Coração na Feijoada (e na Confusão)
Capítulo 2 — O Encontro das Duas Mulheres e a Tensão no Ar
por Priscila Dias
Capítulo 2 — O Encontro das Duas Mulheres e a Tensão no Ar
O abraço entre Zulmira e Roberto se desfez lentamente, deixando um rastro de emoções pairando no ar. Roberto a olhava com uma intensidade que fazia Zulmira sentir o calor subir ao rosto, como se fosse uma garota novamente. A mulher elegante ao seu lado, com um leve sorriso nos lábios, observava a cena com uma postura polida, quase calculada.
"Roberto, que bom que você veio. Essa é minha filha, Lúcia. E o Miguel, meu neto", Zulmira apresentou, a voz um pouco trêmula.
Roberto voltou-se para Lúcia e Miguel, estendendo a mão para Lúcia primeiro. "Lúcia, minha querida. É uma honra conhecê-la. Sua mãe fala muito de você." Ele a olhou com uma gentileza genuína, mas Lúcia sentiu uma estranha necessidade de se manter na defensiva.
"Senhor Roberto, o prazer é meu", Lúcia respondeu, apertando a mão dele com firmeza. Ela o analisou: o terno bem cortado, o relógio de ouro no pulso, o cheiro discreto de um perfume caro. Ele era o tipo de homem que parecia ter o mundo aos seus pés. Algo nela a incomodava. Talvez fosse a maneira como ele olhava para a mãe, com uma familiaridade que a deixava desconfortável.
Em seguida, Roberto se virou para Miguel, que o cumprimentou com um aceno de cabeça descontraído, mais interessado em como a tinta azul em suas mãos poderia inspirar uma nova tela. "E você deve ser o artista da família. Sua avó me contou sobre suas obras. Fico feliz em ver que o talento corre nas veias", disse Roberto, com um sorriso.
Miguel sorriu de volta, sentindo-se menos pressionado do que esperava. "Obrigado, senhor Roberto. Vovó é a melhor incentivadora, mesmo que às vezes me sugira vender por preços que eu nem consigo cobrir o material."
Zulmira deu uma risadinha. "Bobagem, meu filho! O que eu quero é que você viva do seu talento."
Agora era a vez de Zulmira apresentar a acompanhante de Roberto. Ela hesitou por um instante, sem saber exatamente qual seria o papel daquela mulher em sua vida. "E esta é... quem é a senhora, por favor?"
A mulher deu um passo à frente, seu sorriso se alargando ligeiramente. Seus olhos, de um azul penetrante, varreram Zulmira de cima a baixo, com uma discrição que soou quase como um julgamento. "Isabel. Isabel Montenegro", ela disse, sua voz melodiosa, mas com um tom de frieza que não passou despercebido. "Sou... amiga de Roberto. Estamos viajando juntos."
Amiga. A palavra ecoou na mente de Zulmira. A forma como Roberto a apresentou, a proximidade entre eles... Amiga soava como um eufemismo elegante. Lúcia, atenta, percebeu a mesma tensão sutil que emanava de sua mãe.
"Ah, Isabel. Bem-vinda à nossa casa", Zulmira disse, tentando manter um tom cordial, mas a surpresa e a leve pontada de ciúme já haviam roubado a espontaneidade. Ela convidou todos para se sentarem na sala de estar, um cômodo aconchegante, repleto de fotos de família e objetos que contavam a história de sua vida.
A feijoada estava quase pronta. O cheiro agora se misturava com o perfume caro de Isabel e o aroma mais rústico de tinta em Miguel. O contraste era gritante. Enquanto Zulmira servia os petiscos e a caipirinha, ela tentava puxar assunto, mas a conversa parecia forçada. Roberto parecia animado em falar de suas viagens, de suas experiências, mas a presença de Isabel criava uma barreira invisível.
"Zulmira, lembro-me de como você fazia essa feijoada... era a melhor do mundo. Sinto falta disso", disse Roberto, olhando para ela com uma ternura que fez o coração de Zulmira acelerar.
Isabel sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos. "Meu caro Roberto, você fala dessa feijoada como se fosse um tesouro nacional. Devo confessar que estou curiosa."
"E você, Isabel, cozinha?", perguntou Zulmira, querendo desviar o foco.
"Ah, eu tenho uma chef pessoal para essas coisas", Isabel respondeu com um encolher de ombros, como se fosse a coisa mais natural do mundo. "Não tenho muito tempo para essas tarefas domésticas. Minha vida é mais voltada para os negócios."
Lúcia olhou para a mãe, que preparava a mesa com um empenho que revelava uma certa ansiedade. A mãe, que sempre fora a rainha da cozinha, que dedicava horas à feijoada de sábado, que fazia tudo com amor e dedicação. E ali estava Isabel, com sua chef pessoal, desdenhando das "tarefas domésticas".
"Mãe, posso te ajudar com os últimos preparativos?", Lúcia ofereceu, querendo sair daquela sala de estar desconfortável.
"Claro, minha filha. Leve essa travessa de couve para a mesa", Zulmira respondeu, aliviada.
Na cozinha, o clima era mais leve. "Vovó, você parece um pouco... tensa. Por causa dele?", Miguel perguntou, com a inocência que só os jovens possuem.
Zulmira suspirou, jogando a couve refogada na travessa. "Não é isso, meu anjo. É só que... ele mudou muito. E essa mulher... Isabel. Não sei o que ela é dele. Mas ela não me inspira confiança."
"Ela parece o tipo de mulher que usa você para chegar a alguém", Miguel comentou, observando um tom de tinta azul que havia manchado um pequeno espelho na parede.
"Não fale assim, Miguel. Ele veio aqui, não é? Deve ter um motivo", Zulmira disse, embora a esperança em suas palavras fosse tênue.
Na sala, Roberto tentava puxar assunto com Lúcia. "Sua mãe é uma mulher incrível, não é? Sempre soube disso."
Lúcia o olhou nos olhos. "Sim, ela é. E ela merece o melhor." Havia uma indireta clara na sua voz, que Roberto pareceu captar.
Isabel, com um copo de vinho na mão, observava a cena com um sorriso discreto. Ela se aproximou de Roberto e pousou a mão em seu braço. "Querido, não vamos monopolizar a conversa. A dona Zulmira preparou uma festa para nós."
Roberto tirou a mão de Isabel do seu braço, com um gesto sutil, mas que Zulmira notou. "Claro, Isabel. Estávamos apenas conversando." Ele se voltou para Zulmira. "Zulmira, a feijoada está pronta? Estou morrendo de fome."
Finalmente, a hora do almoço chegou. Sentaram-se à mesa, um banquete de sabores e texturas, cores vibrantes que contrastavam com a tensão palpável. A feijoada, com seus acompanhamentos fartos – arroz branco, farofa crocante, torresmo pururuca, vinagrete fresco –, era um espetáculo à parte.
Enquanto comiam, a conversa fluía com mais naturalidade, mas sempre com um subtexto. Roberto elogiava a comida, a casa, a companhia. Isabel, por outro lado, parecia mais interessada em observar do que em participar. Lúcia, por sua vez, mantinha uma postura de observadora atenta, defendendo a mãe com um olhar ou uma palavra quando sentia que era necessário.
"Roberto, por que você voltou?", Zulmira perguntou, de repente, a pergunta que pairava no ar desde que ele entrara na casa.
Roberto pousou o garfo, seu olhar encontrando o de Zulmira. "Eu... eu senti falta. Senti falta daqui, senti falta de você, Zulmira." A sinceridade em sua voz era inegável, mas a presença de Isabel ao seu lado tornava tudo mais complicado.
Isabel pegou um guardanapo e limpou os lábios delicadamente. "Roberto tem um projeto aqui na cidade, um investimento imobiliário. Decidi acompanhá-lo. É sempre bom estar perto de quem a gente gosta", ela disse, com um sorriso que parecia forçado.
O coração de Zulmira afundou um pouco. Um projeto imobiliário. Investimento. Isso significava que ele não estava ali por acaso, ou, pelo menos, não só por ela. Lúcia apertou os lábios, entendendo a mensagem. Miguel, alheio à complexidade das relações humanas, estava mais focado em se deliciar com o torresmo.
A feijoada, que deveria ser um momento de celebração e reencontro, havia se transformado em um palco de revelações sutis e tensões veladas. Zulmira, com o coração dividido entre a alegria do reencontro e a angústia da incerteza, sentiu o peso daquele sábado cair sobre seus ombros. O aroma da feijoada, antes um convite à felicidade, agora parecia carregar o cheiro de uma confusão que estava apenas começando.