Coração na Feijoada (e na Confusão)

Capítulo 8 — O Mistério das Receitas e a Conspiração da Vizinhança

por Priscila Dias

Capítulo 8 — O Mistério das Receitas e a Conspiração da Vizinhança

O dia seguinte à visita de Roberto amanheceu com uma luz diferente, mais suave, como se o próprio sol quisesse apagar as sombras do passado. A casa, que na véspera fervilhava de emoções turbulentas, agora exalava uma calma tensa, um silêncio carregado de expectativas. Lúcia, embora ainda abalada, parecia mais leve, o peso do ressentimento dando lugar a uma curiosidade cautelosa. Eu, Zulmira, sentia um misto de alívio e apreensão. Ver Roberto tão fragilizado, e Lúcia aberta a um diálogo, era um alento, mas a incerteza sobre o futuro pairava como uma névoa.

Para piorar, Dona Florinda, a vizinha mais fofoqueira da rua, apareceu logo cedo, como um furacão de informações duvidosas. Ela, com seu olhar penetrante e seu jeito de quem sabe de tudo, parecia ter captado cada nuance da visita de Roberto e, claro, já estava tecendo sua própria versão dos fatos.

“Zulmira, minha querida!”, ela exclamou, invadindo a cozinha sem cerimônias, o cheiro de perfume barato e de biscoito de polvilho no ar. “Que reviravolta, não é mesmo? O marido que desapareceu… e volta assim, todo pálido, com umas flores debaixo do braço! Eu sabia que tinha algo no ar. Essas almas perdidas sempre voltam, não é?”

Eu forcei um sorriso, enquanto tentava manter minha compostura. “Florinda, que surpresa. Eu nem te vi chegar.”

“Ah, querida, a gente tem que ficar de olho! E essa história dele estar doente… ai, ai, ai. Será que é mais um golpe? Ou será que ele veio para se redimir antes do… você sabe? Do grande juízo final?” Ela piscou um olho conspiratório, como se dividíssemos um segredo inconfessável.

Lúcia, que estava na sala, ouvindo a conversa, revirou os olhos. Aquele entusiasmo exagerado de Dona Florinda sempre a irritava. Ela preferia a solidão do seu quarto à invasão de fofocas alheias.

“Mãe, eu vou subir. Tenho que pensar em algumas coisas”, Lúcia disse, a voz um pouco mais firme do que no dia anterior.

Enquanto Lúcia subia, Dona Florinda baixou a voz, inclinando-se para mim. “E a tal da Isabel, Zulmira? Dizem que é uma mulher elegante, daquelas que sabem o que querem. Será que ela está por trás disso tudo? Mandou o homem de volta pra cá para quê? Para causar mais confusão?”

A menção de Isabel me atingiu em cheio. Eu não sabia que Dona Florinda já sabia sobre o envolvimento de Isabel, muito menos sobre o álbum de fotos. A velocidade com que as notícias se espalhavam na vizinhança era assustadora.

“Florinda, a senhora está imaginando coisas”, eu disse, tentando parecer calma. “Roberto veio ver a filha. E Isabel… Isabel faz parte do passado.”

“Do passado, querida? Ah, minha filha, o passado é um fantasma que adorar ter companhia! E eu ouvi dizer que ele andou falando com a viúva do Seu Josias, aquela que mora ali na rua de cima. A que tem um restaurante chique, sabe? Dizem que ela está dando umas dicas de comida pra ele… como se ele fosse cozinhar para alguém!”

O que Dona Florinda disse me pegou de surpresa. Roberto falando com a viúva do Seu Josias? Helena? A mulher conhecida por seus pratos elaborados e seu temperamento ácido. Por que Roberto estaria buscando conselhos culinários dela?

“Isso é estranho”, eu murmurei, mais para mim mesma.

“Estranho é pouco, Zulmira!”, Florinda exclamou, esfregando as mãos. “E o pior é que eu ouvi dizer que ele quer voltar a cozinhar! Ele, o homem que sumiu por vinte anos, de repente quer virar chef de cozinha? E com as receitas da Helena! Que absurdo! Será que ele está tentando impressionar alguém? Ou talvez… talvez ele queira abrir um restaurante para fugir de alguma dívida antiga?”

A mente de Florinda era um vulcão em erupção de teorias conspiratórias. Mas, por mais exagerada que ela fosse, uma ponta de preocupação se acendeu em mim. Roberto doente, querendo cozinhar, com as receitas de Helena… tudo isso me parecia estranho demais.

“Eu preciso ir, Zulmira”, Dona Florinda disse, levantando-se dramaticamente. “O meu pudim de leite já deve estar assando e eu preciso ficar de olho. Mas se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, me chame! Eu sei como as coisas funcionam por aqui. E sei quem está tramando o quê!”

Ela saiu, deixando para trás um rastro de perfume e de desconfiança. Eu fiquei ali, no meio da cozinha, o aroma da feijoada agora misturado a um perfume de intriga. Roberto querendo cozinhar? Por quê? E por que com as receitas de Helena? Aquilo não se encaixava.

Lembrei-me da conversa com Lúcia sobre a necessidade de ela encontrar seu próprio caminho, de não ficar à sombra da minha existência. E agora, Roberto, com sua doença e seu passado, parecia querer se reinventar, talvez até mesmo buscando um propósito. Mas qual seria esse propósito?

Naquela tarde, enquanto eu me dedicava a organizar os ingredientes para a feijoada do dia seguinte, Lúcia desceu, o álbum de fotos nas mãos.

“Mãe, eu estava olhando as fotos de novo”, ela disse, a voz mais serena. “E tem uma coisa que não entendi. Essa mulher aqui… ela parece estar grávida.”

Ela me mostrou uma foto. Eu era jovem, radiante, e segurava uma barriga saliente. Roberto estava ao meu lado, o rosto jovem e cheio de esperança.

“Essa foto, meu amor”, eu disse, o coração apertando de saudade. “Essa foto foi tirada um pouco antes de você nascer. Eu estava grávida de você.”

Lúcia olhou para a foto com uma expressão pensativa. “Mas pai disse que ele saiu logo depois que eu nasci. E essa foto é de antes de eu nascer.”

“Sim, filha. Ele saiu depois que você nasceu. Mas ele se foi. E eu fiquei.”

O silêncio se instalou entre nós, interrompido apenas pelo som do meu batedor de ovos, preparando a massa para um bolo que eu pretendia fazer para Lúcia.

De repente, ouvi um barulho na rua. Não era o barulho comum de carros passando ou de crianças brincando. Era um barulho mais… organizado. Como um grupo de pessoas se reunindo.

Olhei pela janela da cozinha e vi. Era um grupo de vizinhas, todas elas, reunidas na frente da casa de Dona Florinda. Elas estavam cochichando, apontando para algum lugar, e pareciam estar tramando algo. A conspiração da vizinhança estava em andamento.

“Mãe, quem são elas?”, Lúcia perguntou, aproximando-se da janela.

“Acho que a Dona Florinda resolveu espalhar a notícia do Roberto e da tal Helena para toda a rua”, eu respondi, sentindo um arrepio percorrer minha espinha. “E elas estão juntando forças, com certeza.”

Naquele momento, a campainha tocou, desta vez de forma mais insistente. Fui atender, e lá estava Helena, a viúva do Seu Josias. Ela parecia elegante, mas com uma expressão tensa.

“Zulmira, eu preciso falar com você. É urgente”, ela disse, a voz firme.

Eu a convidei para entrar, e Lúcia, curiosa, permaneceu na porta da sala, ouvindo.

“O que foi, Helena?”, eu perguntei.

“O Roberto”, ela começou, a voz embargada. “Ele esteve aqui hoje. Ele me pediu as minhas receitas. Ele quer abrir um restaurante. Mas não é só isso. Ele me disse que… que ele está com uma doença grave. E que ele quer fazer algo importante antes que… antes que o fim chegue.”

Eu a olhei, surpresa. “Ele disse isso a você? Mas… por quê? Por que as suas receitas?”

“Ele disse que o senhor Josias sempre admirou a sua comida. Que ele achava que as suas receitas eram a alma da culinária brasileira. E que ele queria tentar replicar isso. Ele quer abrir um restaurante com comida brasileira autêntica. Mas… mas tem algo mais.”

Helena hesitou, como se não tivesse certeza se deveria me contar.

“O quê, Helena?”, eu insisti.

“Ele me disse que você, Zulmira, sempre foi uma cozinheira incrível. Que a sua feijoada é lendária. E que ele quer… ele quer aprender com você. Ele quer que você o ensine a fazer a verdadeira feijoada brasileira. E ele quer que eu o ajude a encontrar um lugar para isso. Ele quer criar um legado. Um legado de sabor. E ele disse que o seu nome, Zulmira, será sempre associado a isso.”

Eu fiquei chocada. Roberto querendo aprender comigo? Aprender a fazer a minha feijoada? E ele querendo criar um legado? Era uma reviravolta que eu jamais imaginaria.

“Ele disse isso mesmo?”, eu perguntei, a voz trêmula.

“Sim. E eu acho que ele está falando sério”, Helena respondeu, olhando para mim com seriedade. “Eu vim te avisar. Ele está se envolvendo com muita gente. Ele está juntando um pessoal… e eu não sei se ele está bem. Ele está fraco, Zulmira. E com a saúde debilitada, ele pode ser facilmente manipulado.”

O que Helena disse confirmou meus medos. Roberto, com sua doença e seu desejo de redenção, poderia se tornar um alvo fácil. E a conspiração da vizinhança, liderada por Dona Florinda, provavelmente só aumentaria a pressão sobre ele.

“Eu preciso pensar”, eu disse, sentindo o peso das minhas responsabilidades aumentar.

Helena assentiu. “Eu sei. E eu também estou preocupada. Por ele, por você, por Lúcia. Por todos nós. Essa história de restaurante… pode ser uma boa coisa, mas também pode ser o fim dele se as pessoas erradas se aproveitarem da situação.”

Quando Helena se foi, eu fiquei ali, olhando para a porta, o coração acelerado. Roberto, o homem que me abandonou, agora buscava em mim a sabedoria culinária, um eco do passado que se manifestava de forma inesperada. E ele queria criar um legado. Um legado que envolvia o meu nome, a minha feijoada.

Lúcia se aproximou de mim, o álbum de fotos ainda em suas mãos.

“Mãe, o que está acontecendo?”, ela perguntou, a preocupação estampada em seu rosto.

Eu a olhei, e pela primeira vez, vi nela não apenas a minha filha, mas uma mulher forte, capaz de enfrentar as tempestades da vida.

“Acontece, minha filha”, eu disse, com um leve sorriso. “Que o seu pai, com todo o seu passado e toda a sua dor, decidiu que quer deixar algo de bom para o mundo. E, por mais estranho que pareça, ele acha que a sua mãe, e a sua feijoada, são o ponto de partida.”

A conspiração da vizinhança, liderada por Dona Florinda, e o mistério das receitas de Helena, tudo isso se juntava em um caldeirão de incertezas. Mas, no meio de tanta confusão, uma coisa era clara: o coração na feijoada, aquele que eu jurara proteger, agora pulsava com a necessidade de um novo começo, de um legado de sabor e de perdão.

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