Coração na Feijoada (e na Confusão)

Capítulo 5 — A Confissão de Lúcia e a Decisão Difícil

por Priscila Dias

Capítulo 5 — A Confissão de Lúcia e a Decisão Difícil

O convite de Roberto ecoava na mente de Zulmira como uma melodia agridoce. A promessa de um futuro, a chance de reviver um amor antigo, tudo parecia tentador e assustador ao mesmo tempo. Ela se sentia dividida, presa entre a segurança do presente e a sedução de um passado que se recusava a morrer. No dia seguinte, enquanto preparava o café da manhã, Lúcia chegou, com o semblante preocupado.

"Mãe, preciso conversar com você", Lúcia disse, sentando-se à mesa da cozinha, o cheiro de café fresco pairando no ar.

Zulmira a observou, percebendo a seriedade em seus olhos. "O que foi, minha filha? Você parece aflita."

Lúcia tomou um gole de café, hesitante. "Mãe, eu preciso te contar uma coisa. Algo que guardei por muito tempo. E que tem a ver com você, com o papai Antônio, e com o Roberto."

Zulmira sentiu um arrepio. A menção de Antônio e Roberto juntas causou um nó em seu estômago. "O que você quer dizer, minha filha?"

"Lembra quando o papai Antônio ficou doente, antes de... antes de partir?", Lúcia começou, a voz embargada. Zulmira assentiu, o coração apertando. "Naquela época, o Roberto voltou para o Brasil. Ele e o papai eram amigos muito próximos, você sabe. E quando o papai soube que ele estava aqui, ele pediu para você ir ao encontro dele. Para que pudessem conversar, para que o Roberto pudesse se despedir."

Zulmira se lembrava vagamente. Antônio sempre fora um homem compreensivo, e sabia que a amizade dele com Roberto era forte. "Sim, eu lembro. Mas eu não fui. Eu estava tão focada em cuidar do seu pai..."

"Eu sei, mãe. Mas o papai Antônio ficou muito chateado. Ele sentiu que você não deu a ele o último desejo. E... e a Isabel. Ela veio com o Roberto na época. E ela ficou muito amiga do papai Antônio. Ela passava horas conversando com ele, quando você não podia. Ela o consolava. Ela... ela se aproximou dele de um jeito que me incomodava muito."

Zulmira olhou para a filha, chocada. Isabel? Amiga de Antônio? "Como assim, Lúcia? Eu não sabia de nada disso."

"Eu sei, mãe. E me sinto péssima por não ter te contado antes. Mas eu era jovem, e estava confusa. Eu via a Isabel com o papai, e o Roberto com ela, e você tão dedicada ao papai. Eu sentia que algo estava errado. E quando o papai partiu, a Isabel continuou vindo. Ela parecia... ela parecia ter um interesse em mim, em você. Em saber da nossa vida. Eu sempre desconfiei dela. E agora, vendo ela com o Roberto de novo, me fez pensar..."

Lúcia parou, respirando fundo. "Mãe, eu acho que a Isabel está manipulando o Roberto. Ela se aproximou do papai Antônio para ganhar a sua confiança, para ter acesso a você e a mim. E agora, ela está fazendo o mesmo com o Roberto. Ela quer o dinheiro dele, o projeto dele. E eu não quero que ela te machuque de novo."

As palavras de Lúcia atingiram Zulmira como um raio. Isabel, manipuladora, se aproximando de Antônio... Aquele homem que ela amara, que fora seu porto seguro, havia sido usado, de alguma forma, por aquela mulher. A revelação era chocante e dolorosa.

"Lúcia, você tem certeza do que está falando?", Zulmira perguntou, a voz trêmula.

"Tenho, mãe. Eu vi. A forma como ela age, como ela fala. Ela é calculista. E eu não quero que você se iluda com o Roberto, porque ele pode estar sendo enganado pela Isabel. E isso vai te machucar muito."

Zulmira sentiu o chão se abrir sob seus pés. A esperança que Roberto havia despertado em seu coração começou a se transformar em medo e desconfiança. Se Lúcia estava certa, se Isabel estava manipulando Roberto, então a chance de um futuro com ele poderia ser apenas uma ilusão perigosa.

"Mas ele disse que se separou dela, Lúcia. Que ela é apenas uma parceira nos negócios."

"Mãe, ela disse que são parceiros em tudo. E se ela é tão manipuladora, ela pode estar fazendo ele pensar que é só um negócio. Ele sempre foi um homem bom, mas às vezes, ele é um pouco ingênuo em relação a certas coisas. E a Isabel sabe como jogar com isso."

O dilema de Zulmira se tornou ainda mais complexo. Ela amava Roberto, o homem de sua juventude, o sonhador. Mas o Roberto que ela via agora era um homem envolvido em negócios, em projeções, e possivelmente, manipulado por uma mulher astuta. A confissão de Lúcia a fez repensar tudo. A paixão que ela sentia, a esperança de um reencontro feliz, tudo poderia ser uma armadilha.

Ela olhou para a filha, que a observava com um amor profundo e uma preocupação genuína. Lúcia estava protegendo-a, como sempre. E, pela primeira vez, Zulmira sentiu que precisava ouvir a intuição de sua filha.

"Eu não sei o que fazer, Lúcia", Zulmira confessou, as lágrimas rolando pelo rosto. "Eu sinto algo por ele. Algo que não sentia há muito tempo. Mas se você está certa... se ele está sendo enganado..."

"Mãe, você é uma mulher forte. Você construiu uma vida linda. Não deixe que a ambição de uma mulher como a Isabel ou a ingenuidade de um homem como o Roberto destruam isso. Se ele realmente te ama, ele vai entender. Ele vai provar isso para você."

Zulmira abraçou a filha com força. Aquele abraço era um refúgio, um porto seguro em meio à tempestade. Ela sabia que precisava tomar uma decisão. Uma decisão que afetaria o resto de sua vida.

Mais tarde naquele dia, Zulmira encontrou o número de Roberto em seu celular. Ela respirou fundo, o coração batendo forte. Ela precisava ser honesta, com ele e consigo mesma.

"Alô?", Roberto atendeu, a voz soando animada. "Zulmira! Que bom ouvir você."

"Roberto, eu... eu preciso conversar com você", Zulmira disse, a voz firme, mas com uma ponta de tristeza.

"Claro, querida. O que foi? Algum problema?"

"Eu recebi uma informação. Uma informação que me fez pensar muito. Sobre você, sobre a Isabel, e sobre o passado." Ela hesitou, reunindo coragem. "Eu soube que a Isabel teve um envolvimento com o papai Antônio, enquanto ele estava doente. E que ela se aproximou de nós naquela época. E agora, eu desconfio que ela possa estar te manipulando."

Houve um silêncio longo do outro lado da linha. Zulmira sentiu um frio na espinha.

Finalmente, Roberto falou, a voz tensa. "Zulmira, isso não é verdade. A Isabel era amiga do Antônio, sim. Ela o visitava quando eu não podia. Mas não era nada mais que amizade. E ela não está me manipulando. Nosso projeto é sério."

"Mas ela disse que são parceiros em tudo, Roberto! E Lúcia tem certeza do que viu", Zulmira insistiu, a voz embargada pela emoção.

"Lúcia... ela sempre desconfiou da Isabel, não é? Mesmo quando ela estava apenas sendo gentil com o seu marido. Sabe, Zulmira, às vezes, as pessoas veem o que querem ver. E eu entendo que você possa desconfiar. Mas eu te garanto, eu nunca deixei de te amar. E eu me separei da Isabel faz tempo. Ela é apenas uma parceira de negócios. E o projeto é meu, não dela."

As palavras de Roberto eram convincentes, mas Zulmira sentiu que algo ainda estava faltando. A desconfiança em seu coração era palpável. Ela amava Roberto, mas a verdade, por mais dolorosa que fosse, precisava vir à tona.

"Roberto, eu não sei se posso acreditar em você agora. A forma como a Isabel se comportou, a forma como ela falou comigo... eu não posso simplesmente ignorar isso. E se você estiver sendo enganado, eu não quero que você se machuque."

"Você não confia em mim, Zulmira?", a voz dele soou magoada.

"Eu confio no homem que você foi, Roberto. Mas o homem que você é agora... eu não tenho tanta certeza. Eu preciso de tempo. Preciso pensar. E eu não posso arriscar meu coração novamente em uma ilusão."

Zulmira desligou o telefone, sentindo o peso da decisão em seus ombros. Ela havia escolhido a prudência, a cautela. A paixão, por mais forte que fosse, não poderia sobrepujar a sabedoria. Ela amava Roberto, mas a sombra de Isabel, e a dúvida que ela plantara, haviam tornado o caminho para a felicidade impossível. A feijoada de sábado, com todo o seu aroma de esperança, havia se tornado um símbolo de uma confusão que, para Zulmira, talvez fosse melhor deixar para trás. Ela havia feito sua escolha, uma escolha difícil, mas necessária. E agora, precisava encontrar forças para seguir em frente, sozinha. Ou, talvez, com a companhia de quem sempre esteve ao seu lado: sua filha.

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