A Samba da Minha Vida Levou Você
Capítulo 8 — O Encontro Inesperado no Boteco da Esquina
por Letícia Moreira
Capítulo 8 — O Encontro Inesperado no Boteco da Esquina
A volta para a agitada realidade do Rio de Janeiro foi agridoce. A ilha de Angra, com sua serenidade e a intimidade recém-descoberta com Eduardo, parecia um sonho distante. Clara sentia que algo havia mudado entre eles. O beijo na praia, as conversas profundas, a cumplicidade que florescera, tudo indicava um rumo mais sério. No entanto, o ritmo da vida na cidade parecia impor suas próprias regras, e ambos voltaram às suas rotinas, à pressão do trabalho, aos compromissos que os separavam.
Eduardo, com seus negócios em expansão, e Clara, imersa no projeto de reestruturação da empresa de moda, mal conseguiam encontrar tempo um para o outro. As mensagens de texto e as rápidas ligações telefônicas se tornaram seus únicos canais de comunicação, e Clara sentia uma ponta de saudade crescendo em seu peito. Aquele Eduardo que ela conheceu na ilha parecia um vislumbre fugaz, e ela temia que a rotina o engolisse novamente.
Uma tarde de quarta-feira, exausta após um dia de reuniões intermináveis, Clara decidiu que precisava de uma pausa. A sede a levou a um pequeno boteco charmoso no bairro onde morava, um lugar com mesas de madeira desgastada, azulejos antigos e um cheiro delicioso de petiscos fritos no ar. Ela pediu uma cerveja gelada e um punhado de amendoins, sentando-se em uma mesa na calçada, observando o movimento da rua, tentando esvaziar a mente.
Enquanto saboreava a cerveja, o burburinho da rua foi interrompido por uma voz familiar, que a fez congelar.
“Clara? É você mesmo?”
Ela ergueu os olhos e seu coração deu um salto. Ali, parado na sua frente, estava Rafael. Rafael, o amigo de infância, o amor platônico da adolescência, o motivo de tantos suspiros e canções melancólicas no violão. Ele estava mais velho, claro, com alguns fios grisalhos nas têmporas e um sorriso mais maduro, mas os olhos, aqueles olhos verdes profundos que ela nunca esqueceu, eram os mesmos.
“Rafael!”, exclamou Clara, um misto de surpresa e alegria inundando-a. Ela se levantou, abraçando-o com força. O abraço parecia carregar anos de saudade, de memórias compartilhadas, de uma amizade que o tempo não conseguiu apagar.
“Que surpresa maravilhosa!”, disse Rafael, o sorriso se alargando. “O que você está fazendo por aqui? Pensei que morava do outro lado da cidade.”
“Eu moro. Mas hoje… precisei de um refúgio. E você? O que te traz a esse boteco esquecido?”
“Estava passando, vi o movimento e senti o cheiro da coxinha”, ele riu. “Decidi matar a saudade. E olha só quem eu encontro!” Ele gesticulou para a cadeira à sua frente. “Posso me juntar a você? Ou está esperando alguém?”
“Claro que pode!”, Clara respondeu, sentindo uma leve pontada de culpa ao pensar em Eduardo. Mas era apenas um amigo, certo? Um amigo de longa data. “Estou apenas apreciando a solidão… por enquanto.”
Eles pediram mais cervejas e uma porção generosa de pastéis de camarão. A conversa fluiu com uma naturalidade impressionante. Eles relembravam a infância, as travessuras na escola, os primeiros amores desajeitados. Rafael contou sobre sua vida em São Paulo, sobre seu trabalho como arquiteto, sobre seus relacionamentos que não deram certo. Clara, por sua vez, falou sobre a empresa, sobre as dificuldades, mas omitiu os detalhes de seu envolvimento com Eduardo. A presença de Rafael era reconfortante, um lembrete de uma época mais simples, onde os problemas eram menores e os corações menos complicados.
“Você sabe, Clara”, disse Rafael, enquanto observava o movimento da rua, “eu sempre soube que você ia longe. Você sempre teve essa garra, essa paixão. Lembra quando você dizia que ia ser uma grande artista?”
Clara sorriu, um sorriso um pouco melancólico. “Sonhos de adolescente, Rafael. A vida tem um jeito engraçado de nos levar por caminhos inesperados.”
“Mas o importante é não perder a essência, não é? Você ainda tem essa luz nos olhos, essa alegria contagiante.” Ele a olhou intensamente, e Clara sentiu um arrepio familiar. Era o mesmo olhar que a fazia suspirar na adolescência.
“E você, Rafael? Algum projeto novo? Alguma paixão secreta?”
“Paixão secreta, talvez”, ele disse, um brilho nos olhos. “Mas um projeto novo, sim. Estou projetando um museu para uma grande empresa de moda, aqui no Rio. Um desafio e tanto.”
Clara engasgou com a cerveja. “Museu? Empresa de moda? Que empresa?”
“Família Vargas. Você conhece?”
Clara sentiu o chão sumir sob seus pés. Família Vargas. A empresa de Eduardo. O projeto que ela estava ajudando a reestruturar. E Rafael, seu amigo de infância, estava trabalhando diretamente com Eduardo. A ironia da situação era quase cruel.
“Eu… eu trabalho com a Família Vargas”, ela disse, tentando manter a voz firme. “Na verdade, estou ajudando a reestruturar a marca de moda deles.”
Os olhos de Rafael se arregalaram. “Não acredito! Que coincidência incrível! Nós estamos projetando o novo espaço de exposição para a marca. Vai ser algo grandioso.” Ele pegou o celular. “Você conhece o Eduardo Vargas?”
“Conheço… de vista”, Clara mentiu, o coração disparado. Ela conhecia Eduardo muito mais do que de vista.
“Ele é um cara bacana. Um pouco reservado, talvez, mas muito focado. Você tem sorte de trabalhar com ele.”
A essa altura, Clara já não conseguia mais disfarçar sua perplexidade. Eduardo, o homem que conquistara seu coração na ilha, o homem com quem ela sentia que estava construindo algo especial, era o mesmo homem com quem seu antigo amor platônico estava trabalhando em um projeto ambicioso. A samba da sua vida, que parecia ter encontrado um novo compasso, agora parecia tocar uma melodia de intrigas e coincidências.
“Clara? Você está bem?”, perguntou Rafael, percebendo sua palidez. “Você parece um pouco… chocada.”
“Estou bem, Rafael. Só… muitas novidades de uma vez só. É muita coincidência.”
Eles continuaram conversando, mas Clara mal conseguia se concentrar. A imagem de Eduardo, o homem que ela acreditava conhecer, se misturava com a de Rafael, o amigo leal e sincero. Aquele encontro inesperado no boteco da esquina, que começou com a nostalgia de uma amizade reencontrada, havia se transformado em um turbilhão de emoções e questionamentos. A samba que tocava em sua vida agora parecia ter mais de um par de dança, e ela não sabia mais quem deveria conduzir.
“Eu preciso ir, Rafael”, Clara disse, levantando-se de repente. “Tenho um compromisso. Mas foi maravilhoso te ver.”
“Igualmente, Clara. Me ligue, tá? Vamos marcar algo com mais calma.”
“Com certeza”, ela respondeu, forçando um sorriso.
Ao sair do boteco, o ar fresco da noite não conseguiu dissipar a confusão que se instalara em sua mente. O colar da avó, que ela usava naquele dia, parecia um peso em seu pescoço. A samba da sua vida a havia levado até Eduardo, mas agora, com o reaparecimento de Rafael e a descoberta de que ambos os homens estavam interligados profissionalmente, ela se via em um labirinto de sentimentos e incertezas. A cada passo, a melodia da samba se tornava mais complexa, mais cheia de reviravoltas, e Clara não sabia se estava pronta para os próximos acordes.