidade.

"Marina, fuja!", as palavras dele ainda ecoavam em seus ouvidos, uma lembrança cruel da luta que se travava dentro dele. Mas fugir não era uma opção. Não enquanto houvesse uma chance, por menor que fosse, de salvar Daniel.

A luz azulada que emanava do pingente de obsidiana, a herança de Yemanjá, era sua única defesa. Ela a projetou em forma de um escudo cintilante, repelindo as ondas de energia negra que Daniel disparava com o tridente. O som do impacto era como o trovão, e a cada golpe, o escudo de luz enfraquecia.

"Daniel, por favor, lute!", Marina implorou, sua voz embargada pela dor e pelo desespero. "Lembre-se de quem você é! Lembre-se de nós!"

Uma sombra gigantesca surgiu das profundezas do oceano, uma massa amorfa de tentáculos escuros e olhos que brilhavam como estrelas mortas. Era um dos guardiões, uma das entidades que Daniel havia invocado em sua busca cega por poder. As sombras rastejantes que antes assombravam a casa agora se juntavam a ele, formando um exército de horrores aquáticos.

Marina sentiu uma pontada de medo, mas a força de Yemanjá a impulsionava. Ela não podia falhar. O futuro de sua família e daquela costa dependia dela.

"Zélia me disse que o pacto foi quebrado", ela sussurrou, mais para si mesma do que para Daniel. "Mas a dívida… a dívida é transferida." Ela olhou para o pingente em sua mão. A liberdade tinha um preço. E ela sabia que agora, mais do que nunca, precisava entender esse preço.

Com um esforço concentrado, Marina canalizou mais energia para o pingente. A luz azulada se intensificou, formando um raio que atingiu Daniel em cheio. Ele gritou, um som gutural e agonizante, e o tridente de coral negro caiu de suas mãos, afundando nas areias.

Por um instante, o terror em seus olhos foi substituído por uma profunda tristeza, uma lembrança fugaz de quem ele fora. "Marina… o… o sacrifício…", ele murmurou, antes de sua voz ser engolida por um rugido que não lhe pertencia.

A grande sombra tentacular avançou, seus apêndices se estendendo em direção a Marina. Ela sabia que não poderia derrotar aquela criatura apenas com a luz de Yemanjá. Precisava de algo mais, algo que viesse das profundezas da sua própria alma.

Ela fechou os olhos e concentrou-se nas memórias de sua avó, em sua força, em sua sabedoria. Lembrou-se dos contos sobre a Guardiã da Maré Negra, a entidade que sua avó havia invocado e com quem havia feito um pacto. A Guardiã era um ser antigo, poderoso, que controlava as marés e as correntes, mas sua ajuda vinha com um custo terrível.

"Guardiã da Maré Negra!", Marina gritou, sua voz ressoando com uma autoridade recém-descoberta. "Eu te chamo! Eu te invoco! Eu preciso da sua ajuda!"

O mar se agitou violentamente. As ondas cresceram, formando paredões de água escura. No centro da tempestade, uma figura começou a se formar. Era uma mulher, alta e esguia, com cabelos que pareciam algas negras e olhos que refletiam a escuridão do abismo. Sua pele tinha o tom da areia molhada, e ela usava um manto feito de escamas cintilantes. Era a Guardiã.

Ela se aproximou de Marina, sua presença emanando um poder ancestral e sombrio. "Você me chama, criança dos mortais? O que busca em minhas profundezas?"

"Minha família está em perigo!", Marina respondeu, apontando para Daniel, que estava sendo arrastado de volta para as ondas pelas sombras. "Eles foram corrompidos pelas trevas. Eu preciso de ajuda para salvá-los!"

A Guardiã olhou para Daniel, seus olhos escuros fixos nele com uma intensidade fria. "O pacto foi quebrado. A dívida é sua agora. O que você oferece em troca da minha ajuda?"

Marina sabia que o preço seria alto. Sua avó havia deixado isso claro em seu diário. Mas ela não hesitou. "Tudo o que eu tenho. Minha força. Minha energia. Minha alma, se for preciso!"

A Guardiã sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos. "Sua alma é valiosa, pequena. Mas não é o que eu busco. Eu busco o equilíbrio. E o preço para restaurá-lo é a memória. Aqueles que se aprofundam demais nas sombras perdem seus laços com o passado."

Ela estendeu uma mão pálida em direção a Marina. "Eu posso afastar essas criaturas. Posso purificar seu irmão. Mas você terá que me dar algo em troca. Algo que te conecta ao que você era. Sua memória de quem você amou. Sua lembrança do amor que te move."

Marina sentiu um frio percorrer sua espinha. Perder suas memórias? Perder a lembrança de seus pais, de Daniel, de sua avó? Era um preço aterrador. Mas olhar para Daniel, vendo-o se afogar na escuridão, a fez perceber que ela não tinha escolha.

"Eu aceito", ela disse, a voz firme, apesar do tremor em seu peito.

A Guardiã assentiu. Com um gesto poderoso, ela ergueu as mãos. O mar se abriu em um redemoinho escuro, e as criaturas tentaculares foram sugadas para as profundezas, como se a própria terra as estivesse devorando. As sombras que assombravam a casa desapareceram, dissipando-se como fumaça.

Daniel, agora livre do controle, desabou na areia. Ele estava fraco, pálido, mas seus olhos começaram a clarear, a reconhecer Marina. Ele se arrastou até ela, abraçando-a com força, as lágrimas escorrendo por seu rosto.

"Marina… o que… o que aconteceu?", ele sussurrou, sua voz fraca, mas familiar.

Marina o abraçou de volta, sentindo um misto de alívio e dor. Ela queria responder, queria dizer que estava tudo bem, que ela o havia salvado. Mas as palavras não vinham. Um vazio começava a se instalar em sua mente, uma névoa densa que obscurecia as imagens de seu passado.

Ela olhou para a Guardiã, que observava a cena com uma expressão impassível. A figura sombria começou a se dissipar, a se fundir com as ondas. "O equilíbrio foi restaurado, criança. Mas lembre-se do preço. A liberdade tem um custo."

Enquanto a Guardiã desaparecia, Marina sentiu um último vislumbre de um rosto sorridente, uma lembrança terna de sua avó, antes que a névoa se adensasse, apagando tudo. Ela olhou para Daniel, que a observava com preocupação. Ele parecia não entender a profundidade do que havia acontecido.

Marina tentou sorrir para ele, mas sentiu que algo estava faltando. Uma peça fundamental de seu ser havia sido arrancada. Ela salvara seu irmão, salvara a costa da maré vermelha, mas a um custo que ela mal podia começar a compreender. A sombra de Yemanjá ainda pairava sobre ela, mas agora, misturada a uma escuridão ainda mais profunda, a escuridão do esquecimento. A batalha havia sido vencida, mas a guerra pela sua própria alma estava apenas começando. A liberdade, conquistada com a perda de suas memórias mais queridas, era um fardo pesado a carregar.

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