Deu Match no Arraiá
Capítulo 2 — O Fogo da Paixão e a Doce Confusão da Canjica
por Letícia Moreira
Capítulo 2 — O Fogo da Paixão e a Doce Confusão da Canjica
A noite caiu sobre Serro Azul como um manto de veludo cravejado de estrelas. O cheiro de lenha queimando se misturava ao aroma adocicado da canjica e do quentão, criando uma sinfonia olfativa que anunciava o início oficial da Festa do Milho. As luzes dos lampiões balançavam com a brisa suave, pintando o terreiro da igreja com tons dourados e alaranjados. A fogueira, já alta e imponente, era o centro das atenções, irradiando calor e convidando a todos para se aproximarem.
Clara, como sempre, estava em movimento. De um lado para o outro, conferindo as barracas, orientando voluntários, sorrindo para os convidados que chegavam. Vestia um vestido rodado de chita, com flores bordadas no decote, e uma trança lateral enfeitada com fitas coloridas. Estava linda, radiante, mas por dentro, a confusão ainda reinava. O encontro com Lucas no campo, a gentileza em seus olhos, o convite implícito para que ela saísse de sua zona de conforto… tudo isso pairava em sua mente. E, para piorar, a presença constante de Rodrigo, seu namorado designado pela sociedade serro-azulense, parecia um lembrete de que sua vida seguia um roteiro já escrito.
"Clara! Minha flor! Que bom que você está aqui!" Dona Lurdes, a mãe de Clara, a abraçou com força, o aroma de lavanda e sabão em pó emanando de seu abraço. "Você está deslumbrante, minha filha! Seu pai está admirado."
Seu Agenor, um homem de poucas palavras, mas de um coração imenso, sorriu para a filha, seus olhos marejados de orgulho. "Está parecendo uma princesa junina, minha filha. Todo esse trabalho valeu a pena."
Clara sorriu para os pais, sentindo o amor deles como um bálsamo. "Que bom que vocês gostaram, mamãe, papai. O mérito é de todos nós."
Enquanto conversava com os pais, ela avistou Lucas do outro lado do terreiro. Ele estava imerso em seu trabalho, a câmera em punho, capturando os sorrisos, as luzes, a energia contagiante da festa. Ele parecia pertencer ali, como se tivesse sido pintado na paisagem de Serro Azul. Seus olhos encontraram os dela por um instante. Ele sorriu, um sorriso discreto, mas que fez o coração de Clara acelerar. Ela desviou o olhar, sentindo o rosto corar.
Rodrigo apareceu, como um relâmpago, ao lado de Clara. "Minha linda! Já está trabalhando? Deixe isso para os outros, venha dançar comigo." Ele a puxou para perto, depositando um beijo em sua testa.
Clara engoliu em seco. "Rodrigo, eu preciso verificar as bebidas. Já volto."
"Nada disso! A festa é para todos se divertirem, inclusive a organizadora. Venha, a quadrilha já vai começar." Ele a guiou, sem dar espaço para negativas, em direção ao coreto onde os noivos improvisados da quadrilha já se posicionavam.
A música começou, um forró animado que fez todo mundo bater os pés. Clara se viu no meio da quadrilha, forçada a seguir os passos que Rodrigo ditava. Ele era um bom dançarino, mas sua companhia… era como dançar com um fantasma. Ele falava das últimas fofocas da cidade, das suas conquistas no trabalho, mas nunca perguntava sobre ela, sobre seus sonhos, sobre seus receios.
No meio de um "olha a cobra!", Clara vislumbrou Lucas. Ele estava mais perto agora, fotografando a quadrilha, e seus olhos encontraram os dela. Havia uma ponta de… pena? Ou talvez, frustração? Era difícil decifrar a expressão em seu rosto, mas por um instante, Clara se sentiu vista. Vista além do papel de namorada de Rodrigo, vista como Clara, a mulher que estava ali, mas com a alma em outro lugar.
A música terminou, e Rodrigo a puxou para um abraço apertado. "Viu? Não foi tão ruim, foi?"
Clara sorriu sem graça. "Foi… divertido."
Ela se desvencilhou dele o mais rápido que pôde e correu para a barraca de canjica. Era o seu refúgio. Ali, entre os potes fumegantes e o aroma reconfortante, ela se sentia em casa. Dona Elvira, a senhora que cuidava da barraca há mais de vinte anos, a recebeu com um sorriso acolhedor.
"Clara, minha querida! Chegou na hora certa! A canjica está perfeita hoje, feita com todo o carinho do mundo."
"Dona Elvira, a senhora é uma artista da culinária junina!" Clara pegou uma concha e se serviu. O creme branco, pontilhado de grãos de milho e canela, aquecia seu corpo e acalmava sua alma.
Enquanto saboreava a canjica, ouviu uma voz ao seu lado. "Essa canjica tem um cheiro que me transportou para a infância."
Era Lucas. Ele estava ali, com a câmera pendurada, mas parecendo mais relaxado. Ele pegou uma tigela e se serviu.
"É a Dona Elvira. Ela faz a melhor canjica de Serro Azul, talvez do mundo inteiro." Clara sorriu, sentindo um leve rubor nas bochechas. Era bom ter Lucas por perto, sem a pressão de Rodrigo.
"Parece que Serro Azul tem muitos tesouros escondidos," Lucas comentou, observando Dona Elvira com um olhar admirado. "Não só na culinária, mas nas pessoas."
Clara sentiu o coração dar um salto. Ele estava falando dela? Ou de todos em Serro Azul? "Tem sim. As pessoas aqui têm um jeito especial de viver. Um jeito de valorizar as coisas simples."
"E você, Clara? O que você mais valoriza?" A pergunta veio direta, sem rodeios, e fez Clara se perder por um instante.
Ela pensou em sua paixão por organizar festas, em sua família, em seus amigos. Pensou na esperança de encontrar um amor verdadeiro, um amor que a fizesse vibrar.
"Eu valorizo a alegria," ela respondeu, olhando para a fogueira que crepitava. "A alegria de ver as pessoas felizes. De criar momentos que elas possam guardar no coração."
Lucas a observou atentamente. "E você se permite ter seus próprios momentos de alegria, Clara? Ou a senhora está tão ocupada em criar a alegria dos outros que esquece de si mesma?"
A pergunta era a mesma que ele fizera mais cedo, mas agora, em meio ao burburinho da festa, sob o olhar das estrelas e o calor da canjica, ela parecia ainda mais pertinente.
"Às vezes, é difícil," Clara confessou, sua voz baixa. "É como se eu tivesse um papel a cumprir. O papel de organizadora, de filha, de… boa moça."
Lucas se aproximou um pouco mais. "E se eu disser que acho que você tem outros papéis a cumprir? Papéis que envolvem mais liberdade, mais paixão, talvez até um pouco de aventura?" Ele fez uma pausa, seus olhos fixos nos dela. "Você já pensou em se permitir um pouco mais, Clara? Em ser a protagonista da sua própria história, e não só a arquiteta das histórias dos outros?"
Um grupo de crianças correu para a barraca de canjica, interrompendo a conversa. Clara sentiu um misto de alívio e decepção. Lucas tinha o dom de fazê-la pensar, de fazê-la questionar. E, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu um desejo genuíno de mudar seu próprio roteiro.
Rodrigo reapareceu, a face tensa. "Clara, onde você se meteu? Estou te procurando faz tempo. E você, Lucas, ainda importunando a minha namorada?"
Lucas se levantou, um sorriso irônico nos lábios. "Só estávamos trocando uma conversa amena sobre a vida em Serro Azul, Rodrigo. Nada que você precise se preocupar."
"Eu me preocupo sim," Rodrigo retrucou, o tom mais agressivo. "Clara é minha, e ela tem mais o que fazer do que ficar batendo papo com forasteiros."
Clara sentiu o sangue ferver. A gentileza e a profundidade de Lucas contrastavam brutalmente com a possessividade e a arrogância de Rodrigo.
"Rodrigo, por favor," Clara disse, sua voz firme, surpreendendo até a si mesma. "Eu estava conversando com o Lucas. E eu não sou de ninguém. Eu sou a Clara."
Rodrigo ficou chocado com a resposta dela. Ele não estava acostumado a ser contrariado. Lucas sorriu, um sorriso de aprovação que iluminou o rosto de Clara.
"Isso mesmo, Clara," Lucas disse suavemente. "Você é a Clara. E Serro Azul precisa da Clara, a que faz a festa, mas também a Clara, a que se permite viver."
Rodrigo, sem saber o que dizer, apenas apertou o braço de Clara com mais força. Clara, porém, sentiu uma força diferente brotar dentro dela. A força de quem começa a enxergar a luz no fim do túnel, mesmo que esse túnel seja um arraiá repleto de doce confusão. O fogo da fogueira parecia refletir o incêndio que se acendia em seu coração, um incêndio de esperança, de desejo por algo mais. E, naquele momento, a canjica, antes um refúgio, parecia o doce prenúncio de uma paixão inesperada.