Coração na Feijoada (e na Confusão)

Capítulo 17 — A Saga do Bife à Parmegiana: Sabores em Conflito e um Passo em Falso

por Priscila Dias

Capítulo 17 — A Saga do Bife à Parmegiana: Sabores em Conflito e um Passo em Falso

A cozinha de Dona Lurdes, antes um palco de ansiedade para Clara, agora se transformara em um campo de batalha culinário, com Miguel como juiz e incentivador. O aroma da feijoada pairava no ar, forte e reconfortante, mas o verdadeiro desafio de Clara residia em uma assadeira no forno, um bife à parmegiana que suava sob uma camada de queijo derretido. O manjericão fresco que Miguel trouxera repousava sobre o balcão, um lembrete de sua intervenção e, ao mesmo tempo, uma promessa de frescor.

Dona Lurdes, com sua observação perspicaz, sentou-se à mesa da cozinha, um copo de vinho tinto em mãos, e observava cada movimento com a mesma atenção que dedicava a um bom livro. Miguel, com um sorriso confiante, encostou-se ao balcão, os braços cruzados, parecendo um crítico de arte aguardando a revelação de uma obra-prima.

"Então, Clara", Miguel começou, a voz suave como a seda, mas com um toque de provocação brincalhona. "Onde está o molho secreto que te faz dormir acordada?"

Clara sentiu um arrepio. Aquele molho. Aquele molho que ela havia provado no bistrô dele e que a havia deixado sem palavras. Ela o havia tentado recriar, seguindo instintos e algumas dicas vagas que Miguel havia deixado escapar em conversas anteriores. Mas a incerteza era sua única companheira.

"O molho… está no forno, com o bife", ela respondeu, a voz um pouco trêmula. "Usei tomates San Marzano, alho confitado, um toque de pimenta calabresa e… um segredinho meu."

Dona Lurdes deu um gole no vinho. "Segredinho, é? Que bom. A vida sem segredos é como um pastel sem recheio. Sem graça."

Miguel riu. "Adoro segredos, Clara. Mas tenho a impressão de que o seu segredo é a vontade de impressionar a mim. E a sua mãe, claro."

O rosto de Clara corou novamente. Era verdade. A competição com o prato de Miguel era o combustível para sua insegurança, mas a vontade de provar seu valor para a mãe e para ele era o que a impulsionava.

"Não é impressionar, Miguel. É… é fazer algo digno do seu paladar exigente", ela respondeu, tentando soar mais confiante do que se sentia.

Ela tirou a assadeira do forno. O vapor subiu, carregando um aroma rico e complexo. O queijo estava dourado e borbulhante, e o molho, de um vermelho intenso, parecia convidativo. Mas a dúvida ainda a assombrava. Seria aquele o sabor que ela lembrava?

"Vamos lá, então", Miguel disse, levantando-se e pegando um garfo. "Hora da verdade."

Ele pegou um pedaço do bife, o molho escorrendo delicadamente. Levou-o à boca, fechando os olhos por um instante. Clara prendeu a respiração. Dona Lurdes observava, com uma expressão indecifrável.

"Hummm", Miguel murmurou, os olhos ainda fechados. "O bife está macio. O queijo, perfeito. O molho… tem algo de diferente. Um toque… mais adocicado do que o meu."

Um calafrio percorreu Clara. Adocicado? O seu molho não era para ser adocicado. Ela havia usado um toque de açúcar para equilibrar a acidez do tomate, mas não achou que seria perceptível.

"É o toque do segredinho?", Dona Lurdes perguntou, com um brilho nos olhos.

"Talvez", Clara respondeu, tentando soar casual. "Usei um pouco mais de açúcar para realçar o sabor do tomate."

Miguel abriu os olhos, um sorriso intrigante no rosto. "Açúcar? Interessante. Eu prefiro um toque de vinagre balsâmico para a acidez. Dá uma complexidade diferente."

Clara sentiu uma pontada de frustração. Vinagre balsâmico. Por que ela não havia pensado nisso? Ela se sentia como uma amadora diante de um mestre.

"E o manjericão?", Dona Lurdes perguntou, apontando para o buquê. "Não vai usar?"

Clara havia esquecido completamente. Em meio à ansiedade do bife à parmegiana, o manjericão fresco que Miguel havia trazido para dar um toque final, havia ficado esquecido.

"Oh, céus!", Clara exclamou, sentindo o rosto esquentar. "Claro! Esqueci completamente!"

Ela rapidamente picou algumas folhas de manjericão fresco e espalhou sobre o bife. O aroma herbal se misturou ao do tomate e do queijo, criando uma nova camada olfativa.

"Melhorou", Miguel disse, pegando outro pedaço. "O frescor do manjericão complementa o molho. Mas ainda sinto falta daquela profundidade que o balsâmico traz."

Clara sentiu uma onda de decepção. Ela havia tentado, ela realmente havia tentado. Mas o resultado não era o que ela esperava. Miguel era um chef talentoso, e seu paladar era refinado. Ela, por outro lado, parecia ter um paladar mais… comum.

"Talvez eu não tenha nascido para fazer bife à parmegiana", ela murmurou, sentindo os olhos marejarem.

"Não diga isso!", Miguel disse, pegando a mão dela. "Você fez um bife à parmegiana delicioso, Clara. É diferente do meu, sim. Mais suave, talvez mais acessível. Mas isso não o torna inferior. Apenas… seu."

Dona Lurdes assentiu. "É isso mesmo, minha filha. A cozinha é como a vida. Cada um tem seu jeito, sua assinatura. O importante é o amor que você coloca em cada preparo."

Clara olhou para o bife à parmegiana, para o molho que ela havia criado, para o manjericão fresco que Miguel havia trazido. Era o seu prato, com suas imperfeições, com seu toque pessoal. E, de repente, ela percebeu que Miguel não estava ali para julgar, mas para compartilhar, para inspirar.

"Obrigada, Miguel", ela disse, sentindo um nó se desfazer em sua garganta. "Por tudo. Por vir, por… por não me deixar desistir."

Miguel sorriu, e seus olhos brilharam com uma intensidade que fez o coração de Clara disparar. "Nunca te deixaria desistir, Clara. Especialmente quando se trata de algo que você se importa tanto."

Ele se aproximou e depositou um beijo suave na testa dela. O gesto foi simples, mas carregado de significado. Clara sentiu um calor se espalhar por todo o corpo. Talvez a feijoada fosse o prato principal, mas aquele bife à parmegiana, com suas falhas e seus acertos, havia se tornado um marco. Um marco na sua jornada culinária, e talvez, apenas talvez, um marco em seu coração.

No entanto, enquanto a família começava a se reunir para a tão esperada feijoada, Clara não conseguia deixar de pensar em uma coisa: enquanto ela se dedicava ao bife à parmegiana, havia se esquecido completamente do acompanhamento principal de sua família – as couves refogadas. E, pelo cheiro que começava a emanar da panela, algo estava muito errado. Um cheiro de queimado, sutil no início, mas que rapidamente ganhava força. Um pavor gelado a tomou. Ela havia deixado as couves no fogo alto, e elas estavam queimando. Um desastre iminente, bem no meio da sua tão aguardada celebração familiar. O drama da novela brasileira, mais uma vez, não dava trégua.

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