A Samba da Minha Vida Levou Você
Capítulo 9 — O Confronto na Galeria e as Palavras que Ferem
por Letícia Moreira
Capítulo 9 — O Confronto na Galeria e as Palavras que Ferem
O convite para a inauguração da nova galeria de arte da Família Vargas chegou à caixa de entrada de Clara como um presságio. Era um evento de grande porte, um marco na reestruturação da marca de moda, e a presença de Eduardo era esperada como anfitrião. Clara hesitou em ir. A descoberta de que Rafael estava envolvido no projeto, trabalhando lado a lado com Eduardo, a deixava desconfortável. Aquele encontro inesperado no boteco parecia ter lançado uma sombra sobre a relação que ela acreditava estar florescendo.
Decidiu ir, no entanto. Por profissionalismo, e talvez, por uma necessidade secreta de encarar Eduardo, de entender o que estava acontecendo. Vestiu um elegante vestido preto, discreto, mas sofisticado, sentindo a tensão nos ombros e o colar da vovó, um amuleto de conforto, repousar em seu pescoço.
A galeria era deslumbrante, um espaço amplo e moderno, decorado com obras de arte contemporânea de tirar o fôlego. A multidão era composta por socialites, artistas, empresários e jornalistas, todos em busca de novidades e cliques. Clara se misturou à multidão, tentando parecer tranquila, enquanto seus olhos varriam o local em busca de Eduardo.
E então, ela o viu. Ele estava conversando animadamente com um grupo de convidados, o sorriso confiante de sempre. Ao seu lado, impecável em um terno cinza, estava Rafael. O coração de Clara afundou. A cena era um retrato daquela teia de relações que a deixava tão apreensiva.
Ela se aproximou, decidida a cumprimentá-lo, quando ouviu a voz de Eduardo, alta e firme, vindo da pequena plataforma improvisada para discursos.
“Boa noite a todos!”, disse Eduardo, a voz ressoando pela galeria. “É uma honra receber vocês em nosso novo espaço. Este projeto representa não apenas um novo capítulo para a Família Vargas, mas um sonho que se torna realidade. Um sonho que começou com a visão de meu pai e que, com a ajuda de muitas pessoas talentosas, hoje se materializa. Quero agradecer especialmente ao nosso talentoso arquiteto, Rafael Almeida, por transformar nossa visão em realidade…”
Clara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Rafael. O nome foi dito com uma naturalidade que a machucou. Ele era o arquiteto. O parceiro.
Eduardo continuou o discurso, agradecendo à sua equipe, aos artistas, mas Clara mal ouvia. Seus olhos estavam fixos nele, buscando alguma indicação, algum sinal. Mas ele parecia alheio à sua presença, absorto em seu papel de anfitrião.
Quando o discurso terminou, um burburinho animado tomou conta do local. Clara viu Rafael se aproximar de Eduardo, e eles trocaram um aperto de mão caloroso. A imagem era demais para ela suportar. Ela se virou, decidida a ir embora, quando sentiu uma mão tocar seu braço.
“Clara! Que bom que você veio!”, era Eduardo. Ele parecia surpreso, mas genuinamente feliz em vê-la.
“Eduardo”, ela disse, a voz fria. “Um evento importante para a sua família. Não poderia deixar de vir.”
Ele a olhou nos olhos, percebendo a tensão em sua postura. “Você parece… diferente. Aconteceu alguma coisa?”
“Aconteceu muita coisa, Eduardo. Coisas que eu não sabia. Coisas que você não me contou.”
O sorriso dele vacilou. “Não me contou o quê?”
“Rafael. O arquiteto. O seu parceiro neste projeto. O meu amigo de infância. O cara que me deu o primeiro beijo desajeitado.” As palavras saíram em um jorro, carregadas de mágoa e frustração. “Você sabia, não sabia? Sabia que ele era meu amigo, e não me disse nada?”
Eduardo ficou em silêncio por um momento, o rosto sério. “Sim, Clara. Eu sabia. Ele me falou de você. E eu… eu não vi a necessidade de trazer isso à tona. Achei que era algo do seu passado.”
“Do meu passado? Eduardo, você me levou para uma ilha, nos beijamos, compartilhamos segredos… e você escondeu algo tão importante?” A voz de Clara começou a embargar. “Você não confiou em mim?”
“Não é sobre confiança, Clara. É sobre… separar as coisas. Minha vida profissional, minha vida pessoal. E você e Rafael… vocês pareciam ter seguido caminhos diferentes.”
“Caminhos diferentes? Nós nos encontramos por acaso! E você, com o seu jeito de sempre, me deixando no escuro!” Clara sentiu as lágrimas escorrerem por seu rosto. A beleza da galeria, a música ambiente, tudo parecia se desvanecer diante da dor que a invadia. “Eu achei que… eu achei que tínhamos algo especial. Algo baseado em honestidade.”
Eduardo tentou segurar sua mão, mas Clara a afastou. “Não me toque, Eduardo.”
“Clara, por favor, vamos conversar em outro lugar. Não aqui.”
“Não há nada para conversar, Eduardo. Você me mostrou quem você é. Você é um homem de segredos. Assim como eu sou uma mulher que não gosta de ser enganada.” Ela se virou, decidida a ir embora, mas Rafael se colocou em seu caminho.
“Clara, espere!”, disse ele, o rosto preocupado. “O que está acontecendo?”
Clara olhou de Eduardo para Rafael, a confusão estampada em seu rosto. “Você não sabe? O seu ‘parceiro de projeto’ escondeu de mim o fato de que eu conhecia você há anos. Que você era meu amigo. Ele sabia e não me disse nada.”
Rafael olhou para Eduardo, uma expressão de desapontamento surgindo em seu rosto. “Eduardo, por que você fez isso?”
Eduardo suspirou, derrotado. “Eu pensei que estava protegendo vocês. Evitando um constrangimento.”
“Um constrangimento? Ou uma forma de me manter sob controle?”, Clara disparou, a voz carregada de amargura. “Você me quis, me seduziu, me levou para a sua ilha, e agora, quando meu passado reaparece, você tenta me isolar dele?”
“Não é isso, Clara!”, Eduardo insistiu, o desespero em sua voz. “Eu… eu tenho sentimentos por você.”
“Sentimentos? Sentimentos que se escondem atrás de mentiras?”, Clara riu, um riso amargo e sem alegria. “Eu não preciso disso, Eduardo. Eu construí minha vida sozinha, e posso continuar construindo sem ninguém que não seja sincero comigo.”
Ela se virou e caminhou em direção à saída, ignorando os chamados de Eduardo e Rafael. As lágrimas cegavam sua visão, mas ela continuou, cada passo um ato de dor e de libertação. A samba da sua vida, que parecia ter encontrado um ritmo vibrante e apaixonado, de repente se transformou em um lamento triste e descompassado. As palavras de Eduardo, que antes a seduziam, agora soavam como falsas promessas, e a imagem de Rafael, o amigo leal, pairava como um fantasma de um amor que nunca se concretizou. Naquele momento, Clara sentiu que a samba que ela amava havia sido roubada, e que o ritmo que restava era apenas o eco doloroso de um coração partido.