Deu Match no Arraiá

Deu Match no Arraiá

por Letícia Moreira

Deu Match no Arraiá

Autor: Letícia Moreira

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Capítulo 1 — O Voo da Pipa Quebrou o Coração

O sol de julho beijava as terras de Serro Azul com um calor que prometia uma festa junina inesquecível. As bandeirinhas coloridas já tremulavam timidamente entre as casas de taipa, pintando o céu de alegria antecipada. Naquele ano, a tradicional Festa do Milho prometia ser a maior de todas, e os preparativos fervilhavam na pequena cidade onde o tempo parecia ter parado, permitindo que as tradições se perpetuassem com a força de um rio caudaloso.

Clara, com seus trinta anos e um coração que teimava em pulsar em ritmo de forró, sentia a ansiedade tomar conta. Não era apenas pela festa em si, pela quadrilha animada, pelas barracas de quentão e canjica. Era pela esperança, uma pequena chama que, a cada ano, se reacendia com a possibilidade de encontrar ele. Sim, ele. O homem dos seus sonhos, que ela ainda não conhecia, mas que sentia sua alma ansiar por encontrar, talvez sob o brilho das fogueiras, talvez escondido em algum verso de cantiga sertaneja. Era um anseio romântico, quase místico, que a movia.

Ela era a organizadora oficial do arraiá, um título que carregava com orgulho e um quê de desespero. Sua vida girava em torno de eventos comunitários, de planejar a melhor festa junina que Serro Azul já vira. Seus dias eram preenchidos com orçamentos, contratação de músicos, negociação com fornecedores de paçoca e doce de abóbora. Seus pais, Dona Lurdes e Seu Agenor, o casal mais querido da cidade, a ajudavam com o que podiam, mas a maior parte da carga recaía sobre seus ombros. E, honestamente, Clara adorava cada minuto. Era a sua forma de manter Serro Azul viva, vibrante, um lugar onde as pessoas ainda se olhavam nos olhos e sorriam, onde o afeto não era medido em cliques e curtidas.

Naquela tarde, porém, a animação de Clara foi ligeiramente ofuscada. Ela estava no campo, ajeitando as últimas cordas de uma pipa gigante, uma atração especial para as crianças. A pipa, um projeto ambicioso que ela desenvolvera com o marceneiro da cidade, era um símbolo da leveza que ela desejava para a festa. Tinha as cores do arco-íris e uma cauda longa e esvoaçante. Enquanto ela lutava com o nó que teimava em se soltar, um riso alto e masculino ecoou atrás dela.

"Parece que alguém está tendo dificuldades com os céus, Dona Clara?"

Clara se virou, o coração dando um pulo inesperado. Era o Lucas. O fotógrafo da cidade, recém-chegado de São Paulo há uns seis meses, com aquele jeito descolado e um sorriso que desarmava qualquer um. Lucas era um mistério para Serro Azul. Veio para, segundo ele, "fugir do asfalto e buscar a alma das coisas". E, para o desespero de muitas moças solteiras da cidade, ele estava conseguindo. Clara, porém, o via com outros olhos. Havia algo em seu olhar, uma profundidade que a intrigava.

Ela sorriu, um sorriso um pouco sem jeito. "Lucas! Que susto! E não é que a danada da pipa está mais teimosa que jegue empacado?"

Lucas se aproximou, seus olhos azuis examinando a pipa com um interesse genuíno. Ele tinha uma câmera pendurada no pescoço, um acessório que parecia fazer parte dele. "Deixa eu ver se a arte de fotografar céus em movimento ajuda na arte de empinar céus em movimento."

Ele se ajoelhou ao lado dela, seus ombros se tocando levemente. Clara sentiu um arrepio. Lucas tinha um perfume amadeirado, suave, que a deixava… desorientada. Ele desfez o nó com uma habilidade surpreendente, refazendo-o de forma mais firme.

"Pronto. Agora, se o vento permitir, ela vai dançar no céu como um beija-flor." Ele olhou para ela, o sorriso aumentando. "E você, Dona Clara? Vai dançar na quadrilha?"

A pergunta, tão simples, a atingiu em cheio. Clara era a rainha da organização, mas a rainha da quadrilha… não. Ela sempre ficava na plateia, sorrindo, aplaudindo, admirando os casais que, com passos desajeitados e corações batendo forte, compunham a coreografia da festa.

"Eu… eu prefiro garantir que tudo corra bem. Alguém tem que ficar de olho no vulcão de algodão doce, né?" Ela riu, tentando disfarçar a pontada de melancolia.

Lucas a encarou, seus olhos fixos nos dela. "Mas a senhora não acha que a vida é feita de mais do que só garantir que os algodões doces não derretam? Acho que a senhora deveria se permitir um pouco de dança, um pouco de vento no rosto, sem ter que se preocupar com a organização."

A sinceridade em sua voz a pegou desprevenida. Ele a via? Via além da organizadora, da filha dedicada, da mulher que se escondia atrás das luzes de fada e das fitas coloridas?

"É… é que…" Clara gaguejou, procurando as palavras certas. "Às vezes, a gente se acostuma tanto a cuidar de tudo, que esquece de se cuidar."

Lucas se levantou, estendendo a mão para ela. "Venha, Dona Clara. Vamos dar um teste nessa pipa. E quem sabe, enquanto ela voa, a senhora não pensa em dar um passo para fora da plateia neste arraiá."

Ela hesitou por um segundo, o coração batendo em descompasso. Aceitar a mão dele, sentir o calor de sua pele, era como ceder a um convite secreto. Ela aceitou.

Juntos, eles correram pelo campo, a pipa ganhando altura, o vento a empurrando para o alto. Clara sentiu a alegria genuína brotar em seu peito. Era um alívio, uma leveza que há tempos não sentia. E, ao lado de Lucas, o ar parecia mais fresco, o sol mais brilhante.

No entanto, quando a pipa já estava um pontinho colorido no céu, um riso familiar e um tanto quanto estridente ecoou pelo campo. Era o Rodrigo, o namorado oficial de Clara. Pelo menos, o namorado que todos esperavam que ela tivesse. Rodrigo era filho do prefeito, um rapaz bonito, de boa família, mas com uma alma tão rasa quanto uma poça d'água.

Ele se aproximou, um sorriso forçado no rosto. "Clara, meu amor! Que bom que te encontrei! Estava te procurando para irmos pegar um pastel. E quem é esse aí, seu novo amigo?" O tom era de posse, um sutil aviso para Lucas.

Clara sentiu o encanto daquele momento se dissipar como fumaça. "Rodrigo, este é o Lucas, o fotógrafo novo. E este é o meu amigo, Rodrigo." Ela acrescentou um "amigo" que soou mais como uma desculpa.

Lucas se levantou, um leve sorriso nos lábios, mas o olhar firme. "Prazer, Rodrigo. Sou Lucas. Só estava ajudando a Clara a testar a pipa."

Rodrigo deu um tapinha nas costas de Lucas, um gesto que beirava a agressão. "Ah, entendi. Sempre bom ver o pessoal da cidade se ajudando. Mas agora, meu amor, vamos? Aquele pastel de queijo com goiabada não vai se comer sozinho." Ele puxou Clara delicadamente pelo braço.

Clara lançou um olhar de desculpas para Lucas, que devolveu com um aceno de cabeça. Ela sabia que precisava ir. Rodrigo não gostava de ser contrariado, especialmente na frente de outras pessoas.

Enquanto se afastava, puxada pelo braço de Rodrigo, Clara sentiu um aperto no peito. O voo daquela pipa, que prometia ser um momento de liberdade e alegria, parecia ter quebrado algo dentro dela. A expectativa de um encontro romântico, mesmo que imaginário, foi brutalmente interrompida pela realidade previsível de Rodrigo. E, por um instante fugaz, ela se perguntou se Lucas, com seu olhar profundo e sua alma de artista, seria capaz de ver além do seu papel de organizadora, além das amarras de uma vida que ela, às vezes, sentia sufocar. O arraiá estava chegando, e com ele, a promessa de romance, mas Clara sentia que a sua pipa da esperança havia acabado de encontrar um vento forte demais.

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