Coração na Feijoada (e na Confusão)

Capítulo 9 — A Proposta de Roberto e a Confeitaria de Sonhos

por Priscila Dias

Capítulo 9 — A Proposta de Roberto e a Confeitaria de Sonhos

O burburinho na vizinhança era palpável. Dona Florinda, com sua habilidade ímpar para espalhar notícias como fogo em palha seca, já havia transformado a volta de Roberto em um épico digno de novela das oito. A ideia dele querer abrir um restaurante, aprender a cozinhar as receitas de Helena e, o mais chocante de tudo, querer que eu, Zulmira, o ensinasse a fazer a minha famosa feijoada, era o prato principal das conversas na padaria, no salão de beleza e até mesmo na fila do pão.

Eu, Zulmira, sentia o peso da responsabilidade e a ironia da situação. O homem que me deixou para trás, que partiu sem olhar para trás, agora voltava buscando a minha orientação culinária. Era uma reviravolta digna de um roteiro de cinema, e eu, a protagonista involuntária, me via no centro de um furacão de emoções e expectativas.

Naquele dia, enquanto eu organizava os ingredientes para a próxima feijoada, a campainha tocou. Hesitei por um instante. Seria Roberto? Ou Helena, buscando mais informações? Ao abrir a porta, dei de cara com um sorriso hesitante e um buquê de girassóis, as flores que Lúcia adorava.

“Zulmira”, disse Roberto, a voz ainda frágil, mas com um tom de esperança que me surpreendeu. “Eu… eu queria te fazer uma proposta. Uma proposta que pode parecer loucura, mas que é sincera.”

Ele entrou, e eu o observei atentamente. Havia uma determinação em seus olhos que contrastava com a fragilidade do seu corpo. Lúcia, que estava na sala, aproximou-se, observando a cena com uma curiosidade cautelosa.

“Diga, Roberto”, eu respondi, tentando manter a neutralidade.

“Eu quero abrir um restaurante”, ele começou, a voz ganhando firmeza. “Um restaurante que celebre a verdadeira culinária brasileira. Com a sua feijoada como carro-chefe.”

Eu o encarei, sem saber o que dizer. O meu restaurante? A minha feijoada? Ele queria usar o meu nome, o meu legado, para construir o seu próprio futuro?

“E o que isso tem a ver comigo, Roberto?”, perguntei, a voz soando mais dura do que eu pretendia.

“Tudo, Zulmira. Tudo”, ele respondeu, seus olhos encontrando os meus. “Você é a dona dessa receita. Você é a alma dessa feijoada. Eu não quero roubar nada de você. Eu quero… eu quero aprender com você. Eu quero que você me ensine. E eu quero que você seja uma sócia nesse projeto. Uma parceira.”

A proposta era audaciosa. Roberto, o homem que me abandonou, queria me incluir em seu novo empreendimento. Ele queria que eu compartilhasse com ele o meu conhecimento, a minha experiência. Era uma oferta que me deixava em um dilema. Por um lado, a ideia de ver a minha feijoada ganhar o mundo, de ver o meu legado se expandir, era tentadora. Por outro, a desconfiança, a mágoa do passado, me impediam de aceitar de imediato.

Lúcia, que ouvira tudo, se aproximou. “Pai, você está falando sério? Você quer que a minha mãe, que passou a vida toda cuidando de nós, agora trabalhe com você? Com o restaurante que você quer abrir?”

“Sim, Lúcia”, Roberto respondeu, olhando para a filha com um misto de súplica e esperança. “Eu sei que é pedir muito. Mas eu quero fazer isso certo desta vez. Eu quero construir algo verdadeiro. E com a Zulmira ao meu lado, eu sei que é possível. Ela é a melhor. E eu quero aprender com a melhor.”

Eu me afastei, precisando de um momento para processar tudo. A ideia de trabalhar com Roberto, o homem que um dia foi o amor da minha vida e o pai da minha filha, era assustadora e excitante ao mesmo tempo.

“Roberto”, eu disse, a voz embargada. “Você me abandonou. Você deixou sua família, deixou suas responsabilidades. E agora, você volta, doente, e quer que eu te ajude a construir um futuro? Um futuro que você deveria ter construído conosco há vinte anos atrás?”

Ele suspirou, a culpa estampada em seu rosto. “Eu sei. Eu sei que errei. E eu não espero que você me perdoe da noite para o dia. Mas eu quero tentar, Zulmira. Eu quero consertar as coisas. E esse restaurante… essa é a minha forma de tentar. E eu quero que você faça parte disso. Não apenas como professora, mas como sócia. Como alguém que tem voz e voto. Como alguém que me ajuda a construir um legado que seja digno de vocês.”

Lúcia olhou para mim, os olhos cheios de uma mistura de desconfiança e curiosidade. Ela sabia o quanto a minha feijoada significava para mim, o quanto eu me dedicava a ela. Ver essa paixão sendo oferecida a Roberto, para um projeto dele, era algo difícil de processar.

“Mãe, você… você pensou nisso?”, Lúcia perguntou, a voz um sussurro.

Eu respirei fundo, o aroma do café fresco invadindo a cozinha. “Filha, essa é uma decisão difícil. Roberto me machucou profundamente. Mas… mas ele está doente. E ele quer fazer algo de bom. E a ideia de ver a minha feijoada ganhar o mundo… é algo que sempre sonhei.”

Naquele momento, a campainha tocou novamente. Dessa vez, era Helena, a viúva do Seu Josias. Ela parecia ainda mais preocupada do que antes.

“Zulmira, eu preciso te contar mais uma coisa”, Helena disse, a voz tensa. “Eu soube que algumas pessoas da vizinhança estão pressionando o Roberto. Estão querendo se aproveitar da situação dele. Estão dizendo que ele está endividado, que precisa de dinheiro rápido. Dona Florinda, principalmente. Ela está espalhando boatos que podem prejudicar ele e o seu futuro restaurante.”

A notícia de Helena confirmou os meus receios. Roberto, com sua fragilidade e seu desejo de recomeçar, poderia se tornar um alvo fácil para as más intenções.

“Eu já imaginava”, eu disse, sentindo a urgência da situação. “Ele me fez uma proposta. Quer abrir um restaurante, com a minha feijoada como carro-chefe. E quer que eu seja sócia.”

Helena me olhou, surpresa. “Uma sócia? Que audácia! Mas talvez seja a melhor coisa que pode acontecer. Se você estiver lá, para guiá-lo, para protegê-lo das más influências…”

Eu olhei para Roberto, que me observava atentamente, a esperança em seus olhos. Olhei para Lúcia, que me olhava com uma mistura de apreensão e apoio. E pensei no meu sonho. No sonho de ver a minha feijoada, o meu legado, reconhecido.

“Roberto”, eu disse, a voz mais firme. “Aceito a sua proposta. Mas com uma condição.”

Ele me olhou, a expectativa estampada no rosto. “Qualquer coisa, Zulmira.”

“Você vai fazer as coisas do meu jeito. Você vai aprender tudo o que eu tenho para ensinar. E você vai me tratar como uma sócia, com respeito. E Lúcia… Lúcia também terá um papel importante nisso. Ela será a alma da nossa confeitaria. O lugar onde os nossos doces sonhos vão florescer.”

Os olhos de Roberto brilharam. “Confeitaria? Você quer dizer… uma parte do restaurante dedicada a doces?”

“Exatamente. E quem melhor do que a minha filha para criar um espaço de doçura e alegria?”, eu respondi, olhando para Lúcia, que sorriu timidamente.

Lúcia sempre teve um talento especial para a confeitaria. Seus bolos, seus doces, eram feitos com amor e criatividade. Ver que ela teria um espaço para desenvolver seu talento, ao lado do pai que ela mal conhecia, era algo que me emocionava.

“Eu… eu adoraria, mãe!”, Lúcia exclamou, o entusiasmo tomando conta dela. “Eu sempre quis ter a minha própria confeitaria!”

Roberto sorriu, um sorriso genuíno e esperançoso. “Então está feito. Uma feijoada lendária, uma confeitaria de sonhos, e eu, aprendendo com as duas melhores mulheres do mundo.”

Naquele dia, em meio à confusão da vizinhança e às incertezas do futuro, um novo projeto nasceu. Um projeto que unia o passado e o presente, a dor e a esperança, a feijoada e os doces. Um projeto que, talvez, pudesse curar as feridas do passado e construir um futuro mais doce para todos nós.

---

Compartilhar este capítulo:

เว็บไซต์นี้ใช้คุกกี้

เราใช้คุกกี้เพื่อปรับปรุงประสบการณ์การอ่านนิยายของคุณ วิเคราะห์การเข้าชม และแสดงโฆษณาที่เกี่ยวข้อง รายได้จากโฆษณาช่วยให้เราให้บริการอ่านนิยายฟรีต่อไปได้ อ่านรายละเอียดเพิ่มเติมที่ นโยบายความเป็นส่วนตัว

ตะกร้า eBook

ตะกร้าว่างเปล่า

เพิ่ม eBook ลงตะกร้าเพื่อรับส่วนลดพิเศษ

ส่วนลด Bundle

ซื้อ 3-4 เล่มลด 10%
ซื้อ 5-9 เล่มลด 15%
ซื้อ 10+ เล่มลด 20%