Coração na Feijoada (e na Confusão)
Capítulo 4 — A Visita Inesperada de Roberto e o Dilema de Zulmira
por Priscila Dias
Capítulo 4 — A Visita Inesperada de Roberto e o Dilema de Zulmira
O domingo amanheceu com um céu cinza e uma brisa fria que parecia refletir o estado de espírito de Zulmira. A casa ainda exalava o aroma tênue da feijoada de sábado, mas para ela, o cheiro agora carregava um gosto amargo de decepção. As palavras de Isabel ecoavam em sua mente, um lembrete cruel de que o homem que ela idealizara havia mudado, ou talvez, nunca tivesse sido exatamente o que ela imaginara.
Ela tentava se ocupar, arrumando a casa, regando as plantas, mas sua mente vagava, voltando sempre para Roberto. Aquele reencontro, tão esperado, se transformara em um turbilhão de sentimentos complexos. A paixão juvenil que ela pensava ter ressurgido, agora se misturava com a mágoa pela presença de Isabel e a incerteza sobre o futuro.
Por volta do meio-dia, o telefone tocou. Zulmira atendeu com certa apreensão.
"Alô?", ela disse, a voz um pouco hesitante.
"Zulmira? Sou eu, Roberto", a voz dele soou do outro lado da linha, um pouco mais suave do que no dia anterior.
O coração de Zulmira deu um pulo. "Roberto! Que surpresa. Aconteceu alguma coisa?"
"Não, nada de grave. Eu só... eu queria me desculpar", ele disse, e Zulmira sentiu um nó se formar na garganta. "Desculpar por tudo. Pela forma como as coisas se apresentaram ontem. Pela Isabel. Ela pode ser... intensa."
Zulmira sorriu ironicamente. Intensa era um eufemismo para calculista e invasiva. "Não se preocupe, Roberto. Eu entendo. Você tem seus compromissos."
"Não é bem assim", ele insistiu. "Eu queria ter tido mais tempo para conversar com você ontem, sem rodeios. A Isabel é uma parceira nos negócios, sim, mas... as coisas são mais complicadas do que parecem."
O tom de Roberto a intrigou. Havia uma urgência em sua voz, uma necessidade de explicar que a fez se sentir um pouco mais esperançosa. "Mais complicadas como, Roberto?"
"Olha, eu sei que você não deve estar entendendo nada. Mas eu voltei para cá com um propósito. E, sim, o projeto do centro de artes é uma parte importante disso. Mas eu também queria... queria resolver algumas coisas do passado. E, principalmente, queria te ver." Ele fez uma pausa. "Você é muito importante para mim, Zulmira. Sempre foi."
As palavras dele atingiram Zulmira como um raio. Importante. Sempre foi. Ela sentiu a esperança renascer, um sentimento perigoso que a fazia se sentir vulnerável. "Mas e a Isabel, Roberto? Ela disse que vocês têm uma história longa, que compartilham tudo."
Roberto suspirou. "A Isabel... ela faz parte da minha vida profissional, Zulmira. E sim, nós temos uma história. Mas não é a história que você está pensando. Ela é... ela é ambiciosa. E eu, às vezes, me deixo levar pelas conveniências. Mas o que eu sinto por você, Zulmira, isso é diferente."
Zulmira sentiu um misto de alívio e confusão. A explicação de Roberto era plausível, mas a imagem de Isabel, com seu sorriso confiante, ainda a assombrava. "Eu não sei o que dizer, Roberto."
"Não diga nada agora. Eu só queria que soubesse. Que eu não vim apenas por causa de um projeto. Eu vim por você. E eu gostaria de ter a chance de te mostrar isso. De conversar com calma. Talvez um café? Amanhã, na cafeteria do centro?"
O convite era tentador. A possibilidade de ter uma conversa franca com Roberto, de entender o que estava acontecendo, era algo que Zulmira não podia recusar. Mas a presença de Isabel, a sombra dela, era um obstáculo. "Não sei se é uma boa ideia, Roberto. A Isabel..."
"Ela não vai saber. Eu darei um jeito. Por favor, Zulmira. Uma hora. Só isso." A súplica em sua voz era genuína.
Zulmira cedeu. "Tudo bem. Uma hora. Na cafeteria do centro, amanhã, às três da tarde."
"Obrigado, Zulmira. De verdade. Isso significa muito para mim."
A ligação terminou, deixando Zulmira com o coração acelerado e a mente em turbilhão. Ela havia aceitado o convite de Roberto, mas a ansiedade a consumia. O que eles iriam conversar? Ele realmente a amava? E o que fazer sobre Isabel?
Naquela noite, Zulmira mal conseguiu dormir. Ela se revirava na cama, os pensamentos correndo em círculos. Ela amava Roberto desde a adolescência. A separação havia sido um golpe duro, e o reencontro, mesmo com todos os contratempos, reacendera a chama. Mas o que era essa chama agora? Era um amor verdadeiro, ou apenas a nostalgia de um passado idealizado?
No dia seguinte, Zulmira se arrumou com um cuidado especial. Escolheu um vestido que sabia que Roberto gostava, fez um penteado simples, mas elegante. A cafeteria do centro era um lugar charmoso, com mesas de madeira clara e o aroma de café recém-passado.
Quando chegou, Roberto já estava lá, sentado a uma mesa no canto, um sorriso discreto no rosto ao vê-la. Ele se levantou e a cumprimentou com um abraço caloroso, um abraço que parecia mais sincero do que o de ontem.
"Que bom que você veio, Zulmira", ele disse, puxando uma cadeira para ela.
"Eu também estou feliz em estar aqui, Roberto", ela respondeu, sentindo um certo alívio ao ver a sinceridade em seus olhos.
Eles pediram café e sentaram-se a conversar. Roberto falou sobre sua vida, sobre as viagens, sobre os desafios. E, finalmente, ele falou sobre ela.
"Zulmira, eu nunca te esqueci. Mesmo depois de tantos anos, de tantas experiências, você sempre esteve na minha memória. Eu me separei da Isabel há alguns meses. Ela era... ela era diferente. Focada em poder, em dinheiro. Eu me perdi um pouco no caminho, confesso. E quando eu soube que você estava livre, que estava sozinha... eu senti que tinha que vir. Que tinha que tentar. Tentar recuperar o tempo perdido. Tentar recuperar o que eu sinto por você."
As palavras dele eram um bálsamo para a alma de Zulmira. Ela o olhava, tentando decifrar a verdade em seus olhos, e encontrava uma sinceridade que a tocava profundamente. "Roberto, eu... eu também nunca te esqueci. Mas o tempo passou. E eu construí uma vida. Uma vida que, às vezes, me pareceu solitária, mas que tem seus valores."
"Eu sei, Zulmira. E eu respeito isso. Mas eu queria te pedir uma chance. Uma chance de te provar que o que eu sinto é real. Que eu quero um futuro com você."
O dilema se apresentava claro diante de Zulmira. De um lado, a segurança de sua vida atual, a tranquilidade de sua rotina. De outro, a incerteza, a paixão reacendida, o amor de sua juventude que voltava para assombrá-la e seduzi-la.
"Roberto, eu não sei se posso. É muita coisa para absorver. E a Isabel..."
"A Isabel não é mais um problema, Zulmira. Ela é o meu passado. Você é o meu futuro. Se você me der uma chance."
Zulmira o olhou, os olhos marejados. A paixão que ela sentia era inegável, um fogo que ardia em seu peito há décadas. Mas o medo da decepção, da dor, a deixava hesitante. Ela era uma mulher de fé, e sabia que Deus tinha um plano para ela. Mas qual seria esse plano? Era Roberto esse plano? Ou ele era apenas mais uma prova, um teste para sua força e resiliência?
"Eu preciso pensar, Roberto", ela disse, a voz embargada. "É uma decisão importante."
Roberto segurou a mão dela sobre a mesa. "Eu entendo. Mas saiba, Zulmira, que eu estou aqui. E que eu vou esperar. Porque você vale a pena. Você sempre valeu a pena."
Ao sair da cafeteria, Zulmira sentia o peso da decisão. O futuro se apresentava incerto, mas, pela primeira vez em muito tempo, havia um raio de esperança em seu coração. O amor de sua juventude, com todas as suas complicações, havia retornado. E agora, ela precisava decidir se estava pronta para arriscar tudo por ele. O aroma do café, antes reconfortante, agora parecia carregar o cheiro de um futuro possível, um futuro que ela precisava construir com coragem e fé.