A Samba da Minha Vida Levou Você
A Samba da Minha Vida Levou Você
por Letícia Moreira
A Samba da Minha Vida Levou Você
Capítulo 6 — O Mistério do Colar Desaparecido
O sol do Rio de Janeiro, generoso e implacável como a vida, banhava o apartamento de Clara em tons de ouro e desespero. Lágrimas salgadas escorriam por seu rosto, misturando-se ao suor que teimava em aparecer em sua testa mesmo na penumbra do quarto. O colar. O maldito colar. O colar da vovó, uma peça única de ouro envelhecido com um pingente em formato de lira, incrustado de pequenas safiras azuis que brilhavam como os olhos dela em dias de alegria. E agora, ele havia sumido.
“Não pode ser, não pode ser”, murmurava Clara, revirando as gavetas de sua penteadeira com uma fúria impotente. As roupas emaranhavam-se nas mãos, os lenços de seda escapavam, os perfumes espalhavam seu aroma inebriante pelo quarto, um cheiro que antes a acalmava e agora a deixava enjoada. O quarto, um santuário de memórias e sonhos, transformara-se num campo de batalha onde ela era a única vítima.
Ao lado da cama, o porta-retratos com a foto dela e da avó sorria, um sorriso que parecia zombar de sua aflição. A avó, Dona Esmeralda, com seus cabelos brancos presos em um coque impecável e um olhar que transbordava sabedoria e afeto, entregara-lhe o colar em seu aniversário de dezesseis anos. “Este colar, minha flor, carrega a nossa história. Cada safira é uma lágrima de saudade, cada curva do ouro, um abraço que o tempo não apaga. Cuide bem dele, como você cuida do seu coração.” Palavras que ecoavam na mente de Clara, cada vez mais distantes e dolorosas.
Ela se sentou na beirada da cama, o corpo pesado de angústia. Como podia ter sumido assim? Ela o usara na festa de ontem à noite, na casa de Eduardo. Tinha certeza disso. Lembrava-se de sentir o peso reconfortante dele em seu pescoço enquanto dançava, enquanto ria das piadas sem graça dele, enquanto seus olhares se cruzavam naquele misto de provocação e atração que a deixava sempre em brasa.
“Eduardo”, o nome soou como um sussurro, um misto de esperança e receio. Ele poderia tê-lo visto? Teria caído em algum lugar na casa dele? A ideia de procurá-lo, de ter que encará-lo novamente depois da noite turbulenta, fazia seu estômago revirar. A discussão deles na varanda, as palavras duras que escaparam de ambos, o silêncio constrangedor que se seguiu... tudo voltava em flashes nítidos.
De repente, um som de campainha soou, estridente, cortando o silêncio pesado do apartamento. Clara sobressaltou-se, o coração disparado. Quem seria? Ela não esperava ninguém. Com um suspiro, levantou-se e caminhou até a porta, ajeitando o vestido de seda azul que usara na noite anterior, ainda um pouco amarrotado.
Ao abrir a porta, seus olhos encontraram os de Eduardo. Ele estava ali, em seu apartamento, no meio da manhã, com um sorriso que tentava ser contido, mas que não conseguia disfarçar a preocupação em seus olhos. Em suas mãos, ele segurava uma pequena caixa de veludo preto.
“Clara… eu…”, ele começou, a voz rouca, sem jeito. Ele parecia mais jovem, mais vulnerável do que ela jamais o vira.
Clara apenas o encarou, a respiração suspensa. A pergunta pairava no ar, não dita, mas evidente.
“Eu encontrei isso…”, ele disse, estendendo a caixa para ela. “Caiu no jardim, perto da fonte. Achei que… que era importante.”
Com as mãos trêmulas, Clara pegou a caixa. O coração batia acelerado, uma mistura de alívio e um sentimento estranho de gratidão que ela não sabia bem como processar. Ela abriu a caixa. Lá estava ele, o colar da vovó, brilhando suavemente sob a luz que entrava pela porta. As safiras pareciam ainda mais azuis, a lira parecia dançar.
Um nó se formou em sua garganta. Ela ergueu os olhos para Eduardo, que a observava com uma intensidade que a fez desviar o olhar. A raiva que ela sentia evaporara, substituída por uma confusão avassaladora.
“Obrigada”, ela conseguiu dizer, a voz embargada. “Obrigada, Eduardo. Eu… eu pensei que o tinha perdido para sempre.”
Ele deu um passo para dentro do apartamento, sem ser convidado, mas Clara não se importou. A tensão entre eles ainda era palpável, mas agora havia algo mais, algo que pairava no ar, denso e promissor.
“Eu sei que tivemos… uma noite difícil”, ele disse, esfregando a nuca, um gesto que ela achou incrivelmente charmoso. “E eu sinto muito pelas coisas que disse. A gente se exalta, às vezes…”
Clara apenas assentiu, incapaz de articular uma resposta. Ela segurava o colar, sentindo o metal frio contra sua pele, a lembrança vívida da noite anterior, da discussão acalorada, do beijo roubado na varanda que a deixara sem ar. E agora, ele ali, com o colar, com aquele olhar…
“Você estava nervosa, eu percebi”, ele continuou, aproximando-se um pouco mais. “Com a festa, com tudo. Eu não devia ter pressionado você.”
“Eu também não devia ter dito aquelas coisas”, ela respondeu, finalmente encontrando sua voz. “Foi um momento de… de estresse. E a sua insistência com o trabalho…”
“Eu sei, eu sei. Mas o trabalho, Clara, às vezes é uma desculpa. Uma forma de fugir.” Ele a olhou nos olhos, e dessa vez, ela não desviou. Havia uma sinceridade brutal em seu olhar. “Fugir de… do que está acontecendo entre a gente.”
O apartamento de Clara, antes um palco de desespero, agora se transformava em um palco de revelações. O colar da avó, um elo entre o passado e o presente, parecia ter sido o catalisador para desatar os nós que os prendiam. A samba da vida, com seus passos inesperados e suas melodias complexas, parecia ter acabado de lhes apresentar um novo compasso. A pergunta era: eles conseguiriam dançar juntos?
“Eu preciso ir”, disse Eduardo, de repente, quebrando o encanto que se formara. “Tenho uma reunião cedo.”
Clara assentiu, um misto de decepção e alívio correndo por suas veias.
“Obrigada de novo pelo colar”, ela repetiu, o coração ainda descompassado.
Ele deu um leve sorriso, um sorriso que não chegava aos olhos. “Até mais, Clara.”
E ele se foi, deixando para trás o cheiro de seu perfume, a memória de seu olhar e a promessa silenciosa de que aquela história estava longe de terminar. Clara fechou a porta, o colar de volta em seu pescoço, as safiras azuis brilhando como estrelas em uma noite de verão. O desespero dera lugar a uma inquietação doce e perigosa. A samba da sua vida, de repente, havia ganhado um novo parceiro de dança. E ela não sabia se estava pronta para o próximo passo. O sol da manhã, agora mais alto, entrava pela janela, iluminando o quarto com uma nova luz, uma luz de possibilidades, de incertezas e de um romance que, como o samba, parecia ter chegado para ficar, com seus altos e baixos, seus ritmos envolventes e sua promessa de paixão.