Coração na Feijoada (e na Confusão)

Capítulo 3 — O Projeto de Roberto e a Sombra de Isabel

por Priscila Dias

Capítulo 3 — O Projeto de Roberto e a Sombra de Isabel

O peso das palavras de Isabel pairava sobre a mesa como uma nuvem escura. "Um projeto aqui na cidade, um investimento imobiliário." Para Zulmira, o sonho de um reencontro sereno se esvaía, substituído pela dura realidade de que Roberto não estava apenas ali por nostalgia. Lúcia sentiu a decepção da mãe e a observou discretamente, a mandíbula levemente tensa. Miguel, imerso em sua própria análise da composição artística da feijoada, permanecia alheio à tempestade emocional que se formava.

"Um investimento, você diz?", Zulmira perguntou, tentando manter a voz firme, mas uma ponta de melancolia se infiltrava. "Que tipo de investimento, Roberto?"

Roberto deu um suspiro, um misto de resignação e um leve descontentamento com a intromissão de Isabel. "Um projeto cultural, na verdade. Um centro de artes e cultura. Sabe, eu me lembro do seu amor por música, Zulmira. E do quanto você sempre apoiou o Miguel. Pensei que seria algo que nos interessaria a todos." Ele olhou para Miguel, um brilho de genuíno interesse em seus olhos. "Queria resgatar um pouco da alma artística que essa cidade tem perdido."

Miguel ergueu os olhos, a atenção subitamente capturada. "Um centro de artes? Que legal! Vai ter exposições, oficinas, shows?", ele perguntou, a voz cheia de entusiasmo.

"Exatamente, meu jovem. A ideia é ter um espaço vibrante, um lugar para novos talentos e para a valorização da cultura local", Roberto respondeu, sorrindo para Miguel. Era evidente que ele se sentia mais à vontade falando sobre o projeto com o neto de Zulmira do que com a própria Zulmira naquele momento.

Isabel interferiu, sua voz suave, mas com um tom de autoridade. "Roberto tem investido pesado nesse projeto. Ele tem uma visão incrível, mas precisa de pessoas que entendam do mercado para torná-lo viável. Por isso, eu o acompanho." Ela lançou um olhar significativo para Roberto, que suspirou novamente.

Zulmira sentiu uma pontada de dor. Roberto, o homem que ela amara, que sonhara em reencontrar, estava ali com outra mulher, envolvido em negócios que a deixavam de fora. Era como se a vida estivesse se repetindo, apenas com papéis diferentes. Ela, que sempre fora a dona de casa dedicada, a base da família, agora se sentia obsoleta, uma relíquia do passado diante da modernidade de Isabel e dos negócios de Roberto.

"Entendo", Zulmira disse, o tom resignado. "Parece um projeto ambicioso."

"É mesmo", Isabel concordou, pegando um pedaço de torresmo. "Mas com o talento de Roberto e a minha experiência em gestão, tenho certeza que será um sucesso estrondoso." Ela lançou um olhar para Zulmira, um olhar que transmitia uma mensagem clara: ela estava no controle.

Lúcia percebeu a mudança no semblante da mãe. A alegria inicial havia se dissipado, substituída por uma melancolia disfarçada. Ela decidiu intervir, tentando aliviar a tensão. "E o senhor pretende morar aqui por quanto tempo, Roberto?"

Roberto hesitou por um momento. "Ainda não tenho certeza. O projeto exigirá tempo e dedicação. Talvez alguns meses, talvez mais. Depende de como as coisas se desenrolarem."

"E a senhora, Isabel? Pretende ficar por aqui também?", Lúcia perguntou, com a curiosidade que agora se tornava mais assertiva. Ela queria entender a dinâmica entre eles.

Isabel sorriu. "Onde Roberto for, eu vou. Somos parceiros em tudo." Ela apertou a mão de Roberto, que aceitou o gesto com um leve aperto de mão, sem muito entusiasmo.

A conversa, a partir daí, voltou-se para o projeto, para os planos de Roberto. Miguel se empolgou com as ideias, fazendo perguntas sobre arquitetura e arte. Zulmira, por outro lado, se retraiu um pouco, servindo mais, ouvindo mais, participando menos. Ela observava Roberto, tentando encontrar o homem que conhecera, o romântico que falava de estrelas, mas encontrava um empresário calculista, acompanhado por uma mulher que parecia ter o controle de tudo.

Após o almoço, quando Zulmira começou a recolher a mesa, Isabel se ofereceu para ajudar. "Deixe que eu lavo a louça, dona Zulmira. Tenho uma equipe que me ajuda com essas coisas, mas gosto de fazer às vezes. É uma forma de relaxar."

Zulmira a olhou, surpresa. "Não, não se preocupe, Isabel. Eu me encarrego disso. É o meu lar."

"Oh, mas eu insisto", Isabel disse, com um sorriso insistente. "Seria um prazer." Ela já se dirigia à cozinha, com uma desenvoltura que parecia um pouco forçada.

Lúcia e Miguel se entreolharam, sem saber o que dizer. Zulmira, sentindo-se invadida em seu próprio espaço, mas sem querer criar uma cena, apenas assentiu. "Tudo bem, se insiste."

Na cozinha, enquanto Isabel supostamente "lavava a louça" com uma eficiência quase robótica, ela observava Zulmira com um olhar penetrante. "Sabe, dona Zulmira", ela começou, com um tom casual, "Roberto e eu temos uma história longa. Não apenas negócios. Nossas vidas se entrelaçam há muito tempo."

Zulmira parou de secar a última travessa. O coração disparou. "História longa?", ela repetiu, a voz um fio.

"Sim. Compartilhamos muitos momentos, muitas conquerdas. Ele é um homem... especial. E eu sou a mulher que o entende. A mulher que o acompanha em suas ambições. A mulher que está ao lado dele em tudo." Isabel sorriu, um sorriso vitorioso.

Zulmira sentiu o chão sumir sob seus pés. Aquela mulher, com sua elegância fria e suas palavras calculadas, estava deixando claro seu lugar ao lado de Roberto. Ela não era uma "amiga", era algo mais. Era a companheira, a parceira, a mulher que compartilhava não só os negócios, mas a vida dele.

"Eu... eu não sabia", Zulmira gaguejou, tentando disfarçar a dor que a atingia em cheio.

Isabel deu de ombros, como se a informação fosse insignificante. "Roberto é um homem reservado. Mas, para mim, ele sempre foi transparente." Ela parou de mexer na água com sabão e olhou diretamente para Zulmira. "Não se preocupe, dona Zulmira. Eu sei que você tem um carinho especial por ele. Mas o tempo passa, as pessoas mudam. E Roberto e eu estamos em um momento muito importante de nossas vidas. Um momento de consolidação."

Aquelas palavras foram como facas. Consolidação. Roberto e Isabel consolidados. Zulmira sentiu um nó na garganta, uma vontade desesperada de chorar, de gritar, de fugir. Ela se virou para a pia, disfarçando a emoção, e continuou a secar as louças com movimentos bruscos.

Quando Roberto e Isabel se despediram, a despedida foi breve e formal. Roberto abraçou Zulmira rapidamente, um abraço que parecia mais um dever do que um desejo. "Até breve, Zulmira. E obrigado por tudo."

Isabel apertou a mão de Zulmira com firmeza. "Foi um prazer, dona Zulmira. Espero que possamos nos ver mais vezes. Quem sabe em algum evento do centro de artes?"

Após eles partirem, um silêncio pesado pairou na casa. Zulmira ficou parada na cozinha, as mãos molhadas, o olhar perdido no vazio. Lúcia se aproximou e a abraçou.

"Mãe, você está bem?", Lúcia perguntou, a voz cheia de preocupação.

Zulmira se deixou envolver pelo abraço da filha. "Não sei, minha filha. Acho que... acho que me enganei." As lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto, lágrimas de decepção, de dor, de solidão.

Miguel, vendo o estado da avó, aproximou-se e a abraçou também. "Não se preocupe, vovó. A feijoada estava deliciosa. E o senhor Roberto não sabe o que perdeu por ter se afastado de você."

Zulmira sorriu entre as lágrimas. O amor de seus filhos, de seu neto, era um bálsamo para sua alma ferida. Mas a imagem de Isabel, com seu sorriso triunfante e suas palavras cruéis, não saía de sua mente. O projeto de Roberto, o centro de artes, a presença daquela mulher... tudo parecia conspirar contra a felicidade que ela tanto ansiava. A feijoada de sábado, que deveria ser um banquete de alegria, havia se tornado um banquete de dor, e o coração de Zulmira, mais uma vez, sentia o peso da desilusão.

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