Coração na Feijoada (e na Confusão)

Claro, aqui estão os primeiros cinco capítulos do seu romance, escritos com a paixão e o drama que o público brasileiro adora.

por Priscila Dias

Claro, aqui estão os primeiros cinco capítulos do seu romance, escritos com a paixão e o drama que o público brasileiro adora.

Coração na Feijoada (e na Confusão) Autor: Priscila Dias

Capítulo 1 — O Perfume da Feijoada e o Cheiro da Desgraça

O aroma da feijoada, robusto e convidativo, dançava no ar como uma promessa de felicidade simples. Para Dona Zulmira, era mais que um prato; era um ritual, a alma da sua casa, um abraço quentinho em forma de caldo escuro e carnes suculentas. Naquele sábado ensolarado, a cozinha da Dona Zulmira era um palco de fervores e aromas, um microcosmo da sua vida: cheia de afeto, um toque de caos e uma pitada de segredo.

Aos sessenta anos, Zulmira era um furacão de energia contida em um corpo roliço, com cabelos grisalhos presos em um coque frouxo que teimava em soltar-se. Seus olhos, pequenos e brilhantes como jabuticabas, observavam cada detalhe com a perspicácia de quem já viu de tudo um pouco. A feijoada, sua obra-prima culinária, estava em estágio avançado. O vapor que subia da panela de ferro, um caldeirão ancestral, carregava consigo não apenas o cheiro de linguiça calabresa, paio e carne seca, mas também as expectativas de todos que a esperavam.

Em sua mente, Zulmira revisava a lista de convidados, um misto de familiares e amigos fiéis. Estava Lúcia, sua filha, uma advogada workaholic que parecia ter herdado do pai a praticidade e a falta de tempo para os afetos. Estava Miguel, seu neto, um artista sonhador que se recusava a entender o valor do dinheiro, mas que pintava paisagens que faziam a alma suspirar. E, claro, havia a esperança secreta, aquela que ela cultivava como uma orquídea rara: a volta de Roberto.

Roberto. O nome ressoava em sua memória com o eco de um amor que o tempo não soube apagar. Ele fora seu primeiro namorado, o amor juvenil que prometia ser eterno, até que a vida, implacável, os separara. Roberto havia partido para o exterior em busca de oportunidades, e ela, jovem e teimosa, não fora junto. Anos depois, ele retornara, mas já era tarde demais. Ela estava casada com Antônio, o pai de Lúcia, e Roberto, por sua vez, encontrara outro rumo. O reencontro, casual, meses antes, havia reacendido uma chama que ela julgava extinta. Uma faísca perigosa, que a fazia corar como uma adolescente.

"Mãe, que cheiro maravilhoso!", a voz de Lúcia ecoou do corredor.

Zulmira sorriu, um sorriso tingido de nostalgia. Lúcia, com seu tailleur impecável e a pasta de couro nas mãos, parecia deslocada naquele ambiente de fogão a lenha e temperos exalando. Era o retrato da mulher moderna, eficiente, mas que parecia carregar nas costas o peso do mundo.

"Ah, minha filha, você chegou na hora certa. Daqui a pouco está pronta. A feijoada da vovó nunca falha, né?", respondeu Zulmira, dando uma mexida vigorosa na panela.

Lúcia se aproximou, os olhos percorrendo a cozinha com uma mistura de apreço e impaciência. "Sempre, mãe. Mas o senhor Antônio já está chegando? Tenho uma reunião importante amanhã cedo e queria ir para casa mais cedo."

O nome de Antônio, o marido que ela tanto amara e que morrera há cinco anos, causou um leve sobressalto em Zulmira. A feijoada de sábado era um ritual que ela mantivera mesmo após a partida dele, uma forma de honrar a memória e a união que construíram. "Antônio? Que Antônio, minha filha? Seu pai se foi há anos, você sabe. Quem está vindo hoje é o Roberto."

Lúcia piscou, como se tivesse sido atingida por um raio. "Roberto? O Roberto da sua juventude? Aquele que foi embora e nunca mais voltou?", ela perguntou, a voz carregada de espanto e uma ponta de ironia.

"Sim, o próprio! Ele me ligou semana passada, disse que estava de passagem pela cidade e queria muito rever a gente. Imagina a minha alegria!", Zulmira disse, com os olhos brilhando de antecipação.

Lúcia suspirou, passando a mão pelos cabelos perfeitamente penteados. "Mãe, com todo o respeito, você tem certeza que é uma boa ideia? Esse homem sumiu por décadas. E você... você não me disse que ele viria."

"Ah, minha filha, às vezes as surpresas são as melhores. Ele me ligou de repente, e eu não resisti. Queria te fazer uma surpresa também, mas pelo visto você é a única surpresa aqui!", Zulmira brincou, mas um leve tom de preocupação se instalou em sua voz.

Nesse momento, uma figura jovem e esguia surgiu na porta, os cabelos revoltos e as mãos sujas de tinta. Era Miguel, o neto, a personificação da boemia e do desapego material.

"Vovó! Que cheiro é esse? Meus sentidos artísticos estão em polvorosa!", Miguel exclamou, abraçando Zulmira com força, deixando uma marca de tinta azul em seu avental.

"Miguel, meu filho! Cuidado com a roupa da vovó!", Zulmira repreendeu gentilmente, afagando os cabelos do neto. "Que bom que você veio! Hoje temos um convidado especial."

"Especial tipo... um galerista com um cheque gordo?", Miguel perguntou, esperançoso.

"Não, meu anjo. Especial tipo Roberto. Lembra dele? O amigo do vovô Antônio que viajou pelo mundo?", Lúcia interveio, com um leve sorriso irônico.

Miguel franziu a testa. "Roberto? Aquele que falava de arte e de estrelas? Nunca o conheci, só ouvi falar."

"Pois hoje você vai conhecer. E quem sabe ele não te dá umas dicas de como vender essas suas telas que ficam empilhadas no quarto?", Zulmira sugeriu, voltando a se concentrar na panela.

A conversa foi interrompida pelo som de uma buzina familiar. O carro preto, impecável, parou em frente à casa. Zulmira sentiu um frio na barriga. Era ele.

"Ah, ele chegou!", ela sussurrou, os olhos fixos na porta.

Lúcia observou a mãe com uma mistura de curiosidade e receio. Miguel, alheio às emoções que fervilhavam na cozinha, olhava para a porta com a curiosidade típica de quem aprecia um bom espetáculo.

A porta se abriu, revelando um homem de cabelos grisalhos bem aparados, o rosto marcado por linhas de expressão que contavam histórias de viagens e de uma vida intensa. Roberto. Ele trazia nos olhos um brilho que Zulmira se lembrava bem, um misto de sabedoria e uma melancolia contida. Ao seu lado, uma mulher elegante, com um vestido vermelho que contrastava com o ambiente rústico, parecia fora de seu elemento.

"Zulmira, minha querida...", a voz de Roberto era suave, carregada de emoção.

Zulmira abriu um sorriso que iluminou todo o seu rosto. "Roberto! Que bom te ver!"

Ele se aproximou e a abraçou, um abraço que parecia carregar décadas de saudade e palavras não ditas. Lúcia e Miguel observavam a cena com uma expectativa silenciosa. Naquele exato momento, o cheiro da feijoada, antes sinônimo de conforto, parecia prenunciar uma confusão ainda maior do que Zulmira jamais imaginara. O coração dela, que batia acelerado por Roberto, também batia com o pressentimento de que aquele sábado, como tantos outros em sua vida, seria tudo, menos tranquilo.

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