O Segredo da Açucareira

Capítulo 14 — A Corrente Quebrada

por Vitor Monteiro

Capítulo 14 — A Corrente Quebrada

A noite da lua nova chegou como um manto de veludo escuro, engolindo os últimos resquícios de luz do dia. O silêncio na Fazenda Santa Bárbara era quase absoluto, um silêncio prenhe de expectativa, de medos latentes e de esperanças que se agarravam à escuridão. As candeias na Casa Grande estavam apagadas, o Comendador e sua esposa recolhidos em seus aposentos, alheios à tempestade que se formava nas entranhas da propriedade.

Na senzala, o ar era rarefeito, carregado de suor e de uma tensão que parecia cortar o próprio ar. João, Marta e um grupo seleto de escravos se reuniram em um canto isolado, sob a sombra de uma velha mangueira. A notícia da fuga iminente havia se espalhado como um segredo sussurrado, e aqueles que haviam decidido arriscar tudo estavam ali, os corações batendo em uníssono, a adrenalina correndo em suas veias.

“Estamos prontos?”, perguntou João, sua voz um sussurro rouco. Seus olhos escuros, acostumados à escuridão, perscrutavam os rostos ao redor, buscando sinais de hesitação.

Marta assentiu, abraçando seus filhos, que dormiam profundamente em seu colo, alheios ao perigo iminente. “Estamos prontos. A Senhora de Engenho nos avisou sobre a vigilância redobrada. Precisamos ser rápidos e silenciosos.”

Benício, com o pé ainda enfaixado, mas a determinação em seus olhos intacta, carregava uma pequena trouxa com provisões. “Qualquer um que seja pego, não fale nada. A luta é de todos nós.”

O plano era simples, mas arriscado. Uma vez fora da senzala, eles se dirigiriam para a mata, onde Zumbi e seu grupo os esperavam. A informação de Dona Isabel sobre a intensificação da vigilância, especialmente nos arredores da propriedade, era crucial. Eles teriam que evitar os caminhos conhecidos e se aventurar por um terreno mais perigoso, mas menos patrulhado.

Enquanto o grupo de João se preparava para a fuga, uma figura solitária se movia furtivamente pelos corredores escuros da Casa Grande. Era Clara, a jovem escrava que havia recebido a mensagem de Dona Isabel. Ela não ia fugir; sua missão era outra. Guiada por um senso de dever e uma esperança secreta, ela se dirigiu ao quarto de Dona Isabel.

A Senhora de Engenho, sob o pretexto de uma indigestão, aguardava sua chegada. Quando Clara entrou, Dona Isabel lhe entregou um pequeno pacote.

“Aqui, Clara. É um pouco de dinheiro. E um mapa rudimentar que meu falecido pai fez, mostrando algumas rotas de fuga secretas pelas matas, usadas antigamente para fugir de corsários. Não sei se ainda são úteis, mas talvez ajudem.” A voz de Dona Isabel era baixa, carregada de uma emoção que ela lutava para conter. “E diga a eles… diga a João… que não posso fazer mais nada. Mas que meu coração está com eles. Que a coragem não os abandone.”

Clara, com os olhos marejados, pegou o pacote. Ela entendia o risco que Dona Isabel corria. A traição era um crime grave, punível com severidade.

“Obrigada, Senhora”, disse Clara, sua voz embargada. “Eles saberão.”

Com a mensagem e as instruções de Dona Isabel em mãos, Clara se dirigiu para a senzala, seu coração batendo acelerado. Ela encontrou João pouco antes de ele dar o sinal.

“João!”, chamou ela baixinho. “A Senhora de Engenho mandou isso.” Ela entregou o pacote a ele. “E disse para você ter cuidado. Que há rotas secretas, e que ela torce por vocês.”

João, surpreso, abriu o pacote e examinou o mapa com a pouca luz que entrava por uma fresta. A informação era inestimável. As rotas secretas, escondidas por anos, poderiam ser a chave para a sua sobrevivência. Ele sentiu uma onda de gratidão por Dona Isabel, uma alma inesperada em meio à crueldade que o cercava.

“Obrigado, Clara. Diga à Senhora de Engenho que sua coragem nos inspira”, disse João, sua voz firme. “Agora, vamos.”

Ele fez um sinal para o grupo. Um por um, eles se esgueiraram para fora da senzala, os movimentos calculados, os sentidos aguçados. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som distante de uma coruja e o farfalhar das folhas sob seus pés. A mata, escura e densa, os aguardava.

Enquanto isso, no quartel improvisado onde o Capitão Silva e seus homens estavam alojados, o sono era agitado. O Capitão, acostumado a ter o controle absoluto, sentia uma inquietação estranha. A informação de que Dona Isabel havia se comportado de forma atípica, demonstrando certo desconforto com seus métodos, o deixara em alerta.

“Algo não está certo”, murmurou ele para um de seus capatazes, um homem brutal chamado Ramiro. “A Senhora de Engenho… ela não é como os outros. E esses escravos… sinto um cheiro de rebelião no ar.”

Ramiro, um homem de poucas palavras e muita violência, assentiu. “O senhor sabe o que fazer, Capitão. Se houver qualquer problema, nós saberemos como resolver.”

O Capitão Silva se levantou, seus olhos azuis brilhando na escuridão. Ele decidiu fazer uma ronda pessoal pelos arredores da propriedade, acompanhado por Ramiro. Ele não podia permitir que qualquer desordem abalasse a ordem que ele tanto se esforçava para manter.

Enquanto João e seu grupo se embrenhavam na mata, seguindo as rotas indicadas no mapa de Dona Isabel, eles ouviram um barulho distante. O som de vozes, o crepitar de uma lanterna. Eram os homens do Capitão Silva.

“Rápido!”, sussurrou João. “Eles estão vindo. A rota que Dona Isabel marcou é a nossa única chance.”

Eles se apressaram, a adrenalina impulsionando-os. O terreno era irregular, cheio de raízes e pedras. Marta tropeçou, mas João a segurou a tempo. Os gritos dos capatazes se aproximavam.

“Pare! Quem está aí?”, bradou Ramiro.

O grupo de João se escondeu atrás de uma densa folhagem, os corações martelando no peito. A lanterna dos capatazes varreu a escuridão, seus feixes de luz cortando o véu da noite. Por um momento, pareceu que seriam descobertos. Mas o Capitão Silva, com sua experiência em rastreamento, percebeu algo.

“Eles passaram por aqui”, disse ele, apontando para uma área onde a vegetação parecia ligeiramente perturbada. “Segurem-se, vamos encontrá-los.”

O Capitão e seus homens seguiram a trilha, entrando mais profundamente na mata. Mas eles não sabiam que o mapa de Dona Isabel os levava por um caminho diferente, um caminho mais sinuoso e menos óbvio.

De repente, um grito agudo rompeu o silêncio. Era um dos escravos que havia se separado do grupo principal, atraído por um som que ele pensou ser um animal. Ele havia se deparado com os capatazes.

“Lá estão eles!”, gritou Ramiro, erguendo sua lanterna.

A corrente estava quebrada. A fuga havia sido descoberta.

João e Marta, ouvindo os gritos, sabiam que o momento era de decisão. Continuar na rota secreta, correndo o risco de serem pegos separadamente, ou retornar e tentar ajudar o companheiro capturado, arriscando a liberdade de todos.

“Precisamos continuar!”, disse Marta, a voz firme, embora tingida de desespero. “Se nos pegarem, todos terão falhado.”

João hesitou por um instante, o peso da decisão esmagando-o. Mas ele sabia que Marta estava certa. A esperança de centenas dependia da fuga bem-sucedida de alguns.

“Você tem razão”, disse ele, a voz dura. “Não podemos nos deixar pegar. Mas levaremos a memória dele conosco. E a luta continuará.”

Eles seguiram em frente, o som dos gritos e da luta ficando para trás, um eco sombrio em seus corações. A corrente havia sido quebrada, mas a força da resistência, alimentada pela coragem de muitos, incluindo a Senhora de Engenho, ainda pulsava, impulsionando-os para a liberdade incerta que os aguardava na imensidão da mata.

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