Deu Match no Arraiá
Capítulo 13 — Os Fantasmas do Passado e a Aliança Improvável
por Letícia Moreira
Capítulo 13 — Os Fantasmas do Passado e a Aliança Improvável
A revelação sobre a dívida de Léo e o casamento arranjado com Helena pairava sobre Vila das Flores como uma nuvem escura. Para Clara, o choque inicial de se sentir traída deu lugar a uma profunda tristeza e a uma necessidade urgente de compreender os detalhes daquele passado sombrio que agora invadia seu presente. A promessa de Léo de que a amava e de que tudo aquilo era por segurança soava verdadeira, mas a falta de informações concretas e a urgência do casamento alimentavam uma desconfiança que ela não conseguia reprimir.
Decidida a não ser uma mera espectadora de seu próprio destino, Clara começou a agir. Durante o dia, mantinha as aparências, sorrindo para os vizinhos, ajudando a mãe na venda, participando das atividades da igreja com a habitual dedicação. À noite, porém, sua mente fervilhava. Ela revisitava cada conversa que tivera com Léo sobre seu passado, tentando encontrar pistas que antes passavam despercebidas. Lembrou-se de Léo mencionando que sua juventude foi marcada por alguns "erros" e pela necessidade de "se virar sozinho" após a morte precoce de seu pai. Seriam esses "erros" a raiz da dívida que agora o aprisionava?
Uma tarde, enquanto folheava velhos álbuns de fotos na casa de sua mãe, Clara encontrou uma foto antiga de Léo, ainda adolescente, ao lado de um homem de semblante duro e olhar penetrante. Ela não reconhecia o homem, mas a aura de perigo que emanava da imagem a fez estremecer. Ela não se lembrava de Léo ter mencionado um homem como aquele.
"Mãe", Clara chamou, mostrando a foto. "Você sabe quem é esse homem com o Léo?"
Dona Aurora pegou a foto, observando-a com atenção. Uma ruga de preocupação se formou em sua testa. "Esse homem… eu o vi algumas vezes na vila há muitos anos. Diziam que ele era um homem de negócios… de negócios não muito limpos. Ninguém gostava de se aproximar dele. Léo era muito jovem naquela época. Talvez ele tenha se envolvido com ele sem saber as consequências."
As palavras de sua mãe confirmaram as suspeitas de Clara. Léo havia se envolvido com pessoas perigosas. Mas a quem ele devia? E como Helena se encaixava nessa história? A pergunta sobre o pai de Helena, que teria feito o acordo com Léo, ainda permanecia sem resposta clara.
Em sua busca por respostas, Clara sabia que precisava falar com alguém que pudesse ter mais informações. A pessoa mais provável seria o próprio Sr. Anselmo, pai de Léo. Apesar da promessa de confidencialidade, Clara sentiu que a necessidade de verdade superava a convenção.
Na manhã seguinte, Clara decidiu ir até a casa dos pais de Léo. Ela sentiu um misto de apreensão e determinação. Chegou à residência com o coração batendo forte, e foi recebida, mais uma vez, pela empregada, que a conduziu à sala onde Sr. Anselmo costumava receber visitas.
Sr. Anselmo estava lá, sozinho, com o olhar perdido em um ponto qualquer da sala. Parecia mais cansado do que nunca. Ao ver Clara, um lampejo de surpresa cruzou seus olhos, seguido de uma expressão de resignação.
"Clara", ele disse, a voz rouca. "Eu imaginei que você viria."
Clara sentou-se em uma cadeira próxima, respirando fundo. "Sr. Anselmo, eu preciso entender. Eu amo o Léo, e saber que ele está passando por isso me machuca profundamente. Mas eu preciso saber a verdade. Quem é esse homem a quem ele deve? E por que o casamento com Helena é a única solução?"
Sr. Anselmo suspirou, o som carregado de um peso antigo. Ele hesitou por um momento, olhando para Clara com uma profundidade que a fez sentir como se ele pudesse ler sua alma.
"O homem a quem Léo deve é um homem chamado Ramiro da Silva", começou Sr. Anselmo, a voz baixa e controlada. "Ele é conhecido em alguns círculos como 'O Cobrador'. Anos atrás, Léo, em sua juventude impulsiva, se envolveu em um negócio que deu terrivelmente errado. Ele acabou devendo uma quantia considerável a Ramiro. Uma dívida que, se não paga, trazia consequências… severas."
Clara sentiu um arrepio de medo. "E a dívida não foi paga?"
"Não da maneira que Ramiro queria", explicou Sr. Anselmo. "Eu tentei intervir, mas Ramiro é um homem implacável. Ele não aceita dinheiro. Ele exige lealdade, favores. E ele viu em Léo uma oportunidade."
"E o pai de Helena?", Clara insistiu. "Como ele se encaixa nisso?"
"O pai de Helena, um homem chamado Dr. Valdemar", continuou Sr. Anselmo, com um tom de relutância, "também tinha seus próprios problemas com Ramiro. Valdemar, em troca de um favor que Ramiro lhe fez no passado, prometeu entregar sua filha, Helena, em casamento a Léo. Ele viu em Léo uma oportunidade de saldar sua dívida com Ramiro e, ao mesmo tempo, garantir um bom casamento para sua filha. Ramiro, por sua vez, viu nisso uma forma de ter Léo sob seu controle, ligado a ele através de um casamento com a filha de um de seus outros 'devedores'."
Clara ficou chocada. Era uma teia intrincada de dívidas, favores e manipulação. Léo estava sendo usado como peça em um jogo muito maior.
"Então… Helena não sabia de tudo isso quando Léo a pediu em casamento?", Clara perguntou, buscando entender o papel da noiva.
"Helena sabia que seu pai tinha um acordo com o pai de Léo", respondeu Sr. Anselmo. "Ela sabia que seu casamento com Léo era arranjado. Mas ela não sabia da extensão do perigo que Léo corria, nem do papel de Ramiro nisso tudo. Ela só sabia que, se o casamento não acontecesse, seu pai sofreria as consequências."
Clara sentiu uma onda de compaixão por Helena. Ela também era uma vítima, presa em um acordo que a cercava de incertezas e obrigações.
"E o que Ramiro quer de Léo agora?", Clara perguntou, a voz tensa.
Sr. Anselmo olhou para a janela, o semblante sombrio. "Ramiro quer Léo sob sua influência total. Ele vê o casamento como o selo definitivo. Uma vez casado, Léo estaria, aos olhos de Ramiro, completamente em suas mãos. Ele tem planos para Léo, planos que envolvem… negócios escusos. Léo sempre resistiu a isso, mas agora, com o casamento, Ramiro acredita que terá total controle."
A verdade era mais terrível do que Clara imaginara. Léo não estava apenas se casando para escapar de uma dívida, mas para evitar se tornar um peão em um jogo criminoso. O desejo de proteger Clara e sua família era genuíno, mas o preço a ser pago era altíssimo.
"Eu preciso fazer algo", Clara disse, a determinação crescendo em seus olhos. "Eu não posso deixar Léo se tornar um fantoche de Ramiro. Deve haver outra maneira."
Sr. Anselmo olhou para Clara, um lampejo de esperança em seus olhos cansados. "Eu também espero que sim, Clara. Eu tenho tentado, mas Ramiro é um homem muito poderoso e influente. Ele tem contatos em lugares que nós nem sequer imaginamos."
Naquele momento, Clara teve uma ideia. Uma ideia audaciosa, talvez perigosa, mas que poderia ser a única chance de quebrar aquela teia. Ela precisava de ajuda. E a única pessoa que poderia ter um conhecimento mais profundo sobre Ramiro e seus negócios, além do próprio Dr. Valdemar, pai de Helena, era a própria Helena.
"Sr. Anselmo", Clara disse, a voz firme. "Eu preciso falar com Helena. Sozinha. Eu acho que ela pode ser a chave para encontrarmos uma solução."
Sr. Anselmo hesitou, olhando para Clara como se avaliasse sua determinação. "Você tem certeza, Clara? Helena é uma moça reservada. E ela está passando por um momento difícil."
"Eu sei", Clara respondeu. "Mas eu sinto que ela não é má. Ela também está presa nisso. Talvez, juntas, possamos encontrar uma saída. Uma saída que não envolva esse casamento forçado."
Sr. Anselmo assentiu lentamente. "Tudo bem, Clara. Eu vou tentar arranjar um encontro. Mas seja cuidadosa. Ramiro tem olhos e ouvidos em todos os lugares."
Naquela tarde, Clara foi informada que Helena estaria no coreto da praça, sozinha, sob o pretexto de tomar um pouco de ar fresco. Com o coração batendo forte, Clara se dirigiu ao local. Helena estava sentada em um banco, olhando para o horizonte, com uma expressão de profunda tristeza.
Clara se aproximou, sentando-se a uma distância respeitosa. "Helena?", ela chamou suavemente.
Helena se virou, surpresa, mas não assustada. Havia um reconhecimento em seus olhos, uma aceitação silenciosa. "Clara", ela disse, a voz baixa.
"Eu sei que você deve estar passando por um momento muito difícil", Clara começou, tentando soar o mais compreensiva possível. "E eu sinto muito por tudo isso. Eu também amo o Léo."
Uma pequena ruga de surpresa surgiu na testa de Helena. "Você… você ama o Léo?"
Clara assentiu. "Muito. E é por isso que eu não posso aceitar que ele seja arrastado para um mundo de negócios escusos por causa de uma dívida que não é dele. Eu sei que você também não quer isso."
Helena suspirou, olhando para as próprias mãos. "Meu pai… ele me colocou nessa situação. Ele me disse que era a única maneira de nos protegermos. Mas eu nunca quis isso. Eu não quero me casar com alguém que não amo, e eu não quero que Léo seja infeliz."
"Eu sei que você não quer", Clara disse, aproximando-se um pouco. "E é por isso que eu vim falar com você. Eu acho que podemos ajudar umas às outras. Eu preciso entender mais sobre Ramiro, sobre os negócios dele. E você, talvez, tenha informações que possam nos ajudar a encontrar uma saída."
Helena olhou para Clara, uma faísca de curiosidade misturada à desconfiança em seus olhos. "O que você sugere?"
"Eu sugiro que trabalhemos juntas", Clara disse, com firmeza. "Se descobrirmos algo que possa neutralizar a ameaça de Ramiro, talvez Léo não precise se casar com você. Talvez possamos encontrar outra solução. Uma solução que seja boa para todos."
Helena ponderou por um momento, o olhar fixo em Clara. A ideia parecia audaciosa, mas a alternativa era um casamento sem amor e um futuro sombrio para Léo.
"Eu não conheço todos os detalhes", Helena admitiu. "Meu pai é muito reservado sobre os negócios dele. Mas eu sei que Ramiro tem um escritório na cidade vizinha, e que ele recebe muitas pessoas importantes lá. Talvez… talvez eu possa conseguir alguma informação sobre os contatos dele, sobre os acordos que ele faz."
Uma aliança improvável estava se formando. Duas mulheres, unidas pela necessidade e pela esperança de salvar o homem que amavam. Clara sentiu um fio de esperança se acender em seu peito. A desconfiança que a atormentava estava se transformando em uma força de união, uma prova de que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, a coragem e a determinação poderiam abrir caminhos inesperados.