Coração na Feijoada (e na Confusão)
Coração na Feijoada (e na Confusão)
por Priscila Dias
Coração na Feijoada (e na Confusão)
Por Priscila Dias
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Capítulo 6 — O Perfume da Saudade e o Sabor da Verdade
O cheiro da minha feijoada, aquele que impregna a casa inteira, sempre foi um convite à reunião. Uma promessa de risadas, de histórias contadas à mesa farta, de abraços apertados. Mas naquele sábado, o aroma que normalmente trazia aconchego parecia carregar uma nota agridoce, um prenúncio de que a paz que eu tanto almejava estava prestes a ser, mais uma vez, abalada. A notícia da volta de Roberto, sussurrada por vizinhas curiosas e confirmada pelo silêncio estranho de Lúcia, pairava no ar como uma nuvem carregada.
Eu, Zulmira, a matriarca da família, a mulher que dedicou a vida a cuidar dos seus, me via num labirinto de emoções. Lúcia, minha filha, tão pura e agora tão desiludida, merecia um amor que a fizesse florescer, não um que a deixasse murcha sob o peso de um passado que insiste em retornar. E Roberto… ah, Roberto. O homem que um dia fez meu coração bater mais forte, o pai que se ausentou, o enigma que sempre esteve ali, à espreita.
Na cozinha, o feijão cozinhava lentamente, liberando seu aroma rico e terroso. Eu mexia o angu com um esmero quase ritualístico, cada movimento calculando os riscos, ponderando as consequências. As mãos, acostumadas ao preparo de banquetes, agora tremiam levemente. Lúcia estava na sala, o violão em seu colo, mas os dedos que acariciavam as cordas não produziam melodia alguma. Apenas um silêncio pontuado por suspiros contidos.
De repente, a campainha tocou. Um toque hesitante, quase tímido. Meu coração disparou. Quem seria? Minha intuição, essa velha conhecida que raramente me enganava, já gritava um nome. Respirei fundo, coloquei o avental de lado e fui atender.
Na soleira, parado sob a luz alaranjada do fim de tarde, estava ele. Roberto. O tempo o moldara, suavizara alguns traços, mas a profundidade daquele olhar, a curva levemente melancólica dos lábios, eram inconfundíveis. Vestia um terno elegante, um pouco formal demais para a ocasião, e trazia consigo um pequeno buquê de margaridas, as flores preferidas de Lúcia na infância.
“Zulmira”, ele disse, a voz embargada pela emoção. “Posso entrar?”
Hesitei. Cada fibra do meu ser gritava para fechar a porta, para protegê-la. Mas vi ali, nos olhos dele, não a arrogância do passado, mas uma fragilidade que me desarmou. E pensei em Lúcia. Pensei no que ela precisava: talvez não a minha proteção cega, mas a coragem de enfrentar a vida, com suas dores e suas surpresas.
“Entre, Roberto”, respondi, a voz mais firme do que eu esperava. “Mas saiba que as coisas mudaram por aqui.”
Ele entrou, o perfume discreto do seu perfume misturando-se ao da feijoada. Olhou ao redor, os olhos percorrendo a sala, os móveis familiares, os retratos nas paredes. Senti o peso do seu olhar sobre as minhas próprias lembranças.
“Você não mudou nada, Zulmira”, ele disse, um sorriso fraco surgindo. “Essa casa ainda tem o seu cheiro.”
“E você”, retruquei, sem me dar conta, “ainda traz consigo o aroma de um tempo que eu preferia ter esquecido.”
Ele suspirou, o sorriso desaparecendo. “Eu sei. E entendo o seu ressentimento. Mas eu precisava vir. Precisava ver Lúcia.”
“Lúcia está na sala”, apontei, o coração apertando. “E ela não está esperando por você.”
Ele assentiu, a expressão grave. “Eu imagino. Mas eu… eu preciso tentar. Pelo menos explicar.”
Enquanto ele caminhava em direção à sala, eu voltei para a cozinha, as mãos agora completamente trêmulas. O som dos seus passos, a ressonância da sua voz no corredor, tudo me levava de volta a um tempo de paixão avassaladora, mas também de profunda desilusão. Era como se um fantasma tivesse retornado, e eu não sabia se estava pronta para confrontá-lo.
Lúcia, ao ver Roberto parado na porta da sala, sentiu o ar fugir dos seus pulmões. O violão escorregou do seu colo, caindo no tapete com um baque surdo. As margaridas em suas mãos pareciam zombar dela, flores de um passado que ela tentava desesperadamente enterrar.
“Pai?”, ela sussurrou, a voz embargada. Era a primeira vez que chamava aquele homem de pai em quase vinte anos.
Roberto deu um passo à frente, os olhos marejados. “Minha filha. Lúcia.” Ele estendeu a mão, mas hesitou, sem saber se ela permitiria o toque. “Eu… eu não sei por onde começar.”
Lúcia se levantou devagar, o corpo rígido. “Você teve vinte anos para saber por onde começar. E escolheu o silêncio.”
“Eu fui um covarde, Lúcia. Um imenso, estúpido covarde. Mas não foi por falta de amor. Jamais por falta de amor por você. E por sua mãe.”
As palavras o atingiram como pedras. Lúcia sentiu um nó na garganta. O amor? Aquele homem que desapareceu sem deixar rastros falava de amor?
“Não ouse falar de amor para mim”, ela disse, a voz ganhando força, a dor a impulsionando. “O que é o amor para você, pai? Um sentimento que se usa e se descarta como uma roupa velha? Um sentimento que te permite fugir quando as coisas ficam difíceis?”
Roberto engoliu em seco, a culpa estampada no rosto. “Não, Lúcia. O amor é… é tudo. E foi por amor que eu pensei que precisava me afastar. Foi um erro terrível. Um erro que me assombra todos os dias.”
Zulmira, que observava a cena da porta da cozinha, sentiu o coração apertar. A conversa entre mãe e filha, agora pais e filha, era um eco das próprias batalhas que ela travara.
“Explique-se, então”, Lúcia a desafiou, os olhos azuis faiscando de raiva e mágoa. “Explique essa sua ausência que me deixou marcada. Que fez a minha mãe sofrer. Que me fez questionar o meu próprio valor.”
Roberto respirou fundo. O perfume das margaridas parecia intensificar-se, um lembrete pungente do tempo que havia passado. “Eu fui para o exterior logo depois que você nasceu. Havia… havia um projeto. Um investimento que parecia ser a salvação da minha vida, da nossa família. Eu acreditava que, ao voltar com o dinheiro, tudo se resolveria. Que vocês me perdoariam. Mas as coisas se complicaram de uma forma que eu jamais imaginei. Fui enganado, Zulmira. Fui roubado. Perdi tudo. E a vergonha… a vergonha me paralisou.”
Ele olhou para Zulmira, que agora se aproximava devagar, os olhos fixos nos dele. “Eu voltei várias vezes, Zulmira. Tentava te ver, tentava ver Lúcia. Mas a sua porta estava sempre fechada para mim. E eu… eu entendia. A dor nos seus olhos era um espelho da minha própria falha.”
Zulmira o encarou. Lembrava-se daqueles olhares furtivos na rua, das tentativas frustradas de aproximação. Ela o expulsara, sim. Com a dignidade ferida e o orgulho de mãe ferido.
“E por que agora, Roberto?”, ela perguntou, a voz carregada de incredulidade. “Por que voltar depois de tanto tempo, quando Lúcia já nem é mais a sua menina?”
“Eu descobri que estou doente, Zulmira”, ele confessou, e o peso daquelas palavras pairou no ar. “Não é nada que eu possa esconder para sempre. E antes que… antes que o fim chegue, eu precisava, eu precisava ver minhas filhas. Precisava tentar consertar o que eu pude quebrar.”
Um silêncio pesado se instalou. Lúcia sentiu as pernas tremerem. Doente? A notícia a atingiu com a mesma força da sua partida. A raiva começou a dar lugar a uma confusão de sentimentos. A mágoa ainda estava ali, latente, mas a perspectiva da perda iminente abriu uma fenda em sua armadura.
Zulmira, a mulher forte e resiliente, sentiu um aperto no peito. O Roberto que ela conhecera, o homem apaixonado, o pai ausente, agora se apresentava frágil, doente. As margens entre o amor e a decepção, entre o perdão e a mágoa, pareciam se borrar.
“Doente?”, Lúcia repetiu, a voz quase inaudível.
Roberto assentiu, os olhos fixos no chão. “Sim. E não tenho muito tempo.”
A cozinha estava cheia do aroma da feijoada, mas o sabor que pairava na boca de Zulmira era o da incerteza. O sabor amargo da doença, o doce e perigoso sabor da possibilidade de um perdão. Aquele reencontro, que ela tanto temia, estava se desenrolando de uma forma completamente inesperada, jogando todos os seus planos por terra.
Roberto ergueu os olhos, encarando Lúcia. “Eu não espero que você me perdoe agora. Nem que me aceite de volta. Mas eu precisava te ver. Precisava te dizer que você é a coisa mais importante que eu já fiz. E que o meu maior arrependimento é ter deixado você e sua mãe sofrerem.”
Ele pousou as margensidas sobre a mesinha de centro, um gesto tímido. “Eu… eu vou ficar por perto. Se precisar de alguma coisa, Zulmira, Lúcia… por favor, me avisem.”
Ele se virou e saiu, a figura elegante agora parecendo mais encolhida, carregando o peso de anos de arrependimento e de uma doença que o consumia.
Lúcia ficou parada, as margaridas ainda nas mãos, o som do violão esquecido. A raiva, a mágoa, tudo parecia ter se transformado em uma neblina densa. Doente. A palavra ecoava em sua mente. Seu pai, o homem que a abandonara, estava doente. E ela não sabia como reagir.
Zulmira, ao ver a filha em desalento, aproximou-se e a abraçou. O perfume da feijoada, antes um convite à festa, agora parecia um abraço reconfortante em meio à tempestade.
“Calma, meu amor”, ela sussurrou, o coração partido em mil pedaços. “Calma. A vida às vezes nos prega peças que nem o feijão mais bem cozido consegue explicar.”
Na cozinha, o feijão continuava a borbulhar, um som constante em meio ao caos emocional. O sabor da verdade, por mais dolorosa que fosse, havia invadido a casa. E o coração na feijoada, aquele que Zulmira jurou proteger, agora pulsava com uma nova e complexa melodia.
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