O Segredo da Açucareira

Capítulo 18 — O Sussurro do Traidor

por Vitor Monteiro

Capítulo 18 — O Sussurro do Traidor

O sol implacável da tarde se debruçava sobre a fazenda da Açucareira, transformando o ar em um vapor denso e pegajoso. O canto incessante das cigarras parecia um lamento pelo sofrimento que se espalhava pela terra. Na casa grande, o Capitão Gonçalo de Lacerda sentia a impaciência corroer sua alma. Seus planos, meticulosamente traçados, pareciam se arrastar, e a incerteza era um veneno que ele não suportava.

Jonas, o escravo escolhido para ser seu espião, estava diante dele, a postura rígida, o olhar fixo no chão de azulejos. Ele era uma figura sombria, de ombros largos e músculos tensos, com um semblante que parecia ter sido esculpido pela amargura. Seus olhos, quando se erguiam, revelavam uma crueldade calculista, um prazer perverso em infligir dor.

"Você sabe o que está em jogo, Jonas", disse Gonçalo, a voz baixa e ameaçadora. "Seus irmãos escravos o veem como um deles. Mas você é meu. E sua lealdade deve ser para mim. Para mim, que lhe dou ordens, que lhe concedo o privilégio de não ser apenas mais um na senzala."

Jonas assentiu, um movimento quase imperceptível da cabeça. "Eu sei, senhor. Eu servirei bem."

"Servir bem não é o suficiente", Gonçalo retrucou, aproximando-se dele. "Eu quero que você me traga a cabeça de Zumbi. Eu quero saber onde eles se reúnem, quais são suas rotas de fuga, seus suprimentos. Quero informações precisas, Jonas. E se você me trouxer algo menos do que isso..." Ele fez uma pausa, deixando a ameaça pairar no ar. "Você desejará nunca ter nascido."

Ele se afastou, voltando a sua poltrona. "Você se misturará a eles. Fingirá ser um deles. Mas lembre-se, Jonas, você não é um deles. Você é um instrumento. E instrumentos são descartáveis."

"Eu entendo, senhor", disse Jonas, a voz rouca. Ele sabia que seu valor estava em sua utilidade, e que qualquer falha seria paga com sangue.

Enquanto isso, na cozinha da casa grande, Lúcia trabalhava incansavelmente. O calor do forno parecia um reflexo do inferno que ela se preparava para enfrentar. Ela observava tudo, ouvindo fragmentos de conversas entre os capatazes e os poucos escravos que trabalhavam ali. Seu objetivo era simples: descobrir os planos do Capitão Gonçalo e transmiti-los ao quilombo.

O principal obstáculo era Jonas. Ela o conhecia. Sabia de sua reputação, de sua crueldade. Ele era um fantasma que assombrava a senzala, um homem que parecia se deleitar com o sofrimento alheio. A ideia de que ele pudesse ser o informante de Gonçalo gelou seu sangue.

"Você parece distraída hoje, Lúcia", disse a cozinheira chefe, uma mulher robusta de pele escura e olhar severo. "O calor está te afetando?"

"Um pouco, tia Clara", Lúcia respondeu, mantendo um sorriso forçado. "Mas estou bem."

Tia Clara a observou com desconfiança por um momento. Ela sentia que algo estava diferente, que um medo oculto pairava no ar. Mas não ousava questionar demais. A vida na fazenda era uma teia complexa de regras não ditas e perigos velados.

Naquela noite, Lúcia sentiu uma presença incômoda. Ela estava guardando algumas provisões quando ouviu passos discretos se aproximando. Era Jonas.

"Você anda muito quietinha ultimamente, Lúcia", ele disse, a voz arrastada. "Parece que está pensando em algo. Pensando em quem?"

Lúcia sentiu o coração disparar. Ela se virou lentamente, mantendo a calma. "Não estou pensando em nada, Jonas. Apenas cansada do trabalho."

Jonas deu um passo à frente, invadindo seu espaço pessoal. O cheiro forte de suor e terra emanava dele. "Cansada? Ou com medo? Medo do que o Capitão Gonçalo pode fazer?" Ele sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. "Ele está planejando algo. Algo grande. Ele não vai deixar barato o que aconteceu."

Lúcia fingiu interesse, mas por dentro, sentiu um calafrio. Era a confirmação de seus piores medos. "O que ele está planejando, Jonas?"

"Ah, isso você não precisa saber", ele disse, seus olhos brilhando com um misto de superioridade e ameaça. "Mas posso lhe dar um conselho, Lúcia. Se você quer sobreviver, é melhor ficar do seu lado. O lado certo."

Ele se aproximou ainda mais, a respiração quente em seu rosto. "O Capitão Gonçalo tem muitos homens. Muitos mais do que aqueles macacos na mata. Ele vai esmagá-los. E se você tiver a sorte de estar do lado dele, talvez ele tenha piedade de você."

Lúcia se afastou, tentando manter a compostura. "Eu só quero fazer meu trabalho e viver em paz, Jonas."

"Paz?", ele riu. "Não existe paz para nós, Lúcia. Só existe obediência. E eu obedeço aos que mandam. E você deveria fazer o mesmo." Ele a encarou por um longo momento, como se tentasse desvendar seus segredos. "Se eu souber que você está tramando algo, Lúcia... você será a primeira a pagar."

Ele se virou e se afastou, deixando Lúcia sozinha na escuridão da despensa, o coração batendo descompassado. Jonas era um traidor. Ele estava trabalhando para Gonçalo. A informação precisava chegar ao quilombo o mais rápido possível.

Naquela noite, Lúcia escapou da senzala com a agilidade de uma sombra. O luar prateava a terra, e o som dos grilos era um coro constante. Ela sabia que cada passo era um risco, que os capatazes e seus cães poderiam estar em qualquer lugar. Mas a urgência em seu peito a impelia para frente.

Ela correu em direção à mata, o coração apertado de medo, mas também impulsionado pela necessidade de avisar seus irmãos. Encontrá-los não seria fácil. A mata era vasta e escura, e os caminhos que levavam ao quilombo eram perigosos.

Quando finalmente avistou as fogueiras distantes que marcavam o refúgio de Zumbi e seu povo, Lúcia sentiu um alívio imenso, mas também um novo tipo de apreensão. Ela sabia que havia entregado informações cruciais, mas que a ameaça de Jonas era real e iminente.

Ela foi recebida por guerreiros com lanças em punho, mas quando reconheceram seu rosto, a tensão diminuiu. Zumbi veio ao seu encontro, seus olhos expressando preocupação.

"Lúcia! O que faz aqui? O que aconteceu?"

Com a voz embargada pela emoção e pelo cansaço, Lúcia contou tudo o que havia ouvido. Sobre Jonas, sobre os planos do Capitão Gonçalo, sobre a iminência de um ataque.

Zumbi e Dandara se entreolharam, a gravidade da situação pesando sobre eles. A traição de Jonas era um golpe duro, mas a informação de Lúcia era vital.

"Jonas...", murmurou Dandara, a voz carregada de desprezo. "Ele sempre teve os olhos voltados para o lado do senhor."

"Não podemos nos deter em quem nos traiu", disse Zumbi, sua voz calma, mas firme. "Devemos nos preparar. Lúcia, você nos deu um aviso precioso. Agora, devemos usá-lo."

Ele se virou para seus guerreiros. "O Capitão Gonçalo está vindo. E ele virá com força total. Mas nós estamos prontos. Usaremos essa floresta, que nos acolhe, como nossa aliada. Vamos preparar emboscadas. Vamos fazer com que ele se arrependa de ter pisado em nossa terra."

Enquanto a notícia da traição se espalhava pelo quilombo, um senso de urgência tomou conta de todos. A luta pela sobrevivência se tornara mais complexa, e a sombra do traidor pairava sobre a esperança de liberdade.

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