Coração na Feijoada (e na Confusão)

Capítulo 10 — O Sabor da Redenção e o Doce Amargo da Saudade

por Priscila Dias

Capítulo 10 — O Sabor da Redenção e o Doce Amargo da Saudade

A notícia da minha parceria com Roberto se espalhou pela vizinhança como um rastro de pólvora. Dona Florinda, a rainha das fofocas, pareceu ficar ligeiramente decepcionada por não ter mais um escândalo para destrinchar, mas logo encontrou novos ângulos para especular. A ideia de uma confeitaria, liderada por Lúcia, foi recebida com entusiasmo, um contraponto doce à fama da minha feijoada. Eu, Zulmira, sentia um misto de apreensão e uma leve, mas persistente, esperança. O caminho seria árduo, mas pela primeira vez em muito tempo, eu sentia que estava construindo algo novo, não apenas guardando as cinzas do passado.

Roberto, apesar da sua fragilidade física, demonstrava uma energia renovada. Ele se dedicava intensamente a aprender, a absorver cada detalhe da minha culinária, com uma humildade que me surpreendia. Ele passava horas na cozinha, anotando cada passo, cada tempero, com uma seriedade que me lembrava o jovem apaixonado que um dia conheci.

“Zulmira, você tem certeza que é essa quantidade de cominho?”, ele perguntava, a testa franzida em concentração, enquanto eu preparava o refogado da feijoada.

“Tenho, Roberto. O segredo não está na quantidade, mas no equilíbrio. Cada tempero tem o seu papel, e o cominho dá aquele toque terroso, sabe? Aquele que te transporta para a fazenda, para o cheiro de terra molhada depois da chuva.”

Ele assentia, anotando freneticamente em seu caderno. “Terra molhada… faz sentido. Eu sinto falta disso. Da simplicidade.”

Lúcia, por sua vez, mergulhou de cabeça no projeto da confeitaria. O espaço que antes era um antigo depósito nos fundos da casa, agora se transformava em um ateliê de delícias. As paredes ganharam um tom pastel suave, e as prateleiras foram preenchidas com formas, batedores e os mais variados ingredientes. O aroma de baunilha, chocolate e frutas frescas começou a perfumar a casa, um contraste acolhedor com o aroma robusto da feijoada.

“Mãe, olha esse glacê que eu inventei!”, Lúcia exclamou um dia, mostrando uma cobertura rosa vibrante. “É com framboesas frescas e um toque de limão siciliano. Acho que vai ficar perfeito para aqueles mini bolos que estamos planejando.”

Eu a observava com orgulho. Ver a minha filha realizar o seu sonho, transformar sua paixão em um negócio, era uma das maiores alegrias da minha vida. E o fato de ela estar fazendo isso ao lado do pai, mesmo que com certa cautela, era um bálsamo para as feridas antigas.

No entanto, a presença de Roberto em nossa rotina trazia consigo uma complexidade que eu não podia ignorar. Havia momentos de cumplicidade, de risadas compartilhadas enquanto preparávamos a comida. Mas também havia o silêncio, o peso das palavras não ditas, as lembranças de um tempo que não voltaria mais.

Uma tarde, enquanto eu e Roberto arrumávamos os ingredientes para a feijoada do final de semana, ele parou por um instante e me olhou.

“Zulmira”, ele disse, a voz embargada. “Eu preciso te dizer. Eu sinto muito. Sinto muito por tudo que você passou. Por ter sido um covarde. Por ter te deixado sozinha com a Lúcia.”

Eu o encarei, o coração apertado. “Roberto, já falamos sobre isso. O passado é passado. O que importa agora é o futuro que estamos construindo.”

“Mas eu não consigo esquecer”, ele insistiu. “A sua força, a sua dedicação… você sempre foi a mulher mais incrível que eu conheci. E eu fui um tolo por ter escolhido o caminho errado. Por ter me deixado levar pela ambição e pela Isabel.”

A menção de Isabel, mesmo que de passagem, ainda trazia um leve arrepio. Mas, naquele momento, não havia ressentimento. Havia apenas a compreensão de que ambos éramos seres falhos, que cometeram erros e que agora buscavam redenção.

“Isabel também me procurou”, eu confessei, surpreendendo a mim mesma. “Ela me mandou um álbum de fotos. E um bilhete. Ela também parece estar arrependida.”

Roberto assentiu, um leve sorriso melancólico nos lábios. “Ela sempre foi uma alma atormentada. Mas acho que, como nós, ela também está buscando paz.”

Enquanto isso, Dona Florinda e suas seguidoras estavam arquitetando um plano audacioso. Elas haviam decidido que a inauguração do restaurante e da confeitaria precisava de um toque especial, um evento digno de suas fofocas. E esse toque especial, ao que parecia, envolvia um concurso de feijoadas e de doces, onde elas, claro, seriam as juradas.

“Zulmira, minha querida!”, Dona Florinda anunciou um dia, invadindo a cozinha com seu perfume avassalador. “Nós, aqui da vizinhança, decidimos que essa inauguração precisa ser um evento! Vamos fazer um concurso, sabe? Um duelo de sabores! Você, com a sua feijoada lendária, e essa sua filha, com os seus doces… e nós, para julgar, claro! Para dar o nosso veredicto!”

Eu suspirei. Sabia que não adiantaria discutir. Dona Florinda e sua turma eram implacáveis. “E quem disse que eu quero participar desse concurso, Florinda?”

“Ah, minha querida! É o nosso jeito de dar boas-vindas! E um pouco de rivalidade faz bem para os negócios, não acha? E quem sabe, se a sua feijoada ganhar, isso não ajuda a espantar os maus espíritos que cercam esse seu novo empreendimento com o marido que voltou do além-mar?”, ela piscou, um brilho malicioso nos olhos.

Apesar da irritação, eu sabia que não podia recusar. Seria uma forma de mostrar a força do nosso trabalho e de Lúcia. E, quem sabe, de silenciar um pouco as línguas maldosas da vizinhança.

O dia da inauguração chegou. A rua estava decorada com bandeirinhas coloridas, e um burburinho de expectativa tomava conta do ambiente. Roberto, elegante em um terno que ele comprou com o dinheiro que economizou, recebia os convidados com um sorriso radiante. Lúcia, em seu vestido de chef, supervisionava a organização da confeitaria, irradiando confiança.

Eu, Zulmira, com o meu avental impecável, me sentia no paraíso. O aroma da minha feijoada, misturado ao doce perfume dos quitutes de Lúcia, preenchia o ar. O concurso, organizado por Dona Florinda e suas “juízas”, parecia uma encenação, mas a intenção era clara: testar os nossos limites.

A batalha de sabores começou. Eu preparei a minha feijoada com o cuidado e a paixão de sempre. Roberto, observando cada passo, estava mais concentrado do que nunca. Lúcia, em sua confeitaria, criava obras de arte comestíveis, cada doce uma explosão de sabor e cor.

Dona Florinda e sua comitiva provavam os pratos com seriedade fingida, cochichando entre si, fazendo anotações em seus cadernos. A tensão era palpável, mas eu, Zulmira, sentia uma paz interior que há muito não experimentava.

No final, a decisão foi anunciada. A feijoada de Zulmira foi declarada a vencedora, um reconhecimento do seu talento e da sua dedicação. A confeitaria de Lúcia também recebeu elogios unânimes, com a jovem sendo aclamada como uma promessa na arte da doçaria.

“Parabéns, Zulmira, você provou que a sua feijoada continua imbatível!”, Dona Florinda anunciou, com um sorriso forçado. “E você, Lúcia, essa sua doçura artificial… digo, natural… é de dar inveja!”

Enquanto os convidados celebravam, Roberto se aproximou de mim. Ele segurava uma pequena caixa de madeira.

“Zulmira”, ele disse, a voz embargada. “Eu quero te dar isso. É uma lembrança. Um presente.”

Abri a caixa, e lá dentro, encontrei um pequeno broche em formato de feijão, feito de ouro maciço, com um pequeno rubi no centro. Era uma joia delicada e significativa.

“Roberto… é lindo”, eu disse, emocionada.

“É uma forma de te agradecer. Por tudo. Por me dar uma segunda chance. Por me ensinar a verdadeira arte de cozinhar, e de viver.”

Naquele momento, olhei para Lúcia, que sorria para nós, um sorriso de paz e de felicidade. Olhei para Roberto, o homem que um dia me fez sofrer, mas que agora, com sua redenção, se tornava parte de um novo começo.

O caminho seria longo, e as feridas do passado talvez nunca se curassem completamente. Mas, naquele dia, entre o aroma da feijoada e o doce perfume dos quitutes de Lúcia, eu senti que a redenção era possível. E que, às vezes, o amor, mesmo com todo o seu drama e suas confusões, pode ser o tempero mais delicioso da vida. O coração na feijoada, finalmente, encontrava um sabor de esperança.

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