O Segredo da Açucareira

Capítulo 3 — O Grito da Escrava

por Vitor Monteiro

Capítulo 3 — O Grito da Escrava

A Fazenda Santa Bárbara, sob o domínio do Coronel Afonso de Alencar, era um microcosmo da sociedade colonial brasileira. Um mundo de contrastes gritantes, onde a opulência dos senhores de engenho era construída sobre a exploração e o sofrimento de centenas de vidas escravizadas. Isabela, em sua gaiola dourada, começava a enxergar com mais clareza a brutalidade que sustentava o luxo de sua família.

A notícia do casamento iminente espalhava-se como fogo em palha seca, e com ela, a ansiedade de Isabela crescia. Ela se sentia cada vez mais desconfortável com a indiferença com que o Coronel e sua esposa, Dona Eulália, tratavam os escravos. Dona Eulália, uma mulher fria e calculista, com um rosto que parecia ter se esquecido de sorrir há muito tempo, era particularmente severa. Seus olhos escuros e penetrantes pareciam ver apenas a utilidade de cada corpo, a produtividade de cada mão.

Durante o almoço, em um dia particularmente quente e abafado, um incidente chamou a atenção de Isabela, perturbando a atmosfera tensa da casa grande. Uma jovem escrava, talvez com a mesma idade de Isabela, chamada Anastácia, tropeçou ao servir o vinho ao Coronel. A taça escorregou de suas mãos trêmulas e caiu no chão, espalhando o líquido escuro sobre o piso polido.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, apenas quebrado pelo som da taça partida. Anastácia ficou paralisada, o rosto pálido de terror, os olhos fixos no chão. Era um erro imperdoável.

Dona Eulália foi a primeira a reagir. Sua voz, fina e cortante como uma navalha, rasgou o silêncio. "Tonta! Inútil! Você quer me arruinar com sua incompetência?"

O Coronel Afonso não disse nada, mas seu olhar era duro. Ele detestava demonstrações de fraqueza, especialmente vindas de seus escravos. Ele fez um gesto com a mão, um sinal que Isabela aprendera a temer. Um sinal para o feitor.

O feitor, um homem corpulento e de semblante cruel chamado Bartolomeu, apareceu em segundos, como se tivesse surgido das sombras. Seus olhos, pequenos e injetados de sangue, fixaram-se em Anastácia com um prazer sádico.

"Aprenda a servir direito, criatura!", rosnou Bartolomeu, levantando o chicote.

Isabela sentiu um nó na garganta. Ela sabia o que viria a seguir. O som do chicote estalando no ar, os gritos de dor. Ela não suportava mais. Levantou-se abruptamente, derrubando sua própria cadeira.

"Pai! Mãe! Não façam isso!", ela implorou, a voz embargada. "Foi um acidente. Ela não fez por mal."

Dona Eulália a encarou com surpresa, e depois com irritação. "Isabela, sente-se! Isto não é assunto para você. É uma escrava, uma ferramenta. Ela deve aprender a obedecer."

"Mas ela está sofrendo! Olhem para ela!", Isabela insistiu, seus olhos verdes cheios de lágrimas.

O Coronel Afonso a fitou, uma ruga profunda entre as sobrancelhas. Ele raramente via sua filha demonstrar tanta emoção, especialmente por um escravo. "Isabela, este é o mundo em que vivemos. Você deve se acostumar com a ordem das coisas. Bartolomeu, dê o castigo merecido."

O chicote estalou. Anastácia soltou um grito agudo de dor, caindo de joelhos. Isabela tapou a boca com as mãos, tentando conter um soluço. Ela sentiu uma onda de repulsa, de raiva. Aquela crueldade, aquela injustiça, tudo aquilo a sufocava.

Matias, que estava do lado de fora da casa grande, supervisionando alguns trabalhadores, viu a comoção. Ele já conhecia Bartolomeu e sabia o tipo de castigo que ele aplicava. Seu sangue ferveu. Ele não podia intervir diretamente sem colocar tudo a perder, mas sabia que precisava fazer algo.

Mais tarde, quando o sol já se punha, Isabela, ainda abalada, escapou para o seu refúgio. Matias já a esperava, o rosto carregado de preocupação.

"Eu vi o que aconteceu", ele disse, a voz baixa. "Você está bem?"

"Estou", ela respondeu, a voz trêmula. "Mas Anastácia… ela está muito machucada. Eu vi os olhos dela, Matias. Os olhos dela imploravam por misericórdia."

Matias segurou as mãos dela. "Eu sei. A crueldade deles não tem limites. Mas é por isso que não podemos desistir do nosso plano."

"Eu não sei se consigo, Matias. É tão perigoso. E se formos pegos? E se meu pai me deserdar? Se me mandar para um convento?"

"E você prefere viver presa, casada com aquele homem que a despreza? Prefere viver em um mundo onde vidas como a de Anastácia são tão facilmente esmagadas?" Matias a olhou com intensidade. "O nosso amor é a nossa força, Isabela. É o que nos move. É a nossa chance de liberdade. Se deixarmos o medo nos dominar, seremos derrotados antes mesmo de começar."

Ele tirou um pequeno embrulho de seu bolso. "Eu falei com alguns dos trabalhadores. Eles concordam em nos ajudar. Conseguimos alguns cavalos e suprimentos. Na noite antes do casamento, quando todos estiverem distraídos com os preparativos finais, nós partiremos."

Isabela pegou o embrulho. Dentro, havia um pequeno punhal, delicadamente trabalhado. "Para me defender", ela sussurrou, sentindo o peso frio do metal em sua mão.

"Para que você nunca mais se sinta indefesa", Matias respondeu. "Eu também tenho as minhas armas. Juntos, somos mais fortes do que eles imaginam."

Naquela noite, Isabela não conseguiu dormir. As imagens do sofrimento de Anastácia, os gritos de dor, o olhar de desespero, assombravam seus pensamentos. Ela se sentia culpada por seu luxo, por sua vida privilegiada, enquanto outros sofriam tanto. O plano de fuga parecia cada vez mais necessário, não apenas por seu amor, mas como um ato de protesto contra a brutalidade que a cercava.

Na manhã seguinte, Isabela decidiu fazer algo que nunca havia feito antes. Ela foi até a senzala, um lugar que sempre evitara, temendo o olhar dos capatazes e o odor forte do suor e da sujeira. Com o coração batendo forte, ela procurou por Anastácia.

Encontrou-a sentada em um canto, o corpo curvado, as costas marcadas por vermelhidões doloridas. Ela levantou os olhos marejados quando Isabela se aproximou.

"Anastácia", Isabela disse, sua voz suave, tentando transmitir conforto. "Eu sinto muito pelo que aconteceu ontem."

Anastácia apenas olhou para ela, sem expressão. A dor e o medo haviam roubado sua voz.

Isabela sentou-se perto dela, sem se importar com a sujeira. Tirou do bolso um pequeno pedaço de pano com algumas ervas medicinais que sua avó lhe ensinara a usar. "Minha avó me ensinou a usar isto para aliviar a dor. Por favor, aceite."

Ela depositou o pano nas mãos trêmulas de Anastácia. A escrava a olhou com uma mistura de surpresa e desconfiança. Era a primeira vez que uma senhora da casa demonstrava tal compaixão por ela.

"Eu… eu agradeço, senhora", Anastácia murmurou, a voz rouca e fraca.

"Não me chame de senhora. Meu nome é Isabela", ela disse. "E um dia, espero que não haja mais 'senhoras' e 'escravos'. Apenas pessoas."

Anastácia a encarou, e pela primeira vez, Isabela viu um vislumbre de esperança nos olhos daquela jovem. Um lampejo de algo que ela mesma buscava: a dignidade.

Isabela sabia que aquele pequeno gesto de bondade não mudaria o mundo, mas era um começo. Era um grito silencioso contra a opressão, um ato de solidariedade que fortalecia sua determinação. O grito da escrava, o grito de dor e sofrimento, ressoava agora em sua alma, impulsionando-a para a fuga, para a liberdade. O punhal em seu bolso e as ervas nas mãos de Anastácia eram os primeiros passos de um caminho perigoso, mas necessário. O caminho para a vida que ela almejava.

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