Coração na Feijoada (e na Confusão)

Coração na Feijoada (e na Confusão)

por Priscila Dias

Coração na Feijoada (e na Confusão)

Autor: Priscila Dias

Capítulo 16 — O Mistério do Bife à Parmegiana e o Pavor de um Desastre Culinário

O aroma de café fresco pairava no ar da cozinha de Dona Lurdes, misturando-se à expectativa que pairava mais densa que a fumaça da chapa. Clara, com os cabelos presos num coque frouxo e um avental que mais parecia uma tela em branco para futuras manchas de molho, observava a agitação. A feijoada, a joia da coroa de sua família, seria servida em poucas horas, e a ansiedade a corroía como um azedinho de limão na boca. O sucesso da receita, passada de geração em geração com o rigor de um juramento de família, era seu principal foco.

"Minha filha, não fique aí parada, feito estatua de museu", Dona Lurdes resmungou, mexendo o feijão com uma colher de pau que parecia ter vida própria. Seus olhos, penetrantes como espetinhos de uva, analisavam cada movimento da filha. "As couves precisam de atenção. Elas não se cortam sozinhas, sabe?"

Clara suspirou, tentando afastar o nervoso que lhe subia pela garganta. "Mãe, eu sei. Só estou… organizando meus pensamentos."

"Organizando pensamentos ou pensando em quem anda te tirando o sono?", Dona Lurdes sorriu maliciosamente, o canto dos lábios se curvando num gesto que Clara conhecia muito bem. Era o prenúncio de uma pergunta incômoda, disfarçada de preocupação materna.

"Mãe, por favor!", Clara exclamou, sentindo o rosto esquentar. "A feijoada é o importante agora."

"Ah, a feijoada", Dona Lurdes bateu a colher na panela, fazendo um som que ecoou pela cozinha. "Essa receita tem segredos que nem eu conto pra todo mundo. E você, minha filha, carrega a responsabilidade de honrar isso. Não é só cozinhar, é preservar a alma da nossa família."

Enquanto a mãe ditava o ritmo com sua sabedoria ancestral, o coração de Clara batia em compasso acelerado. Não era apenas a feijoada que a deixava inquieta. Era a sombra de Miguel, o chef de cozinha com olhos de avelã e um sorriso que desarmava até o mais frio dos corações. Desde o reencontro inesperado no bistrô dele, a vida de Clara havia se tornado uma montanha-russa de emoções. A admiração profissional se transformara em algo mais profundo, algo que ela tentava, em vão, catalogar e reprimir.

"E o almoço especial do bistrô, como está indo?", Dona Lurdes perguntou, mudando sutilmente de assunto, mas sem perder o fio da meada. "O Miguel me disse que você foi lá semana passada. E que ele está preparando um bife à parmegiana que faz os anjos chorarem de inveja."

O estômago de Clara deu um nó. O bife à parmegiana de Miguel. Aquele prato. Aquele que ela, em um momento de audácia e um pouco de vinho tinto, havia prometido replicar para sua família. Uma promessa impulsiva, feita na empolgação do reencontro, e que agora se materializava em um pesadelo culinário.

"Está… está indo", Clara murmurou, evitando o olhar da mãe. "Ele é um artista, mãe. Aquele molho… é algo que eu nunca vi igual."

"Artistas fazem arte, minha filha. Cozinheiros fazem comida", Dona Lurdes disse, com uma ponta de desdém, mas um brilho de curiosidade nos olhos. "Mas se você prometeu, precisa cumprir. E não me venha com desculpas esfarrapadas. Um bife à parmegiana é simples. É só pegar um bom corte, um molho de tomate fresco, queijo de verdade e forno na temperatura certa. Não é ciência de foguetes."

Simples para Dona Lurdes, que preparava um bife à parmegiana que era apenas um item secundário em seu vasto repertório culinário. Mas para Clara, que se via competindo com a memória de um prato que a havia deixado sem palavras, era um desafio monumental. A pressão não vinha apenas da família, mas da sua própria insegurança, amplificada pela presença constante de Miguel em seus pensamentos.

O celular de Clara vibrou sobre o balcão. Era uma mensagem de Miguel.

Miguel: Pensando em você. Espero que não esteja torturando nenhuma cebola hoje. :)

Um sorriso involuntário surgiu nos lábios de Clara. Ele sempre sabia o que dizer.

Clara: Torturando a minha própria sanidade com um bife à parmegiana, para ser exata.

A resposta de Miguel veio quase instantaneamente.

Miguel: Bife à parmegiana? Ah, minha querida Clara. Acha que pode me superar em casa? Que audácia! Estarei aí em breve para presenciar sua derrota gloriosa.

O coração de Clara deu um salto. Ele viria? Agora? Diante de Dona Lurdes?

"Quem é que te manda mensagens com tanta frequência?", Dona Lurdes perguntou, sem tirar os olhos do fogão. "Esse moço aí, que te faz sorrir feito boba?"

Clara sentiu o rosto corar novamente. "É o Miguel, mãe. Ele… ele disse que viria dar uma olhada na feijoada. E… e no meu bife à parmegiana."

Dona Lurdes parou de mexer o feijão e se virou para a filha, um misto de surpresa e aprovação no olhar. "O Miguel? Que bom! Ele é um moço de fino trato. E um excelente cozinheiro, não duvido. Quem sabe ele não te dá umas dicas, hein? Já que você está tão preocupada em não fazer feio."

Preocupada em não fazer feio era um eufemismo. Clara estava aterrorizada. Miguel, o mestre do bife à parmegiana, observando-a tentar recriar sua obra-prima. Era um teste de fogo, literal e figurativamente.

As horas seguintes foram um turbilhão. Clara se dedicou às couves, picando-as com uma precisão quase cirúrgica. Tentou se concentrar na receita da feijoada, seguindo as instruções da mãe à risca, mas sua mente vagava para o bistrô, para o sorriso de Miguel, para o aroma inebriante do seu molho. A preocupação com o bife à parmegiana a consumia. Ela havia comprado os melhores ingredientes: um filé mignon macio, um queijo mussarela fresco e um tomate italiano polpudo. Mas a receita dele era um segredo guardado a sete chaves.

Quando Miguel finalmente chegou, a cozinha já estava em pleno vapor. O aroma da feijoada, rica e envolvente, preenchia a casa. Ele entrou com um sorriso largo e um buquê de manjericão fresco em mãos.

"Cheguei para a degustação oficial", ele anunciou, com a voz rouca e cativante. Seus olhos encontraram os de Clara, e por um breve instante, o mundo pareceu parar. "E trago um ingrediente secreto para a sua salvação, Clara."

Ele estendeu o buquê de manjericão. Clara o pegou, sentindo a suavidade das folhas. "Manjericão? É para a feijoada?"

"Não, meu amor", Miguel disse, aproximando-se e tocando suavemente o rosto de Clara. "É para o seu bife à parmegiana. Um toque de frescor que vai fazer toda a diferença."

Dona Lurdes, que observava a cena com um sorriso discreto, suspirou. "Ah, o Miguel! Sempre com um truque na manga. Clara, aprenda com ele. A vida, como a cozinha, é feita de pequenos segredos e muita paixão."

Clara sentiu uma onda de alívio misturada com uma vertigem inesperada. Miguel estava ali, não para julgar, mas para ajudar. Talvez, apenas talvez, ela pudesse transformar aquele medo em um momento de conexão, um tempero a mais naquela feijoada que já prometia ser inesquecível. Mas a dúvida persistia: seria seu bife à parmegiana capaz de competir com a memória do dele? E, mais importante, seria seu coração capaz de resistir àquele chef com alma de poeta e mãos de artista?

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%