A Samba da Minha Vida Levou Você

Capítulo 12 — O Ritmo da Saudade no Asfalto Carioca

por Letícia Moreira

Capítulo 12 — O Ritmo da Saudade no Asfalto Carioca

Os dias que se seguiram à partida de Miguel foram marcados por uma melancolia palpável, que parecia se infiltrar em cada canto do apartamento de Sofia. O Rio de Janeiro, geralmente vibrante e cheio de vida, agora parecia ecoar a quietude em seu coração. O sol ainda brilhava forte, as praias ainda chamavam, mas para Sofia, a cor parecia ter desbotado um pouco. O ritmo da saudade era agora a trilha sonora de sua vida, um samba lento e arrastado que embalava seus dias.

Ela passava horas no ateliê, cercada por telas em branco e cheiro de tinta. A inspiração, antes abundante, parecia ter se recolhido, assustada com a tempestade que abalara seu mundo. Pintava paisagens vazias, rostos sem expressão, cores que não transmitiam a alegria que ela almejava. Cada pincelada era um suspiro, cada borrão uma tentativa frustrada de expressar a complexidade de seus sentimentos.

“Não adianta se torturar assim, Sofi”, disse Clara, entrando no ateliê com uma sacola de pão de queijo fresco e um pote de doce de leite. “Você precisa se permitir sentir, mas não pode ficar presa aí dentro.”

Sofia suspirou, largando o pincel com um baque. “É difícil, Clara. Parece que o ar ficou mais pesado, que tudo perdeu o brilho. Eu fico lembrando dele a cada instante. Aquele jeito que ele sorria quando eu falava de música, o toque dele na minha mão, a promessa nos olhos dele…”

Clara colocou a sacola em uma mesinha e se aproximou, abraçando a amiga. “Eu sei. A saudade é um bicho danado. Mas você é uma artista, Sofia. E artistas transformam tudo em arte. Essa saudade pode ser a sua muse agora.”

“Uma muse triste, então”, Sofia murmurou, sentindo um nó na garganta. “Eu estou tentando, Clara. Mas parece que a tinta não obedece, as cores se recusam a dançar.”

“Talvez você precise sair um pouco desse casulo. Respirar outros ares. Ver gente. A vida continua lá fora, Sofi. E ela é mais do que a ausência de alguém.” Clara sorriu, um sorriso que tentava ser animador. “Que tal a gente ir naquele boteco novo que abriu perto da Lapa? Ouvi dizer que a música de lá é ótima e o chopp geladíssimo.”

Sofia hesitou. A Lapa, com seu burburinho noturno, sua música pulsante, sempre fora um lugar que a revigorava. Mas, ultimamente, a ideia de se misturar a multidão, de ouvir o samba que antes a inspirava, parecia insuportável. Miguel fazia parte daquelas memórias, daquelas noites.

“Não sei, Clara. Acho que não estou com cabeça para isso agora.”

“Sofi, você não pode se isolar. Você precisa se reconectar com o que te faz feliz, além dele. Lembra do seu amor pela cidade, pela música, pelas pessoas? Isso tudo ainda está aqui.” Clara pegou um pão de queijo e ofereceu a ela. “Come. Alimenta o corpo, que a alma logo acompanha.”

Sofia pegou o pão de queijo, o cheiro de queijo derretido invadindo suas narinas. Ela deu uma mordida hesitante, o sabor reconfortante invadindo sua boca. Talvez Clara tivesse razão. Ficar ali, se lamentando, não resolveria nada.

“Tudo bem”, ela disse, com um suspiro. “Mas você vai ter que me aguentar. Se eu ficar quieta, você me fala. Se eu começar a chorar, você me dá mais pão de queijo.”

Clara riu e deu um beijo na testa da amiga. “Combinado! E se a saudade apertar muito, a gente pode até arriscar uns passos de samba, quem sabe?”

Ao entardecer, elas se arrumaram e saíram. A Lapa, mesmo em uma noite de terça-feira, já fervilhava com vida. As ruas estreitas, os casarões antigos, os arcos imponentes, tudo criava uma atmosfera única. Elas encontraram uma mesa em um boteco animado, com mesas de madeira rústica e luzes baixas que criavam um clima acolhedor. Um grupo de músicos tocava chorinho em um canto, e o som envolvente, embora agridoce para Sofia, começava a penetrar em sua defesa.

Enquanto saboreavam o chopp gelado e petiscavam pastéis crocantes, Sofia observava as pessoas ao redor. Casais conversando animadamente, amigos rindo, turistas tirando fotos. A vida, em sua forma mais crua e autêntica, se desenrolava diante de seus olhos. E, aos poucos, a tensão em seus ombros começou a ceder.

“É… até que não é tão ruim assim”, Sofia confessou, um pequeno sorriso brincando em seus lábios.

“Eu sabia!”, Clara exclamou, animada. “Veja só, o Rio tem um jeito de nos curar, não tem? A música, o povo, a alegria que brota do asfalto.”

De repente, um samba mais animado tomou conta do local. O grupo de músicos mudou o ritmo, e a energia do bar aumentou exponencialmente. As pessoas começaram a se levantar, a bater palma no compasso, e alguns casais se arriscaram a dançar. Sofia observava tudo com uma mistura de nostalgia e um desejo crescente de se juntar àquela celebração.

“Eu não sei se consigo dançar, Clara”, ela disse, a voz um pouco trêmula.

“Você não precisa dançar para sentir a música, Sofi. Apenas deixe ela te levar. Ouça. Sinta. Às vezes, um aceno de cabeça no ritmo é o suficiente para se reconectar.” Clara deu um gole em seu chopp. “E quem sabe? Talvez você encontre inspiração para uma nova tela.”

Sofia fechou os olhos por um instante, concentrando-se na música. O pandeiro, o cavaquinho, o violão… eles se entrelaçavam em uma melodia que falava de amor, de saudade, de alegria e de dor. Era a samba da vida, com todas as suas nuances. Ela abriu os olhos e olhou para Clara, que sorria para ela, cúmplice.

“Você tem razão”, Sofia disse, a voz ganhando uma nova firmeza. “Não vou deixar que a ausência dele me roube a música.”

Ela pediu mais um chopp e, pela primeira vez em dias, sentiu um leve alívio em seu peito. A saudade ainda estava ali, um fantasma persistente, mas agora ela não estava mais sozinha lutando contra ele. Tinha Clara ao seu lado, a música pulsando em suas veias e a promessa de que, mesmo na ausência, a vida continuava a oferecer seus encantos. O ritmo da saudade ainda ecoava, mas agora, misturado a ele, começava a surgir um novo samba, mais forte, mais resiliente, um samba que falava sobre a força de seguir em frente, mesmo quando o amor parecia ter partido com o vento.

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